Entrevista a João Pedro Taborda publicada na revista Executive Digest. Julho 2021

A FORMA COMO EXIGE O MELHOR DOS SABERES EM TANTAS ÁREAS DIFERENTES É O QUE MAIS FASCINA JOÃO PEDRO TABORDA, NA INDÚSTRIA DA AVIAÇÃO.

João Pedro Taborda é Director de Relações Externas da Embraer desde 2005. A empresa está sediada em Bruxelas e o profissional é responsável por assuntos com governos e por políticas públicas com impacto para o Grupo na região de Europa, África e Médio Oriente. É licenciado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico, escola onde obteve também o grau de Mestre em Gestão de Tecnologia e Políticas de Engenharia com especialização no tema de compensações económicas associadas a aquisições públicas. No âmbito das duas funções na Embraer, está envolvido desde 2006 na equipa constituída para conduzir as negociações com o Governo Português que resultarem na instalação em Évora de duas novas fábricas para a construção de segmentos em materiais e materiais compósitos destinados aos produtos da Embraer. De entre as actividades associadas a este trabalho esteve envolvido num trabalho de quatro anos com a AICEP para qualificação de empresas portuguesas com vista ao fornecimento à Embraer e ao sector aeronáutico a nível Global, para além do apoio na definição e implantação de projectos de I&D suportados por parcerias entre o Sistema Científico e Tecnológico Nacional e a Embraer. Em paralelo com o desenvolvimento de projectos financiados pela Comissão Europeia participa desde 2006 em iniciativas em Portugal, como o projecto LIFE na área da demonstração de conceitos em interiores de cabine, premiado internacionalmente, e um projecto para o ensaio no laboratório do ISQ em Castelo Branco de uma estrutura aeronáutica crítica construída em material compósito. Em 2013 e 2014 trabalhou na equipa da Embraer que estudou a viabilidade e anunciou em Fevereiro de 2014 a implementação em Évora do Centro de Engenharia e Tecnologia da Embraer na Europa, segundo do género fora do Brasil, para além do Centro que a empresa tem em fase de instalação nos Estados Unidos. É membro do Conselho da Diáspora Portuguesa desde 2014.

O QUE DIZ JOÃO PEDRO TABORDA…

A paixão pelas corridas de automóveis, desde pequeno, levou-o a tirar o curso de Engenharia. Mais tarde, João Pedro Taborda acabaria por entrar no mundo empresarial e na indústria da aviação.

Se tivesse que resumir, como classificaria as principais funções que tem hoje como director de Relações Externas da Embraer?

A minha prioridade é entender as políticas públicas dos países com maior prioridade para o nosso negócio, e para a nossa presença corporativa. Identificamos as entidades que levam por diante essas políticas, procurando alinhar a nossa estratégia enquanto empresa com as prioridades dos países. O resultado é um leque de temas interessante para trabalhar e que inclui áreas tão diversas como as políticas industriais e de inovação, regulação do transporte aéreo, ou, ainda, as grandes aquisições públicas na área da Defesa ou da Aviação Civil, neste último caso por parte de companhias aéreas estatais.

Trabalhou durante oito meses como engenheiro, mas desde cedo percebeu que gostava de ir para as empresas. Porquê?

É verdade. Ainda durante a minha licenciatura tive a boa oportunidade de começar a trabalhar num grupo de investigação no Técnico, mas cedo percebi que o que mais me atraía era ir às empresas discutir como o que fazíamos os poderia ajudar nos seus processos industriais. Foi há 28 anos, e desde então que ficou um pouco este hábito de olhar para a tecnologia e procurar entender onde ela pode ajudar uma empresa, ou um conjunto de empresas.

O que mais o fascina na indústria da aviação?

A forma como exige o melhor dos saberes em tantas áreas diferentes. Desde o engenheiro especialista na combustão que tem lugar dentro de um reactor até ao médico que estuda o conforto de quem viaja, passando pelos aspectos técnicos e comportamentais de tripulações e passageiros. É um mundo infindável de áreas onde cada um tem que dar o seu melhor para que um produto seja seguro e competitivo.

Qual é o seu papel na forte ligação que a Embraer tem a Portugal?

Tenho feito parte da equipa que, desde a privatização da OGMA em 2005, tem trabalhado com o Governo português para investirmos mais e procurarmos acrescentar mais valor ao país. Os investimentos que fizemos em Évora são um dos exemplos, mas, entre os outros efeitos, tem sido também gratificante assistir à integração entre engenheiros e outros especialistas portugueses e brasileiros que estão a trabalhar

juntos em novos produtos e tecnologias.

A Embraer tem também uma forte ligação às Universidades? Em que se traduz?

Como empresa que desenvolve e fabrica máquinas tão exigentes e complexas como aviões, a Embraer tem que acompanhar o que é feito nas universidades, mas não só. À medida que a tecnologia amadurece, ela transita também para centros tecnológicos e, em alguns casos para pequenas e médias empresas, ou até para a criação de start-ups. É todo esse ciclo que precisamos de acompanhar em todo o tipo de áreas de conhecimento, para apoiarmos esse desenvolvimento e trazer essas tecnologias para os nossos aviões. Claro que, a tudo isto, soma a função-base das universidades de formar pessoas.

Qual a importância da tecnologia e da inovação para uma empresa como a Embraer?

Tecnologia e Inovação são condições absolutas de sobrevivência neste sector. Nunca foram e nunca serão opções. Para a Embraer ou para qualquer outro construtor.

A retenção de talento é chave para o sucesso de grandes empresas como a Embraer?

Sem dúvida. Empresas como a nossa precisam de acumular o melhor do conhecimento dos seus profissionais para assegurar os produtos mais inovadores e competitivos. São gerações de especialistas que em alguns casos atravessam uma carreira inteira a trabalhar numa área de conhecimento, e precisamos de trabalhar para que sintam que ficar conosco é a melhor opção para eles também.

Como é o dia-a-dia de trabalho numa das maiores construtoras de aeronaves no mundo?

Muito intenso, sobretudo na fase que temos vivido devido à pandemia. Tem sido um sector muito impactado desde março do ano passado, o que coloca desafios diários à capacidade das empresas do sector se adaptarem ao cenário. Apesar disso, com ou sem crise pandémica, o denominador comum em qualquer momento é pensarmos nos clientes, na melhor forma de atender as suas expectativas, e na reputação e perenidade da empresa.

Para “matar saudades da engenharia” tem algum hobby ou actividade ligada a esta área?

Em rigor, foi a paixão pelas corridas de automóveis desde pequeno que me levou para a Engenharia. Os aviões apenas apareceram já perto dos 30 anos. Apesar do curto talento e da curta carteira para sonhar numa carreira de piloto de automóveis, desde miúdo que me chamou à atenção a tecnologia e a engenharia que suporta esse desporto. Por exemplo, nunca deixou de fascinar ver de que forma uma máquina puxada ao limite suporta uma corrida de 24 horas, ao mesmo tempo que valida a tecnologia que lhe permite chegar à frente de todos os outros.

O que é que significa para si ser membro do Conselho da Diáspora Portuguesa? Representa o dever de olhar com orgulho para Portugal, e de projectar a melhor imagem do país – onde e com quem quer que eu esteja. No que haja para melhorar e nas nossas qualidades como país, Portugal será sempre o somatório dos contributos de cada um. Estar no Conselho convida-nos a reforçar a nossa responsabilidade em trazer um contributo válido nessa direcção.