Gonçalo Bernardes: “É importante partilhar conhecimento”

Gonçalo Bernardes licenciou-se em Química, na Universidade de Lisboa em 2004 e mudou-se para a Universidade de Oxford, no Reino Unido, onde completou o seu doutoramento (D.Phil.) Em 2008, sob a orientação do Prof. Ben Davis. Em Oxford, trabalhou no desenvolvimento de reacções para modificação selectiva de proteínas, tendo sido premiado com uma bolsa Marie-Curie para os seus estudos de pós-doutoramento com o professor Peter H. Seeberger. Pelos seus esforços na investigação transnacional foi reconhecido pelo Ministério da Saúde de PortugalG pelos serviços relevantes para a Saúde Pública e Medicina e recebeu uma prestigiosa Starting Grant do European Research Council. É também um empreendedor e fundou duas empresas com base em tecnologias descobertas no seu laboratório e está no SAB de vários empresas de biotecnologia. É membro do Conselho da Diáspora desde 2020. O ponto chave na sua carreira deu-se antes de entrar no último ano da licenciatura: candidatou-se a uma bolsa Leonardo da Vinci para fazer o último ano da licenciatura na Universidade de Oxford e conseguiu.

O que diz Gonçalo Bernardes…

Em 2013 foi-lhe concedido pela Royal Society uma bolsa no valor de um milhão de euros, sendo um dos poucos portugueses desde o século XVI a obter essa bolsa, o que isto significou para si?

A Royal Society é uma instituição incrível. Foi uma enorme alegria e ao mesmo tempo uma grande responsabilidade que senti ao ganhar a Royal Society University Research Fellowship. Este financiamento permite a cerca de 30 – 40 jovens de qualquer parte do mundo, de qualquer área do conhecimento, estabelecer um grupo de investigação numa Universidade do Reino Unido, com o objectivo de se tornarem líderes mundiais nas suas áreas de conhecimento. E eu acabava de conseguir abrir esta porta para construir o meu grupo de investigação na Universidade de Cambridge, senti que era o desafio perfeito.

Como foi o seu percurso até chegar a este momento?

De facto, nunca pensei em trabalhar em ciência e tornar-me professor e dirigir uma equipa de jovens supertalentosos na Universidade de Cambridge. O que tentei desde sempre foi superar-me constantemente e procurar incessantemente novos desafios. Sou natural de Torres Vedras e ao contrário dos meus pais que tiveram de deixar a escola para aprender um ofício após a escola primária, eu tive a sorte de poder continuar a estudar. Os meus pais sempre me apoiaram ao máximo e sempre deixaram claro que o trabalho árduo e a resiliência dão frutos. E que estudar é a melhor forma de podermos encontrar o nosso caminho e podermos passar os dias a fazer aquilo que realmente nos dá prazer. E foi assim comigo. Depois de terminar o secundário, e como gosto imenso de matemática decidi entrar em Matemática Aplicada e Computação. Ao fim de um ano, ficou claro que o que eu queria estudar era o modo como as ligações  entre as moléculas da vida (proteínas, acídos nucleicos e açucares) se formam e quebram e como esses eventos estão relacionados com doença. Para seguir este caminho, Medicina não era o ideal, mas sim Química, pois só assim teria as ferramentas para compreender biologia básica e  doença ao nível molecular. Durante a licenciatura sempre trabalhei, como portageiro, sendo uma forma de apoiar e suportar os estudos, e lembro me desses tempos como sendo especialmente duros. O ponto chave na minha carreira e evolução deu-se antes de entrar no último ano da licenciatura: candidatei-me a uma bolsa Leonardo da Vinci para fazer o último ano da licenciatura na Universidade de Oxford e consegui. Não podia querer mais, pois a minha namorada, colega de curso, e agora mulher, Filipa, também conseguiu a mesma bolsa, e no dia 17 de Novembro de 2003 partimos juntos para Oxford. Oxford foi a minha melhor experiência. Foi desafiante porque as minhas bases, embora fosse um excelente aluno em Portugal, eram fracas em relação aos meus colegas. Tive realmente de fazer a corrida de trás para a frente como digo normalmente. Mas foi incrível, tanto que eu e a Filipa co clu mos a licenciatura em 2004, e ficámos depois até finais de 2008, altura em que concluímos os nossos doutoramentos em Química Biológica. Depois do doutoramento, seguiram-se três experiências antes de começar o meu grupo de investigação na Universidade de Cambridge. Primeiro um pós-doutoramento em Berlim no Max-Planck Institute por cerca de um ano. Decidi que não era o tipo de investigação e caminho que queria, estava a desenvolver vacinas, e decidi aceitar um desafio na empresa de biotecnologia portuguesa Alfama. Este foi o regresso a Portugal, que não esperava, mas foi onde consegui entender os
passos necessários para desenvolver um medicamento e dessa forma ficou claro o que queria e precisava de aprender durante
um pós-doutoramento. E foi assim que concorri a uma bolsa de pós-doutoramento do European Molecular Biology Organisation,
que ganhei, e fui trabalhar durante dois anos e meio com o Prof. Dario Neri no ETH Zurique. Aqui desenvolvi um anticorpo
conjugado a uma molécula cancerígena que se encontra no momentoem desenvolvimento clínico e aprendi o processo “from
the bench to the clinic”. Em 2013, concorri ao financiamento da Royal Society e comecei o meu grupo e carreira independente
em Cambridge. Desde esse momento até agora, tudo parece que passou muito rápido. Ao mesmo tempo que crescia o meu laboratório em Cambridge, e devido à interdisciplinaridade da minha investigação, desde síntese, a engenharia de anticorpos a modelos pré-clín cos de cancro, aceitei o desafio da Prof. Carmo Fonseca para começar ao mesmo tempo um laboratório no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes. Desde 2013, publicámos mais de 100 artigos, licenciámos três patentes das 12 que foram submetidas, começámos duas empresas, e conseguimos cerca de 7,5 milhões de euros em financiamento. Tem sido um
desafio muito estimulante e um privilégio trabalhar com alunos supertalentosos e com uma resiliência incrível.


Como é a sua vida entre Lisboa e Cambridge?

Bem, posso dizer que o meu percurso semanal entre Torres Vedras, Lisboa e Cambridge não foi planeado e que fisicamente é duro mas que mentalmente é desafiante e excitante. Como Cambridge tem três períodos de nove semanas em que efectivamente existem aulas, nessas semanas estou em Cambridge de segunda a quinta. Fora desses períodos, normalmente vou semana sim, semana não. Ando sempre no ar sem dúvida, e andar de avião até é algo que não me deixa muito confortável.


Quais as suas principais áreas de investigação?

No meu grupo temos duas áreas de investigação principais: uma baseia-se no desenvolvimento de novos métodos que permitam formar e quebrar ligações específicas em proteínas ou ácidos nucleicos num tubo de ensaio, célula ou animal. A outra área é mais translacional, tenta usar novo conhecimento que geramos em certas doenças, por exemplo em tumores agressivos no cérebro, e desenvolver estratégias e moléculas que possam selectivamente matar as células tumorais sem afectar as células saudáveis. Tudo isto tem o objectivo último de melhorar as possibilidades dos pacientes em relação a doenças terríveis como o cancro.


Liberdade, competição, criatividade ou cooperação. O que considera mais importante para o trabalho de um cientista?

A criatividade. Mas sem dúvida que a cooperação entre cientistas, a liberdade de fazer interligações entre disciplinas e a resiliência são fundamentais para ser criativo. É um conjunto de valências que são precisas para se “ter sorte” associadas a um espírito de
sacrifício forte.


Que principal diferença encontra entre a realidade portuguesa e a do estrangeiro relativamente à ciência?

Os países mais prósperos e menos dependentes de terceiros, são aqueles onde o nível de conhecimento e inovação são altos. Conhecimento leva tempo a ser gerado, e é um projecto a longo prazo. Acho que o conhecimento em Portugal continua no seu geral fraco e daí a inovação e a ciência também o ser relativamente aos países mais desenvolvidos e prósperos. Como sociedade temos que definir o que queremos, se uma aposta na escola onde se transmite conhecimento e onde se motiva os alunos a pensar e onde o mérito é chave se é ou não um objectivo. É um processo longo e está tudo interligado. Quanto melhor for a educação e conhecimento transmitido na escola, melhor será o conhecimento gerado na universidade (sim a universidade deve ser um local de excelência na criação de conhecimento e onde também se ensina, ter os investigadores líderes a ensinar é o que acontece nas universidades de referência no mundo), mais e melhor a inovação, e logo mais prosperidade e mais igualdade na sociedade.


Enquanto cientista qual é o seu principal sonho?

A minha principal motivação como cientista é trazer descobertas desde o laboratório até ensaios clínicos em humanos desenvolvendo
terapias que sejam mais seguras e eficazes e idealmente sem efeitos secundários. O outro objectivo prende-se com a passagem de conhecimento. Nada me deixa mais orgulhoso do que ver alunos de doutoramento ou pós-doutoramento que passaram pelo meu grupo, tornarem-se professores nas melhores universidades do mundo ou começarem novas empresas. A forma como o que somos pode servir de exemplo na carreira de jovens tão talentosos é uma responsabilidade e fonte de motivação inesgotável.


O Gonçalo é um empreendedor e fundou duas empresas com base em tecnologias descobertas no seu laboratório. Que conselhos quer deixar aos jovens empreendedores?

A minha experiência na interface do mundo académico e empresarial é que essa interface é cada vez menos visível, quase que foi fundida. Só assim foram possíveis os recentes desenvolvimentos em relação às vacinas de mRNA contra a infecção provocada por Sars-Cov-2. Sugiro aos jovens que não tenham receio que roubem as vossas ideias. Existem várias formas de desenvolver tecnologias tais como em colaboração (vejam o exemplo da vacina de Oxford-AstraZeneca) ou a formação de uma spin-out (vejam o exemplo da BioNTech). É importante partilhar conhecimento, e essa partilha é fundamental para trazer essas descobertas, ideias até às pessoas. É um esforço de muitas pessoas, não é possível fazermos tudo sozinhos embora possamos trabalhar sobre uma ideia, um conceito que fomos nós a desenvolver inicialmente.


O que significa, para si, ser membro da Diáspora Portuguesa?

Ser membro do Conselho da Diáspora Portuguesa é um motivo de orgulho, pois poderei partilhar histórias e aprender com indivíduos que se destacaram pela sua excelência e mérito nos seus países de acolhimento em diferentes áreas. Acho isso fascinante. Além disso continuarei o que sempre fiz em relação a discutir o que Portugal tem de maravilhoso e também a exigir que façamos melhor e que nos tornemos um país mais próspero.

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