16 de Setembro de 2025

Entrevista a Alexandre Bernardo: “Portugal precisa de reforçar a sua ambição internacional” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Negócios, Alexandre Bernardo, Diretor-Geral Internacional e Administrador na Samcrete E&C, e Conselheiro do Núcleo Regional do Médio Oriente, Índia e Egito, foi entrevistado para o Jornal de Negócios, onde abordou o seu percurso profissional e identificou oportunidades competitivas para Portugal, a sua economia, empresas e empresários em geral.

1 – O QUE O LEVOU A SAIR DE PORTUGAL?

A minha saída de Portugal foi motivada por uma conjugação de fatores pessoais e profissionais. A primeira oportunidade surgiu com o desafio de arrancar com o mercado da Colômbia, onde fiquei baseado em Bogotá durante três anos. Esta experiência pioneira permitiu não só o crescimento sustentado dos negócios em diferentes pontos do país, como a expansão da atividade para Aruba, que estava igualmente sob minha responsabilidade. Este período marcou o início de um percurso internacional mais alargado, tendo também integrado, nesse contexto, o board executivo da Mota-Engil para a América Latina, com responsabilidade estratégica sobre operações em vários países.

A nível pessoal, a decisão de sair também teve em conta a perspetiva familiar. Enquanto casal, acreditámos que proporcionar às nossas quatro filhas uma vivência internacional — com exposição a diferentes culturas, idiomas e realidades sociais — seria altamente enriquecedor para o seu desenvolvimento. Acreditamos que esta experiência global lhes proporcionou uma visão mais aberta do mundo, maior empatia e adaptabilidade, qualidades fundamentais para o futuro.

2 – QUE VANTAGENS OU DESVANTAGENS LHE TROUXE O FACTO DE SER PORTUGUÊS?

Ser português permitiu-me ser bem acolhido em contextos diversos, fruto da imagem positiva que Portugal tem enquanto país diplomático, aberto e confiável. A nossa capacidade de adaptação, empatia e de criar pontes culturais é uma enorme vantagem, sobretudo em ambientes multiculturais onde o relacionamento humano é chave. É notório que os profissionais portugueses são reconhecidos pela sua flexibilidade, ética de trabalho e capacidade de operar em contextos complexos. No entanto, em alguns mercados, o peso político e económico de Portugal pode não ter a visibilidade de outras nações europeias, o que exige esforço adicional na afirmação das nossas competências, na projeção do nosso valor e no posicionamento competitivo dos nossos projetos. É precisamente neste desafio que reside uma oportunidade: a de sermos embaixadores discretos, mas eficazes, da excelência portuguesa.

3 – QUE OBSTÁCULOS TEVE DE SUPERAR E COMO O FEZ?

Ao longo da minha carreira, tive de enfrentar obstáculos como barreiras linguísticas, diferenças culturais profundas, ambientes de elevada instabilidade política e operacional, bem como resistências locais a modelos de gestão estrangeiros. A superação passou por escuta ativa, integração cultural, investimento em equipas locais e criação de confiança através de resultados tangíveis e compromisso de longo prazo. Acredito que a consistência, o respeito pelo contexto e a capacidade de adaptação foram fatores determinantes. Além disso, o apoio da minha família nas mudanças de país foi essencial para manter estabilidade emocional e foco profissional.

4 – O QUE MAIS ADMIRA NO PAÍS EM QUE ESTÁ?

Egipto como pais, e África como continente, apresentam oportunidades incríveis, especialmente no setor das infraestruturas, onde existe uma aposta clara no investimento público e privado em obras estruturantes. Admiro a resiliência dos seus povos, a capacidade de improvisar soluções com os recursos disponíveis e a forma como conseguem mobilizar rapidamente equipas e equipamentos para concretizar projetos de grande escala. Existe também uma abertura crescente à colaboração internacional, com vontade de aprender, investir e diversificar parcerias estratégicas. No caso do Egipto, e para além do contexto profissional, admiro também a riqueza cultural, a história milenar e a forma como a vida familiar tem um papel central na sociedade egípcia. Viver em diferentes países, como a Colômbia, Peru, Costa do Marfim e agora o Egito, com a minha família sempre presente, proporcionou-nos uma visão multicultural única. Estes contextos exigem uma capacidade de adaptação constante, respeito profundo pelas realidades locais e uma enorme resiliência emocional. Os desafios foram muitos, desde sistemas educativos distintos até barreiras linguísticas e diferenças culturais marcantes, mas também foram esses mesmos desafios que mais nos enriqueceram enquanto seres humanos e como família.

5 – O QUE MAIS ADMIRA NA EMPRESA / ORGANIZAÇÃO EM QUE ESTÁ?

Na Samcrete, admiro a combinação entre tradição e inovação. Trata-se de uma empresa familiar com um profundo enraizamento no tecido económico egípcio, que conseguiu manter valores fortes de integridade, proximidade com as comunidades locais e responsabilidade social. Ao mesmo tempo, demonstra uma ambição notável na forma como incorpora inovação, diversifica áreas de negócio e investe em parcerias estratégicas internacionais. A cultura de gestão é muito orientada para a eficiência, os resultados e a criação de valor duradouro. Esta capacidade de conciliar legado com visão de futuro permite à empresa destacar-se num mercado competitivo e em constante transformação. Fazer parte deste ambiente representa um desafio diário, mas também uma oportunidade contínua de crescimento pessoal e profissional.

6 – QUE RECOMENDAÇÕES DARIA A PORTUGAL E AOS SEUS EMPRESÁRIOS E GESTORES?

Portugal tem um enorme potencial, mas precisa de reforçar a ambição internacional. É fundamental promover a internacionalização com mecanismos concretos de apoio à exportação, acesso a financiamento e incentivos à presença física nos mercados-alvo. É necessário investir em inovação, assumir riscos estratégicos com maior frequência e valorizar o talento jovem. O Estado deve também funcionar como facilitador, reduzindo a burocracia e agilizando os processos. A internacionalização é saudável e recomenda-se a todas as empresas que ambicionem crescer de forma sustentada e expandir o seu impacto. Nos diversos países onde vivi e trabalhei, encontrei oportunidades reais em múltiplos setores, acessíveis a quem compreenda as dinâmicas locais e tenha uma abordagem estruturada e sensível ao contexto. É importante dominar as ferramentas adequadas para a implementação bem-sucedida de projetos nestes mercados e estar preparado para um crescimento integrado. Neste âmbito, a experiência acumulada ao longo de anos em mercados emergentes, com diferentes modelos de negócio e enquadramentos culturais, oferece-me uma base sólida para apoiar outras organizações que desejem seguir este caminho com confiança e conhecimento.

7 – EM QUE SETORES DO PAÍS ONDE VIVE PODERÃO AS EMPRESAS PORTUGUESAS ENCONTRAR CLIENTES?

África e o Egito, nas minhas áreas de expertise, apresentam oportunidades muito relevantes em setores como a construção e reabilitação de infraestruturas, energias renováveis, tecnologia aplicada à educação e saúde, gestão de resíduos e soluções ambientais. Existe uma procura crescente por soluções eficientes, inovadoras e adaptadas à realidade local — áreas em que as empresas portuguesas podem destacar-se pela sua qualidade, experiência técnica e flexibilidade operacional.

8 – EM QUE SETORES DE PORTUGAL PODERIAM AS EMPRESAS DO PAÍS ONDE ESTÁ QUERER INVESTIR?

O turismo sustentável, a agricultura de precisão, a indústria alimentar de valor acrescentado, o setor imobiliário e as energias limpas são áreas, entre outras, de potencial interesse. Portugal é visto como um destino seguro, com estabilidade, talento qualificado e acesso privilegiado ao mercado europeu. A aposta na sustentabilidade, inovação e digitalização reforça o atrativo do país para investidores que procuram novas geografias para diversificação de risco e valorização de capital.

9 – QUAL A VANTAGEM COMPETITIVA DO PAÍS EM QUE ESTÁ QUE PODERIA SER REPLICADA EM PORTUGAL?

A partir do momento que um projeto é considerado prioritário, a rapidez na tomada de decisão e a agilidade administrativa facilitam e ajudam bastante, especialmente se os projetos são públicos ou com financiamentos públicos. Nestes casos a burocracia, apesar de existir, é muitas vezes contornada por mecanismos executivos claros, o que permite avançar com celeridade. Há uma predisposição para a ação que contrasta, por vezes, com o excesso de hesitação e formalismo em Portugal. Portugal beneficiaria significativamente de maior celeridade e pragmatismo, especialmente em áreas estratégicas como infraestruturas, habitação, inovação tecnológica e transição energética. Importaria desenvolver mecanismos ágeis de decisão, maior articulação entre entidades públicas e privadas, e uma cultura de compromisso com a execução. A criação de contextos que privilegiem a confiança e a colaboração, mais do que o controlo e a desconfiança, seria decisiva para acelerar a implementação de políticas públicas e projetos estruturantes.

10 – PENSA VOLTAR PARA PORTUGAL? PORQUÊ?

Portugal está sempre presente, tanto no plano pessoal como profissional. O regresso é uma possibilidade real, não só pelo sentido de pertença e pelas raízes familiares, mas também pela vontade de contribuir com o conhecimento e a experiência adquirida em geografias desafiantes. Acredito ser possível gerar impacto positivo em Portugal, ao apoiar empresas na sua internacionalização, aconselhar jovens talentos e criar pontes entre Portugal e os mercados externos. Mesmo durante todos estes anos de expatriação, mantive sempre uma ligação profunda ao país — pelas minhas origens, pela família e pelo gosto pelas ‘nossas coisas’. Portugal é, para mim, inigualável em termos de beleza, acolhimento, qualidade de vida e segurança. Existe também uma preocupação constante em garantir que as minhas quatro filhas não perdem a relação com o país. Por isso, sempre mantivemos viagens regulares a Portugal, marcando presença em momentos-chave da vida familiar e em todas as férias escolares. A ligação emocional ao país foi, e continua a ser, uma prioridade.