23 de Setembro de 2025

Entrevista a Miguel Matias: “Temos de ser capazes de nos centrar no serviço prestado” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Negócios, Miguel Matias, Fundador e CEO da Self Energy Ltd, Agente Comercial na Naked Energy Ltd, e Conselheiro do Núcleo Regional do Reino Unido, foi entrevistado para o Jornal de Negócios, onde abordou o seu percurso profissional e identificou oportunidades competitivas para Portugal, a sua economia, empresas e empresários em geral.

1 – O QUE O LEVOU A SAIR DE PORTUGAL?

Foram vários fatores. O primeiro esteve relacionado com a internacionalização da empresa que iniciei em 2006, a Self Energy, depois de sair da Galp Energia, onde era diretor de Inovação. O mercado do Reino Unido era atrativo (e continua a ser), e criámos a empresa em 2008. Mais tarde, em 2014, decidi mesmo levar a família e mudar-me, conjugando oportunidades profissionais com o momento de as filhas mais velhas irem para a Universidade em UK, o que fazia parte dos seus objetivos.

2 – QUE VANTAGENS OU DESVANTAGENS LHE TROUXE O FACTO DE SER PORTUGUÊS?

Na verdade, não senti nenhuma vantagem ou desvantagem, pois, em geral, o mercado no Reino Unido aceita muito bem o mérito e não fecha portas.

3 – QUE OBSTÁCULOS TEVE DE SUPERAR E COMO O FEZ?

O Brexit foi talvez o maior obstáculo, onde senti que o facto de ser europeu me poderia colocar mais desafios que oportunidades. Mais do que as alterações fiscais ou de contratualização e vistos necessários para colegas entrarem no país, foi a alteração do sentimento de que poderíamos não ser afinal “bem-vindos”, mesmo estando a desenvolver riqueza para o Reino Unido. De notar que em Londres (onde vivia) o Brexit foi maioritariamente rejeitado e ainda motivo de grande desilusão também para a maioria dos ingleses. As negociações que se seguiram e que se eternizaram, clarificaram que seria um cenário em que todos perderiam, procurando um mal menor. Este sentimento foi também extensivo aos meus filhos que se tinham formado no Reino Unido e pensavam até talvez estabelecerem por lá as suas carreiras; mas cedo decidiram outros caminhos. Em cada desafio existem sempre oportunidades e desde a decisão do Brexit nunca considerei fechar a empresa, até porque passaria a ser um ativo importante num outro mercado, com acesso à Commonwealth e com um apoio muito forte na diplomacia económica. Mas também logo entendi que Portugal poderia atrair alguns dos negócios, alunos ou trabalhadores que se tinham aventurado no Reino Unido e iniciei alguns investimentos em Portugal, como Business Angel certificado e integrado num Clube Português, acompanhando à distância os investimentos. Esta aposta foi importante pois permite agora sustentar a aposta no mercado ibérico da energia verde, que pode atrair investimentos não só nas próprias energias renováveis e clean tech, mas também de setores electro-intensivos como data-centres, AI, indústrias farmacêuticas, etc.

4 – O QUE MAIS ADMIRA NO PAÍS EM QUE ESTÁ?

O pragmatismo, a eficiência dos serviços e a simplicidade de processos. Em especial em Londres, uma das cidades mais cosmopolitas do Mundo, onde o acesso a Arte, Cultura, espetáculos, desporto e eventos vários é único e onde o sistema de transportes, apesar de caro, funciona e permite que não seja de todo necessário levar carro para a cidade. No Metro vêem-se as pessoas vestidas de gala a irem para o teatro ou eventos, ou outros de calções e t-shirt molhada saídos de um ginásio qualquer.

5 – O QUE MAIS ADMIRA NA EMPRESA / ORGANIZAÇÃO EM QUE ESTÁ?

A Self Energy soube reinventar-se durante os últimos anos: contribuiu decisivamente para o desenvolvimento de áreas críticas no setor das energias renováveis, como nas baterias, na eficiência energética, nos painéis solares flexíveis, com soluções avançadas que permitem ser instaladas em qualquer superfície, como estádios, autoestradas, Defesa ou Agricultura. Desenvolveu muito também o setor da produção descentralizada com várias tecnologias e sistemas, nomeadamente baseadas em hidrogénio verde, solar térmico industrial ou Waste to Energy. A empresa está agora a retomar o seu papel de liderança em Portugal e Espanha.

A empresa, desde 2006, formou também diversos quadros que estão agora em algumas das maiores empresas portuguesas e internacionais, incluindo elementos do Reino Unido que regressaram depois a Portugal, e outros que aproveitaram estágios da AICEP para se estabelecerem no Reino Unido ou em Moçambique.

A Visão da Self Energy de que cada um deveria começar a pensar, em casa, na empresa, no bairro ou na cidade na “sua” energia de forma descentralizada e eficiente foi, na altura do arranque em 2006, muito inovadora e até recebida com alguma critica. No entanto, passados quase 20 anos, as tendências do setor estão a dar-nos razão, estando ainda, contudo, muito por implementar. A nossa Missão passa por tornar a produção descentralizada e eficiente de energia a maior fonte de energia. Ao produzirmos energia solar fotovoltaica no nosso telhado (ou no telhado do vizinho dentro de uma comunidade de energia renovável), que abastece parte da casa ou da empresa e até pode carregar um veículo elétrico, estamos não só a reduzir energia fóssil, mas também a descentralizar a sua produção, passando a ser a nossa energia, independente de choques petrolíferos ou guerras.

6 – QUE RECOMENDAÇÕES DARIA A PORTUGAL E AOS SEUS EMPRESÁRIOS E GESTORES?

Portugal tem uma oportunidade nos próximos 10-15 anos, juntamente com Espanha, para tornarem a Ibéria a “power house” de energias renováveis da Europa, tanto em eletricidade verde como gases renováveis. A Europa precisa de se re-industrializar e a Ibéria pode ser o local ideal para isso, pois teremos a energia verde mais barata da Europa. No entanto, terão de ser efetuados investimentos na Rede e na regulamentação de serviços de flexibilidade de rede para que situações como o Apagão não se repitam. E podem aprender muito com o Reino Unido nessa área, que tem 10 anos de avanço nessa regulamentação e na implantação de GW de baterias para apoiar a rede. A minha recomendação é que tentem atrair os investimentos industriais para Portugal e permitam que o ambiente de impostos, licenciamentos e leis não atrapalhem o desenvolvimento. Não podemos levar mais de 10 anos a começar a explorar lítio ou 50 anos para construir um aeroporto.

7 – EM QUE SETORES DO PAÍS ONDE VIVE PODERÃO AS EMPRESAS PORTUGUESAS ENCONTRAR CLIENTES?

O Reino Unido tem uma tradição comercial com Portugal que estava muito ligada aos Vinhos e ao Turismo. Esses setores estão a mudar e a facilidade de as empresas portuguesas comunicarem em inglês, de termos o mesmo fuso horário, ou o facto de sermos uma porta de entrada para a EU mas também para o Brasil e para África, abrem oportunidades em quase todos os setores. Depende depois de cada um querer vir até ao Reino Unido apresentar os seus produtos, pois eles continuam a gostar da presença real.

8 – EM QUE SETORES DE PORTUGAL PODERIAM AS EMPRESAS DO PAÍS ONDE ESTÁ QUERER INVESTIR?

Estão já a investir na área das energias renováveis, na Agricultura, principalmente nos Vinhos, no Turismo e Imobiliário, nos negócios da Educação e Universidades, no setor da Arte e Cultura.

9 – QUAL A VANTAGEM COMPETITIVA DO PAÍS EM QUE ESTÁ QUE PODERIA SER REPLICADA EM PORTUGAL?

A meritocracia e a regulação forte de setores críticos, como a Educação, Saúde, Energia, Telecomunicações, Água ou Transportes. Mais do que se o serviço foi prestado pelo Setor Publico ou Privado, a discussão centra-se na qualidade do

serviço prestado e os recursos públicos são alocados a escolas e hospitais de acordo com o sucesso alcançado. Temos de ser capazes de nos centrar no serviço prestado e deixar o mercado funcionar. Quem incumprir na qualidade do serviço ou na informação ao consumidor terá multas pesadas ou a perda da concessão. Existem empresas de todas as nacionalidades a operar e a concorrer e só sobrevivem as melhores. Quem ganha é o consumidor/utilizador.

10 – PENSA VOLTAR PARA PORTUGAL? PORQUÊ?

Sim, estou a iniciar esse processo agora depois de ter terminado um projeto importante de crescimento da Naked Energy Ltd, enquanto Diretor Comercial e depois como Diretor Ibérico. Estou a consolidar os vários investimentos que fiz enquanto Business Angel em Portugal nos últimos 15 anos e tentar criar um player relevante na área da gestão descentralizada e eficiente de energia. Incluo a área Clean Tech, com capacidade industrial de produção de painéis solares leves e flexíveis e baterias de lítio em Portugal, mas também o desenvolvimento e gestão das comunidades de energia renovável, o carregamento ultrarrápido de veículos, na produção e distribuição de hidrogénio verde, e também na promoção de soluções para valorização energética dos lixos e para produção de água quente com solar térmico industrial. Na verdade, tentarei reunir 25 anos de investimento e know-how na área de descentralização de energia, que acredito ser o futuro do setor. As Agendas Mobilizadoras PRR deram uma ajuda e estou nesta fase a procurar parceiros estratégicos e financeiros para executar esta transição, pois Portugal precisa de um processo de M&A que permita criar empresas maiores, capazes de competir em mercados globais.