No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Ana Cerdeira, Vice-Presidente de Global Commercial Development Assets na Grünenthal e Conselheira do Núcleo Regional da Europa Ocidental, partilha o seu percurso internacional na indústria farmacêutica, iniciado com a decisão de sair de Portugal para integrar projetos de inovação de impacto global. Na entrevista, destaca o papel determinante da inovação científica, da colaboração multidisciplinar e da excelência académica, bem como a importância de superar estereótipos através do mérito e dos resultados. Com experiência profissional na Suíça e em Singapura, sublinha o valor de ecossistemas que promovem a ligação entre empresas, universidades e centros de investigação. Sobre Portugal, defende uma abordagem mais ágil à inovação, a redução da burocracia, o reforço das parcerias entre ciência e indústria e a criação de condições que favoreçam o empreendedorismo, a competitividade e a atração de talento.
1 – O que a levou a sair de Portugal?
O desafio do desconhecido e a excitação de fazer algo diferente numa das fases mais importantes da minha carreira e numa das maiores empresas farmacêuticas (J&J) foram fatores decisivos para a minha saída de Portugal. Além disso, a oportunidade de trabalhar diretamente com inovação permitiu-me contribuir para avanços significativos na área da saúde, com impactos reais e positivos para os pacientes em todo o mundo. Por exemplo, tive a oportunidade de participar no desenvolvimento de produtos inovadores que se tornaram blockbusters, como o Tremfya – um medicamento que revolucionou o tratamento de doenças autoimunes. Estes projetos não só me proporcionaram crescimento profissional, mas também me deram a satisfação de saber que o trabalho realizado pode melhorar substancialmente a qualidade de vida dos pacientes. Este tipo de envolvimento com inovação reforça a importância de se buscar constantemente novos conhecimentos e de colaborar com equipas multidisciplinares para alcançar resultados que realmente façam a diferença a nível global.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser portuguesa?
Quando cheguei à Suíça, há cerca de 20 anos, deparei-me com algumas perceções e estereótipos relativamente a Portugal. Tanto no ambiente profissional, entre colegas de trabalho, como em círculos sociais, notei que havia quem visse Portugal essencialmente como um país rural, pouco desenvolvido no que toca à investigação científica e à inovação tecnológica. Naquela altura, não era comum encontrar muitos portugueses a trabalhar em áreas científicas de topo ou em posições de destaque na indústria farmacêutica, o que fazia com que fosse visto, de alguma forma, como uma exceção ou até mesmo uma surpresa. Contudo, à medida que fui demonstrando as minhas competências, dedicação e capacidade de trazer valor acrescentado à empresa, consegui desfazer gradualmente esses preconceitos. O meu envolvimento em projetos inovadores, a minha postura profissional e os resultados alcançados contribuíram para mudar a imagem inicial que alguns tinham de Portugal e dos profissionais portugueses. Com o tempo, deixaram de questionar a minha nacionalidade ou a minha formação, reconhecendo o mérito do meu trabalho e passando a valorizar a diversidade de experiências que eu podia oferecer à equipa. Esta evolução mostrou-me que, muitas vezes, é através do exemplo e da entrega diária que conseguimos alterar mentalidades e abrir caminho para outros portugueses, tornando o contributo português cada vez mais reconhecido e respeitado no setor científico internacional.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
O principal desafio foi a língua, já que me mudei para um cantão de língua alemã, e também a adaptação à cultura local. Naquela época, as lojas encerravam às 18h30 e as ruas ficavam praticamente desertas, algo muito diferente do que eu conhecia em Portugal. Tive a sorte de contar com dois colegas, que hoje são grandes amigos, e que foram fundamentais no meu processo de integração. Construir amizades foi, sem dúvida, o que mais facilitou a minha adaptação.
Curiosamente, a minha adaptação a Singapura foi mais simples. Como todos falam inglês, consegui rapidamente criar laços de amizade, tanto na empresa como fora. Os singapurianos, à semelhança dos suíços, são pessoas excecionais e extremamente profissionais.
4 – O que mais admira no país em que está?
O facto de ser um país de dimensão relativamente pequena, mas que se destaca pela sua capacidade de inovação, é verdadeiramente notável. A Suíça possui Hubs de inovação em diversas cidades, que promovem a colaboração entre empresas, universidades e centros de investigação. Além disso, conta com institutos superiores de excelência, como a ETH em Zurique, onde fiz o meu doutoramento em ciências farmacêuticas, reconhecidos internacionalmente por estarem ao nível dos melhores do mundo. Esta combinação de ambiente inovador, apoio institucional e qualidade académica cria condições únicas para o desenvolvimento de projetos científicos e tecnológicos de grande impacto global.
5 – O que mais admira na empresa/ organização em que está?
A capacidade de uma aposta contínua na inovação e no impacto positivo na vida dos pacientes é um dos pontos mais admiráveis da empresa. Apesar de ser uma empresa familiar, mantém um forte compromisso com os pacientes, colocando sempre as suas necessidades em primeiro lugar e investindo de forma consistente em áreas com grandes necessidades médicas.
Outra característica que considero fundamental na Grunenthal é a capacidade de avaliar continuamente o contexto do mercado e adaptar a sua estratégia de acordo com as necessidades emergentes. Este dinamismo permite responder de forma ágil às mudanças, antecipar tendências e ajustar processos, garantindo que a empresa se mantém competitiva e relevante num setor em constante evolução.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
É fundamental que as organizações adotem uma abordagem ágil, sabendo antecipar tendências e necessidades emergentes do mercado e ajustando, de forma proativa, as suas estratégias. Só assim conseguirão preservar a capacidade de inovar e assegurar uma vantagem competitiva duradoura num contexto global cada vez mais dinâmico e desafiante. Investir de modo consistente em inovação é essencial, incentivando a criação de parcerias entre empresas, universidades e centros de investigação, através de programas anuais focados em start-ups e iniciativas de partilha de conhecimento. O montante do investimento financeiro pode ser moderado, desde que se aproveitem ao máximo as sinergias existentes, facilitando o acesso à inovação e ao talento tanto nacional como internacional. Além disso, é vital que as empresas estejam alinhadas com um propósito bem definido, inovando de forma contínua para responder às expetativas dos seus stakeholders. Manter uma atitude aberta, curiosa e recetiva a aprender com experiências de outros, seja em Portugal ou no estrangeiro, é igualmente indispensável.
7 – Em que setores do país onde vive poderão as empresas portuguesas encontrar clientes?
A Suíça é reconhecida internacionalmente pelo seu ecossistema dinâmico de inovação, estando constantemente à procura de colaborações com empresas que desenvolvam tecnologias disruptivas ou que apresentem novas abordagens ao mercado. Assim, as empresas portuguesas que apostem na inovação tecnológica e na adaptação às tendências globais podem encontrar na Suíça um mercado recetivo à criação de parcerias. Para que as empresas portuguesas consigam estabelecer parcerias ou negociar com sucesso na Suíça, é imprescindível que invistam fortemente em inovação dos seus produtos, desenvolvendo soluções que se destaquem pela diferenciação. Na minha área, que é a indústria farmacêutica, empresas suíças, como, por exemplo, a Roche e a Novartis, mantêm um interesse contínuo na identificação de assets inovadores para fortalecer as suas pipelines.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde está querer investir?
O setor da tecnologia e inovação destaca-se como uma área promissora, já que Portugal tem vindo a atrair cada vez mais talentos e empresas ligadas a novas tecnologias, como a inteligência artificial e cibersegurança. Estes são domínios onde a Suíça poderá demonstrar interesse em investir em Portugal, nomeadamente através de parcerias, transferência de conhecimento e participação em projetos inovadores que potenciem o crescimento tecnológico e promovam sinergias entre os dois países.
9 – Qual a vantagem competitiva do país em que está que poderia ser replicada em Portugal?
Estímulos fiscais robustos para promover a inovação, aliando facilidade e apoio efetivo à criação de novas empresas, a existência de ecossistemas dinâmicos de inovação e start-ups, bem como a eliminação de burocracia excessiva que possa dificultar o empreendedorismo, são fatores essenciais para impulsionar o desenvolvimento económico e tecnológico. A redução da burocracia torna o ambiente de negócios mais ágil e atrativo, estimulando a criatividade e a competitividade das empresas.
10 – Pensa voltar para Portugal? Porquê?
Tal como aconteceu quando decidi mudar-me para a Suíça ou para Singapura, estou sempre aberta a explorar novos países e abraçar desafios que me permitam crescer profissionalmente e pessoalmente. Aprecio particularmente a oportunidade de enfrentar situações inovadoras e exigentes, pois são essas experiências que me motivam e enriquecem. Voltar a Portugal estará sempre nos meus planos, desde que surja um desafio suficientemente interessante onde possa aplicar e valorizar os meus conhecimentos e competências, tornando a mudança verdadeiramente compensadora.