No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Catarina Rivotti, CFO e membro do Conselho de Administração da Bosch Rexroth China e Conselheira da Diáspora Portuguesa na China, foi entrevistada sobre a sua experiência profissional internacional e a sua visão para o posicionamento de Portugal no contexto global. Com um percurso no Sudeste Asiático, na Alemanha e na China, destaca a adaptabilidade e a abertura cultural dos portugueses, os desafios da liderança multicultural e a forte orientação para resultados da China. Catarina defende ainda que Portugal deve ser mais ambicioso, adotar uma estratégia de longo prazo, olhar para a Ásia como mercado prioritário e criar condições para o regresso da diáspora qualificada ao país.
1 – O que a levou a sair de Portugal?
Sempre quis ter a experiência de trabalhar no estrangeiro, aprender com outras culturas e contextos socioeconómicos. Assim que surgiu uma oportunidade interessante, não hesitei. Assumi a responsabilidade da área fiscal e de relações comerciais internacionais no sudeste asiático (Indonésia, Malásia, Singapura, Tailândia, Vietname, Filipinas, Camboja, Laos, Birmânia, Brunei). A esta seguiram-se outras oportunidades de trabalho na Alemanha e na China.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser portuguesa?
Ser português traz vantagens: nós somos bastante adaptáveis, damo-nos bem com toda a gente e enfrentamos as dificuldades com otimismo. Temos uma abertura cultural que é absolutamente única no mundo. Estas características ajudam imenso na integração social e no novo trabalho. Na Ásia, os portugueses são reconhecidos pela história e pelo legado cultural, mais até que na Europa. De um modo geral, somos bem-vindos e existe alguma curiosidade em relação à nossa cultura. Como não nos impomos pela dimensão ou poder económico, existe uma maior abertura no trato e acabamos por conseguir melhores relações.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
Gerir várias operações e liderar pessoas de várias culturas é um desafio: valores e costumes diferentes, formas de trabalho distintas. Apesar de falar um pouco chinês, às vezes a comunicação não é fácil. A minha abordagem é sempre de curiosidade. Procuro aprender e compreender, não julgo, não critico, nem desvalorizo. Esta atitude tem-me ajudado a lidar até com as situações mais complicadas. Obstáculos do dia-a-dia, como por exemplo a dificuldade de ter que usar aplicações que existem apenas em chinês, resolvem-se com paciência e persistência.
4 – O que mais admira no país em que está?
Admiro a capacidade de execução, de transformar objetivos em resultados. Toda a gente trabalha na mesma direção, sem distrações, sem perder tempo. A China tem uma capacidade de resposta que é única e que advém de uma orientação para resultados extrema e de uma ética de trabalho exemplar. Os chineses aprendem rápido, adaptam, melhoram, fazem de novo ser for preciso, e são muito dedicados ao trabalho. Em 30 anos, a China tirou 800 milhões de pessoas da pobreza, criou um mercado interno gigante e posicionou-se como líder mundial em vários sectores. É incrível!
5 – O que mais admira na empresa/organização em que está?
A empresa onde estou é o resultado da fusão de uma empresa alemã com uma empresa americana na China. Eu fui responsável por essa integração e pela construção da nova empresa, em sentido figurado e literal. Admiro a dedicação das pessoas, a boa disposição mesmo quando os desafios são grandes, e a capacidade de ultrapassar obstáculos. Admiro a ética de trabalho, a forma como procuram encontrar soluções em vez de se lamentarem dos problemas. Admiro a persistência e vontade de ganhar. As pessoas vêm agradecer-me mesmo por pequenas melhorias. Ver a empresa a crescer e a ser bem-sucedida é muito gratificante.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Que sejam mais ambiciosos, que arrisquem mais, que invistam mais. Portugal tem um potencial enorme, tem grandes vantagens competitivas relativamente a outros países europeus. Só tem de explorar essas vantagens, sem receio, com confiança. Portugal tem de deixar de contar apenas com o investimento estrangeiro e procurar ser pioneiro. Sem inovação não podemos gerar riqueza. É preciso explorar mais e aceitar o insucesso como parte normal do caminho para o sucesso. Mais orientação para resultados e menos formalismo. Convido os empresários portugueses a deixar a zona de conforto. Pensar além de África e do Brasil. A Ásia conta com 60% da população mundial e representa 40% do mercado global. Portugal tem uma ligação histórica e cultural com a Ásia que está por explorar e que pode ajudar o país a assegurar uma posição económica sustentável numa altura em que a Europa mostra sinais de recessão.
7 – Em que sectores do país onde vive poderão as empresas portuguesas encontrar clientes?
Exportar para a China representa uma oportunidade a uma escala diferente, dada a dimensão do mercado que não tem comparação com nenhum outro país. Obriga a uma seleção cirúrgica das áreas em que Portugal pode ter vantagem competitiva. Cortiça para construção, indústria e vestuário. Azulejos, pavimentos e revestimentos cerâmicos. Papel e pasta de papel. Artigos de luxo com design sustentável. Vinho do Porto. Embalagens ecológicas para aplicação industrial e em bens de consumo – este último sector em particular pode definir Portugal como líder mundial se o país tiver a capacidade de alinhar a investigação e a indústria, no curto prazo.
8 – Em que sectores de Portugal poderiam as empresas do país onde está querer investir?
As empresas chinesas estão habituadas a projetos de investimento de grande dimensão, o que limita as oportunidades num país pequeno como Portugal. Por isso, para canalizar investimento chinês terá de ser em grandes projetos estruturais. Tecnologicamente, a China está muito à frente de qualquer outro país. Portugal poderia beneficiar dessa tecnologia, por exemplo, no sector dos transportes. A China tem um sistema de transportes urbanos e intercidades de alta velocidade eficaz e de baixo custo, incluindo frotas de transportes públicos sem condutor. Não me refiro apenas aos meios de transporte em si, mas também à gestão das redes de transportes usando inteligência artificial. O nosso país é pequeno, seria fácil ligar norte e sul, este e oeste com comboios de alta velocidade, de forma que qualquer pessoa possa trabalhar em qualquer parte do país independentemente da região onde viva. Uma parceria entre Portugal e a China nesta área poderia modernizar a mobilidade em Portugal, aliviar o custo da habitação nas grandes cidades e reduzir as disparidades entre litoral e interior. Por outro lado, Portugal tem acesso privilegiado ao Atlântico. Parcerias estratégicas com empresas chinesas no sector portuário e de expedição marítima permitiriam a modernização dos portos portugueses e colocaria o nosso país numa posição mais relevante nas rotas do Atlântico. Portugal pode também aproveitar o facto de ter excedentes de energia e uma grande percentagem de energia renovável para atrair empresas chinesas a instalar centros de servidores para armazenamento de dados em Portugal. O nosso país pode posicionar-se como o parceiro europeu de eleição em matéria de sustentabilidade digital.
9 – Qual a vantagem competitiva do país em que está que poderia ser replicada em Portugal?
A China tem um plano estratégico para os próximos 5, 10 e 20 anos e todo o país trabalha em conjunto para cumprir o plano, desde a educação ao sector empresarial. Portugal beneficiaria se se orientasse mais para uma estratégia de longo prazo. Se alinhasse educação, investigação e emprego com os interesses estratégicos do país. Para isso, Portugal tem que refletir sobre as suas vantagens competitivas e definir um plano para os próximos 10 – 20 anos. A situação geopolítica está a alterar-se de uma forma sem precedentes. Portugal tem de deixar de esperar pela Europa, tem de fazer uma leitura global proactiva e posicionar-se de modo a melhor servir o interesse coletivo do país. Por exemplo, no sector das energias renováveis e do hidrogénio, no sector da gestão de servidores de dados, no sector da inteligência artificial, no sector dos materiais ecológicos e do design sustentável.
10 – Pensa voltar para Portugal? Porquê?
Não conheço nenhum português que esteja fora e que não pense voltar a Portugal, mas as dificuldades são imensas. É mais fácil para um estrangeiro mudar-se para Portugal com um bom emprego do que para um português que viva no estrangeiro regressar. Aí está mais um aspeto em que Portugal poderia aprender com a China: a atrair os portugueses que trabalham no estrangeiro a regressar a Portugal e aplicar os seus conhecimentos no desenvolvimento do país. Gostava de voltar a Portugal. Já estou fora há muitos anos, já trabalhei em vários países, gostava que os meus filhos interiorizassem essa identidade. Apesar de nunca terem vivido em Portugal, sentem uma grande afinidade com o país e mostram vontade em lá viver. Acho que os portugueses não se apercebem que a vida em Portugal é melhor em muitos aspetos. Gostava também de poder contribuir para o sucesso do país com o conhecimento e experiência que tenho. Contudo, quando volto vai depender de alguns fatores, especialmente de encontrar um desafio profissional adequado.