3 de Fevereiro de 2026

Entrevista a Francisco Gonçalves: “Portugal tem potencial para ser um hub de excelência” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Francisco Leal Gonçalves partilha o seu percurso internacional e a experiência desenvolvida ao longo de mais de uma década nos Emirados Árabes Unidos, onde construiu uma carreira ligada à transformação digital, à inteligência artificial e ao uso estratégico de dados. Na entrevista, destaca o ambiente multicultural e fortemente orientado para a inovação que caracteriza o país, bem como a importância da capacidade de adaptação, da execução eficaz e da construção de parcerias locais. Aborda ainda as oportunidades existentes para empresas portuguesas em setores estratégicos e reflete sobre a necessidade de Portugal reforçar a agilidade, a simplificação de processos e uma visão estratégica de longo prazo para aumentar a sua competitividade internacional.

1 – O que o levou a sair de Portugal?  
Desde criança, sempre tive o fascínio por conhecer outras culturas, sensibilidades e outros povos. Tanto é que, aos dezassete anos, concorri a um programa de estudo de ensino médio no estrangeiro, neste caso, na Alemanha onde me senti entusiasmado. Finalizado este programa, decidi dar mais um passo no exterior, optando por Inglaterra, com a vista à frequência de estudos universitários. 

No términus do meu percurso académico e iniciando a vida profissional, após uns breves anos em Portugal, a vontade de progressão na carreira aliada ao desejo de crescimento pessoal e profissional, a que acresceu o espírito de aventura, resolvi dar mais um passo, optando pela vizinha Espanha. Em suma, estes foram os principais motivos que me levaram a sair de Portugal. 

2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?  

Ser português trouxe muitas vantagens e praticamente nenhuma desvantagem. Gostaria de destacar a capacidade de adaptação, integração, disponibilidade e a flexibilidade que nos caracterizam, qualidades muito valorizadas internacionalmente. 

3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?  

Não enfrentei obstáculos de grande relevância, pois já tinha vivido em outros países e sempre gostei de assimilar novas culturas e experiências. Desde cedo, encaro a vivência num novo país como uma fase bastante enriquecedora e inspiradora, tanto a nível pessoal como profissional. Além disso, os Emirados Árabes Unidos estão muito bem estruturados e facilitam bastante a integração quer para pessoas singulares quer para famílias. O único e verdadeiro desafio talvez seja a saudade da família, dos amigos e do Benfica, que é colmatada com visitas regulares a Portugal e, reciprocamente, o seu acolhimento no Dubai. 

4 – O que mais admira no país em que está?  

Admiro profundamente o espírito de inovação e a diversidade multicultural de oferta de ensino aos seus diversos níveis. Aqui, não há limites para a ambição no que concerne aos desafios e à busca incessante por soluções inovadoras. Para além disso, também valorizo a assimilação e a tolerância: nos Emirados vivem pessoas de todos os cantos do mundo, e a convivência é harmoniosa. 

5 – O que mais admira na empresa/ organização em que está?  

O que mais admiro na Presight (empresa do Grupo G42) é a oportunidade de trabalhar na vanguarda da inovação global nos campos da inteligência artificial e da tecnologia avançada. Como líder global em IA e análise de big data, a Presight está a impulsionar o crescimento transformador por meio de tecnologias de ponta que melhoram vidas, fortalecem cidades e apoiam o progresso nacional e internacional. É inspirador fazer parte de uma empresa que promove mudanças significativas no dia a dia e que também atua à escala global. 

6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?  

Aos empresários e gestores portugueses que consideram expandir os seus negócios ou investir nos Emirados Árabes Unidos, recomendaria uma abordagem estratégica, estruturada e sustentada por uma análise rigorosa do mercado. Este país oferece um ecossistema empresarial vibrante, com inúmeras oportunidades em setores emergentes e altamente competitivos. No entanto, para que essa entrada seja bem-sucedida, é fundamental compreender não apenas os aspetos económicos, mas também os culturais, legais e institucionais que regem o ambiente de negócios local. 
É imperativo realizar estudos de mercado aprofundados, identificar os segmentos com maior potencial de crescimento e avaliar cuidadosamente os concorrentes já estabelecidos. A concorrência nos Emirados é sofisticada, exigente e, em muitos casos, tecnologicamente avançada, o que exige dos investidores portugueses um nível elevado de preparação e diferenciação. 
Além disso, recomendo vivamente a criação de parcerias estratégicas com entidades locais — sejam empresas, consultoras ou organismos governamentais —, como forma de facilitar a entrada no mercado, acelerar processos administrativos e garantir maior legitimidade junto dos stakeholders locais. 
A capacidade de adaptação, o respeito pelas normas culturais e a construção de relações de confiança são elementos-chave para o sucesso. Portugal tem talento, inovação e qualidade; o desafio está em saber posicionar-se estrategicamente num mercado que valoriza excelência, agilidade e visão global. 

7 – Em que setores do país onde vive poderão as empresas portuguesas encontrar clientes?  

Nos Emirados Árabes Unidos, as empresas portuguesas têm à sua disposição um leque diversificado de setores com elevado potencial de negócio. 
Destaco, em primeiro lugar, o setor tecnológico, com especial ênfase para a inteligência artificial, análise de dados, cibersegurança, soluções digitais e automação de processos. Este é um dos pilares da estratégia nacional dos Emirados, com investimentos robustos e uma procura constante por soluções inovadoras. 
O setor do desporto também apresenta oportunidades relevantes, não apenas na construção e gestão de infraestruturas, mas também na formação, consultoria técnica e organização de eventos. 
O retalho especializado, sobretudo em nichos de mercado como produtos gourmet, moda sustentável, design e artesanato de qualidade, tem vindo a ganhar espaço entre consumidores exigentes e cosmopolitas. 
Por fim, as energias renováveis representam uma área de crescimento estratégico, alinhada com os compromissos ambientais do país e com a transição energética em curso. 
A chave para o sucesso reside na capacidade de oferecer soluções diferenciadas, sustentáveis e adaptadas às necessidades locais, com uma abordagem que combine inovação, qualidade e sensibilidade cultural. 

8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde está querer investir?  

Portugal é cada vez mais reconhecido como um destino atrativo para investimento estrangeiro, e os Emirados Árabes Unidos não são exceção. 
As empresas emiratis têm demonstrado interesse crescente em setores como tecnologia — nomeadamente Smart Cities, segurança urbana, gestão de dados, fintech, mobilidade inteligente e soluções para cidades resilientes. 
A área da energia, com destaque para as renováveis, é outro campo de grande interesse, especialmente tendo em conta o know-how português em projetos de energia solar, eólica e hídrica. 
O turismo, por sua vez, continua a ser um dos setores mais promissores, não apenas pela beleza natural e riqueza cultural de Portugal, mas também pela capacidade de oferecer experiências autênticas, sustentáveis e de elevada qualidade. 
Portugal pode posicionar-se como um parceiro estratégico para empresas dos Emirados que procuram expandir-se na Europa, beneficiando de um ambiente político estável, mão de obra qualificada, excelente infraestrutura e uma localização geográfica privilegiada. 

9 – Qual a vantagem competitiva do país em que está que poderia ser replicada em Portugal? 

Os Emirados Árabes Unidos possuem várias vantagens competitivas que poderiam servir de inspiração para Portugal. 
A primeira é a agilidade na tomada de decisões, com processos administrativos simplificados, objetivos claros e uma cultura de execução eficaz. Esta capacidade de agir com rapidez e precisão é essencial num mundo empresarial cada vez mais dinâmico. 
A segunda vantagem é a excelência na infraestrutura de transportes e comunicações, que permite uma conectividade fluida entre regiões e países, facilitando o comércio, o turismo e a mobilidade de talentos. 
A terceira é a aposta contínua e estratégica na inovação, com investimentos significativos em educação, ciência, tecnologia e empreendedorismo. 
Por fim, o posicionamento geoestratégico dos Emirados, como ponto de ligação entre o Oriente e o Ocidente, é explorado de forma exemplar. 
Portugal, com a sua localização privilegiada entre Europa, África e Américas, tem potencial para se tornar um hub de excelência, desde que invista numa visão estratégica de longo prazo, promova a colaboração público-privada e aposte na capacitação e retenção de talento. 
Em suma, replicar esse modelo de integração, conexão e visão estratégica seria uma oportunidade valiosa para o nosso país, poderia reforçar a competitividade nacional e posicionar o país como um parceiro global de referência, salvaguardando evidentemente os contrastes sociais e culturais. 

10 – Pensa voltar para Portugal? Porquê? 

Sim, num futuro não muito longínquo, apesar de me sentir bem neste país. Portugal é onde estão as minhas raízes, a minha família e os meus amigos. Gostaria de repartir o meu tempo entre Portugal e os Emirados Árabes Unidos, conciliando o melhor dos dois mundos.