No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Negócios, Jorge Antunes, Head of Digital para África e Médio Oriente na Hitachi Digital Services e Conselheiro do Núcleo Regional do Médio Oriente foi entrevistado para o Jornal de Negócios, onde abordou o seu percurso profissional e identificou oportunidades competitivas para Portugal, a sua economia, empresas e empresários em geral.
1 – O QUE O LEVOU A SAIR DE PORTUGAL?
A decisão de sair de Portugal foi motivada por uma vontade genuína de expandir horizontes, viver outras realidades e crescer pessoal e profissionalmente em ambientes internacionais. Quis posicionar-me num contexto onde pudesse aprender com diferentes culturas, liderar com impacto global e representar Portugal com orgulho.
Hoje, mais do que “ter saído de Portugal”, considero que desenvolvi uma perspetiva global, de cidadão do mundo. Independentemente de estar nos Emirados Árabes Unidos ou em Portugal, o meu compromisso é com a criação de valor onde quer que esteja — e com a construção de pontes entre geografias, pessoas e oportunidades. Portugal continua presente em tudo o que faço, mas agora com uma visão mais ampla, mais conectada e mais estratégica.
2 – QUE VANTAGENS OU DESVANTAGENS LHE TROUXE O FACTO DE SER PORTUGUÊS?
Ser português é, sem dúvida, uma vantagem. A nossa história, cultura e forma de estar no mundo conferem-nos uma identidade única. Somos resilientes, empáticos e sabemos comunicar com diferentes culturas — características muito valorizadas no contexto internacional.
Por outro lado, há ainda o desafio de posicionar Portugal ao nível dos grandes players globais. Muitas vezes, o nosso país e os nossos profissionais não são automaticamente associados à excelência ou inovação, o que obriga a um esforço inicial extra para provar valor. Mas esse esforço converte-se rapidamente em reconhecimento quando demonstramos resultados.
3 – QUE OBSTÁCULOS TEVE DE SUPERAR E COMO O FEZ?
Os maiores desafios estiveram ligados à adaptação a culturas empresariais distintas, à construção de confiança em mercados competitivos e à gestão de equipas multiculturais em geografias complexas.
Superá-los exigiu humildade para aprender, foco nos resultados, e acima de tudo, uma abordagem colaborativa e respeitosa. Construí relações de confiança com base na entrega, consistência e visão estratégica — e beneficiei da capacidade portuguesa de adaptação e empatia, que tantas vezes faz a diferença no terreno.
4 – O QUE MAIS ADMIRA NO PAÍS EM QUE ESTÁ?
Admiro a ambição com que se projeta o futuro. Os Emirados Árabes Unidos têm uma visão clara, estratégica e orientada para resultados. Investem fortemente em tecnologia, inovação, sustentabilidade e na criação de ecossistemas que promovem o progresso em larga escala. Há uma notável capacidade de execução e uma cultura de excelência, onde o que se propõe é rapidamente transformado em realidade.
Mas, acima de tudo, o que mais admiro — e que considero também o maior desafio — é o facto de ser, na minha opinião, o mercado mais competitivo do mundo. Aqui concorrem as melhores empresas, os melhores talentos e as ideias mais arrojadas, num ambiente onde a exigência é constante e onde só quem acrescenta valor real se mantém relevante.
5 – O QUE MAIS ADMIRA NA EMPRESA / ORGANIZAÇÃO EM QUE ESTÁ?
Na Hitachi, admiro profundamente a capacidade de alinhar tecnologia com propósito. A empresa aposta em soluções que têm um impacto real na vida das pessoas — seja na mobilidade sustentável, energia limpa ou transformação digital de cidades e indústrias. Existe uma cultura de inovação com responsabilidade, e um foco claro em sustentabilidade, impacto social e criação de valor a longo prazo.
Adicionalmente, tenho um orgulho especial no facto de o centro de desenvolvimento da Hitachi em Portugal estar envolvido em projetos para várias geografias, e de ser reconhecido mundialmente pela sua qualidade técnica, capacidade de execução e espírito empreendedor.
É com enorme satisfação que vejo como o talento português — criativo, resiliente, comprometido — tem conquistado destaque dentro de uma organização global. Mais uma vez, a veia portuguesa, com a sua capacidade de adaptação, colaboração e inovação, é, no meu entender, um dos nossos maiores fatores diferenciadores.
6 – QUE RECOMENDAÇÕES DARIA A PORTUGAL E AOS SEUS EMPRESÁRIOS E GESTORES?
A primeira recomendação é que pensem global desde o primeiro momento. Portugal tem o talento, a criatividade e a capacidade técnica para competir no mundo — mas precisa de acreditar mais nisso.
É também fundamental que os empresários portugueses comecem a valorizar profissionais com experiência internacional. Estes perfis são portas de entrada para novos mercados e trazem conhecimento estratégico e cultural que não se aprende em manuais — são autênticos embaixadores do país e uma vantagem competitiva que Portugal muitas vezes subaproveita.
Acrescento ainda que a gestão da marca Portugal tem de ser feita com mais intenção e eficácia. Temos produtos e serviços de excelência, mas nem sempre conseguimos posicioná-los ao lado dos melhores. Portugal deve afirmar-se como sinónimo de qualidade, inovação e exclusividade — uma marca país forte é um ativo estratégico para todos os setores.
7 – EM QUE SETORES DO PAÍS ONDE VIVE PODERÃO AS EMPRESAS PORTUGUESAS ENCONTRAR CLIENTES?
Nos Emirados Árabes Unidos e, de forma mais ampla, na região do Golfo, existem grandes oportunidades em setores estratégicos como a energia limpa, infraestruturas inteligentes, mobilidade elétrica, tecnologias de informação, cibersegurança, saúde digital, e serviços especializados de engenharia e consultoria.
É um mercado altamente exigente, que valoriza qualidade, inovação e capacidade de entrega, onde as empresas são constantemente desafiadas a apresentar soluções diferenciadoras.
Se Portugal quiser verdadeiramente posicionar-se entre os “best of the best”, então terá imensas oportunidades neste e noutros mercados globais. Temos know-how, talento e soluções que fazem frente aos maiores players internacionais — o que falta, muitas vezes, é apenas uma maior ambição na forma como nos posicionamos.
8 – EM QUE SETORES DE PORTUGAL PODERIAM AS EMPRESAS DO PAÍS ONDE ESTÁ QUERER INVESTIR?
Portugal é um destino cada vez mais atrativo para investidores internacionais, e há setores com enorme potencial de crescimento e retorno. Destaco, desde já, as energias renováveis, a engenharia e tecnologia aplicadas a smart cities, a digitalização de serviços públicos, e claro, o turismo de excelência — onde Portugal já tem uma posição consolidada.
Mas há também áreas emergentes que podem ser alavancadas, como o turismo sénior, um segmento em expansão a nível global e onde Portugal reúne todas as condições: segurança, clima, sistema de saúde de qualidade e uma hospitalidade reconhecida mundialmente.
Outro setor com enorme margem de crescimento é a agricultura de alto valor acrescentado, sobretudo quando aliada a práticas sustentáveis e tecnologias de ponta. Portugal tem território, conhecimento técnico e tradição agrícola, e pode posicionar-se como fornecedor estratégico de produtos diferenciados.
9 – QUAL A VANTAGEM COMPETITIVA DO PAÍS EM QUE ESTÁ QUE PODERIA SER REPLICADA EM PORTUGAL?
Uma das grandes vantagens dos Emirados Árabes Unidos é a sua capacidade de execução rápida e eficiente. Quando se identifica uma oportunidade, a distância entre a decisão e a implementação é mínima. Existe uma mentalidade de “fazer acontecer” que atravessa o setor público, o setor privado e as lideranças em geral.
Mas mais do que fundos — que muitos países têm — o que distingue verdadeiramente este mercado é uma vontade inabalável de concretizar, de avançar, de colocar as ideias no terreno com ambição e sentido de urgência.
Além disso, há pilares muito sólidos que sustentam essa dinâmica: justiça rápida, que assegura segurança jurídica e previsibilidade para investidores; política migratória controlada e estratégica, que atrai talento altamente qualificado; e parcerias internacionais bem posicionadas, com impacto real na economia e na reputação global.
Portugal tem tudo para replicar esta fórmula — à sua escala e com a sua identidade — se conseguir aliar os recursos que já tem a uma cultura de execução, foco e confiança institucional.
10 – PENSA VOLTAR PARA PORTUGAL? PORQUÊ?
Sem dúvida que voltarei a Portugal. O regresso faz parte do meu percurso, não apenas por razões pessoais, mas também pelo desejo de contribuir diretamente para o futuro do país. Portugal é casa — emocional, cultural e profissionalmente.
No entanto, manterei sempre uma perspetiva global e um envolvimento ativo a nível internacional. O mundo está interligado, e acredito que o verdadeiro impacto hoje vem da capacidade de ligar o local ao global, de trazer conhecimento, experiências e redes internacionais para dentro das nossas fronteiras.
Quero estar em Portugal com os pés assentes na terra, mas com os olhos no mundo — e com a mesma missão de sempre: fazer pontes, criar valor e contribuir para um Portugal mais competitivo, mais conectado e mais ambicioso.