No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Negócios, Jorge Vazquez, CFO na Randstad NV e Conselheiro do Núcleo Regional da Europa Ocidental foi entrevistado para o Jornal de Negócios, onde abordou o seu percurso profissional e identificou oportunidades competitivas para Portugal, a sua economia, empresas e empresários em geral.
1 – O QUE O LEVOU A SAIR DE PORTUGAL?
Desde novo, tive a oportunidade de estar exposto a experiências internacionais, que me levaram a experimentar novos mundos, e que por si despoletaram uma sucessão de escolhas e decisões a que chamamos história de vida.
Prefiro pensar que nunca deixei Portugal. Nunca houve um grande plano! Destino, acaso e coincidência?
2 – QUE VANTAGENS OU DESVANTAGENS LHE TROUXE O FACTO DE SER PORTUGUÊS?
Vivi cinco anos no Brasil onde a língua e afinidade cultural com Portugal foram decisivas. Para além disso, apesar do orgulho inabalável, ou talvez ingenuamente, nunca achei que a nacionalidade, em específico, fosse um fator central nas interações que tive. Quando muito uma curiosidade adicional e (bons!) motivos de conversa informal.
Por outro lado, somos todos fruto do nosso contexto.
Portugal é (muito) grande. E apesar de ser um país de dimensão geográfica pequena, nesse “orgulho” e determinação, sempre encontrei confiança em enfrentar desafios.
Sempre estive rodeado de sentido de responsabilidade. Os meus pais embutiram-me o respeito pelo trabalho e a importância de nos dedicarmos a algo simplesmente pelo seu propósito. A educação que tive sempre considerei ser, de alguma forma, uma vantagem competitiva. Cresci rodeado de pessoas que admiro, com integridade de carácter e talento, e numa cultura assente em respeito mútuo e diplomacia, em que o único resultado possível é uma solução em que todos ganham.
Nunca pequenino ou velhaco ou dançarino.
3 – QUE OBSTÁCULOS TEVE DE SUPERAR E COMO O FEZ?
Nenhum relevante. Tive porventura a sorte de ter sido apadrinhado por pessoas que me ajudaram em termos pessoais e profissionais e sempre me senti em casa onde quer que estivesse.
Sempre achei que, por mais diferentes que sejamos, temos mais em comum do que aquilo que nos separa. E mesmo nas eventuais diferenças, com um pouco de atenção, encontramos até mais razões de encanto do que desencanto.
A nível pessoal claro, a distância quer-se curta, mas colmata-se a saudade de outras formas.
4 – O QUE MAIS ADMIRA NO PAÍS EM QUE ESTÁ?
A Holanda (Países Baixos devo dizer!), alia uma das economias capitalistas mais livres do mundo com um contrato social de coesão forte, assente em deveres e direitos claros.
Culturalmente, apesar de não estar ligado à religião em si, eu acredito que o calvinismo aqui desenvolveu-se como um modo de vida e acabou por ser fundamental no sucesso político-social do último século.
Uma expressão que se usa regularmente aqui é “doe normaal”, que em tradução grosseira, representa o apelo ao conteúdo e não tanto à forma, aos factos e não ao protagonista. A cultura de trabalho replica esses conceitos: aberta, focada em conteúdo, pragmática.
A reação direta, que às vezes parece rispidez, resulta, na minha opinião, do igualitarismo, da crença na igualdade das pessoas, o que frequentemente gera uma atitude peculiar em relação à hierarquia e ao status. Ótimo para discussões!
Por último, politicamente, pelo menos historicamente, a necessidade de gerir consensos em governos de coligação trouxe estabilidades de políticas que permitem decisões e investimentos a longo prazo.
5 – O QUE MAIS ADMIRA NA EMPRESA / ORGANIZAÇÃO EM QUE ESTÁ?
O propósito e os valores da empresa, que são, também, grande parte da razão do seu sucesso ao longo dos últimos 65 anos. A Randstad é líder mundial em talento, presente em 39 países. Trabalhamos diariamente para encontrar as melhores oportunidades para os nossos candidatos e o melhor talento para os nossos clientes. Todos os anos, ajudamos cerca de 2 milhões de pessoas a encontrar um emprego e aconselhamos mais de 200,000 clientes.
O seu sucesso reside nas pessoas que, diariamente, fazem a diferença. É literalmente, uma empresa de pessoas, para pessoas. Liderar e inspirar essa energia é um privilégio e uma responsabilidade. Em Portugal, somos mais de 400 colaboradores num total de cerca de 40 mil, sendo eles a verdadeira chave do nosso sucesso. Sendo assim, o seu diferencial passa, em grande parte, pela relação única e personalizada que cada colaborador constrói com o nosso talento e clientes. É essa atitude de compromisso e de “dono” que torna a empresa especial.
Em terceiro lugar, uma oportunidade única. O mercado de trabalho está em constante mudança, o que traz um dinamismo único à empresa e um sentido de responsabilidade para com o nosso talento. Hoje temos em curso uma grande transformação para revolucionar a experiência que cada interação recebe da Randstad. É um dos últimos sectores ainda a poder melhorar em grande escala com o poder da digitalização.
6 – QUE RECOMENDAÇÕES DARIA A PORTUGAL E AOS SEUS EMPRESÁRIOS E GESTORES?
Ao longo da nossa história a necessidade sempre nos aguçou o engenho. Acredito que com a qualidade do nosso ensino, a nossa atitude determinada e de resiliência frente a qualquer desafio, e a cultura aberta pela qual somos conhecidos, tudo temos para ser bem-sucedidos em qualquer parte do mundo.
O primeiro fator de sucesso é garantir que as escolhas que se fazem sejam em setores e necessidades que tenham escala e razões estruturais de crescimento futuro, ou seja, remar para onde as correntes sejam fortes. O potencial de mercado, ou a falta dele, acaba por ser um dos fatores que mais limita o sucesso de uma empresa.
Em segundo lugar, uma definição de estratégia de mercado imediatamente europeia ou externa, permitindo testar ideias, melhorar a competitividade de produtos e serviços, evitando falácias de subescala ou (aparente) sucesso pontual e temporário difícil de replicar. Maximizar de raiz o facto de fazermos parte de um mercado único europeu ou de um mundo interconectado globalmente.
Em último lugar, uma estrutura acionista e de capital bem diversificada traz vantagens únicas para apoiar as empresas nas suas diferentes fases de crescimento, não só em termos de capital, mas também em apoio de gestão, escolhas estratégicas, em parcerias, e em desenvolvimento empresarial em geral.
7 – EM QUE SETORES DO PAÍS ONDE VIVE PODERÃO AS EMPRESAS PORTUGUESAS ENCONTRAR CLIENTES?
Tecnologia, infraestrutura e serviços de consultoria empresarial são setores de grande preponderância na Holanda. Portugal forma profissionais de excelência e tem empresas de ponta que muito têm a acrescentar nestes setores. Recentemente vi com bons olhos o crescimento de empresas de auditoria, de engenharia e de serviços jurídicos portuguesas aqui na Holanda.
Nos próximos anos, em particular, podemos aproveitar o crescimento esperado no sector aeroespacial de defesa, no qual já temos um bom ponto de partida.
Temos também um dos setores de hotelaria mais competitivos do mundo, com um leque variado de conceitos e ofertas, que podemos também “exportar”, não somente “importar”, ganhando escala aqui.
8 – EM QUE SETORES DE PORTUGAL PODERIAM AS EMPRESAS DO PAÍS ONDE ESTÁ QUERER INVESTIR?
Somos líderes em energias renováveis, um sector que se encontra em desenvolvimento e onde vamos com certeza continuar a liderar.
Temos um bom sistema de ensino, talento e uma cultura aberta, rica e experiente em sutilezas, que sempre vinga em desafios. Nesse contexto, setores de serviço, com base em tecnologia ou conhecimento de ponta, como consultoria, engenharia, desenvolvimento de sistemas, são áreas onde temos muito valor a acrescentar a cadeias de valor integradas mundialmente.
O sector agrícola e de alimentação vive também hoje uma grande revolução, e em que mais uma vez, temos tudo para ser líder mundial.
Portugal, num mundo interconectado, tem muito para oferecer a capital externo.
9 – QUAL A VANTAGEM COMPETITIVA DO PAÍS ONDE ESTÁ QUE PODERIA SER REPLICADA EM PORTUGAL?
Como referi anteriormente, o pragmatismo associado a resultados concretos seria o que “importaria” de imediato. Há esforços já visíveis nesta área, mas continuaria a redobrá-los e a festejar os sucessos que daí advêm. Em termos concretos, menos ideologia e fatalismo, um foco ainda maior em desburocratizar processos administrativos, conjugado com uma política e meios para maior apoio a empresas e criação de emprego e um sistema fiscal mais eficiente.
Um sistema judicial mais célere é crítico também para ajudar empresas e investimento, permitindo suceder e falhar mais rápido e alocar capital de forma mais eficiente.
O peso relativamente elevado do Estado na nossa economia é algo também que reveria, sob pena de efeito de “crowding out”, deixando a seleção natural de mercados otimizar a alocação de capital e recursos, promovendo concorrência e inovação onde possível.
10 – PENSA VOLTAR PARA PORTUGAL? PORQUÊ?
Família e amigos (e o glorioso) são insubstituíveis e mais tarde ou mais cedo sem dúvida que sim, com mais regularidade ou a tempo inteiro. Nestas coisas, querer é poder.