No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Negócios, Miguel Gutierrez, fundador e CEO da Mandalus, cofundador e administrador do Portuguese Business Council e Conselheiro do Núcleo Regional do Médio Oriente, Índia e Egito, foi entrevistado para o Jornal de Negócios sobre a sua trajectória única, que alia experiência artística em Portugal a uma carreira empresarial e filantrópica internacional no Dubai. Miguel partilha os desafios de trabalhar no estrangeiro, as oportunidades de internacionalização para empresários portugueses e a importância de preservar a identidade cultural na construção de relações globais.
1 – O que o levou a sair de Portugal?
Necessidade. Com 23 anos, em 2012, enquanto rapper, tive uma grande oportunidade que aproveitei bem e fui contratado e agenciado nos Estados Unidos para uma tournée por vários estados, que pagou bem; e como teve uma boa exposição mediática lá, achei que teria repercussão na indústria em Portugal. Não teve. E calhou ter problemas familiares que consumiram o que eu ganhei. Esses problemas agravaram-se, também com impacto emocional, e, entre um mau momento financeiro e a minha fraca gestão de expetativas sobre ser artista em Portugal, entrei em depressão e fugi para o primeiro sítio que encontrei não-relacionado com a música: o Dubai.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?
Ao chegar ao Dubai, de forma humilde, a trabalhar como agente de check-in no aeroporto, comecei a ter um contato gigante com todas as nacionalidades do mundo! Tinha em média 300 passageiros por dia e havia sempre um fascínio quando descobriam que eu era português. Finalmente, quando me despedi, um desses passageiros frequentes, paquistanês, tinha um projeto megalómano e desafiou-me a juntar-me ao seu family office, pela afinidade que tínhamos. Fê-lo também por eu ser português, o que lhe convinha porque, como estava a abrir o hotel do Palazzo Versace e estava com vontade de desenvolver o tema dos branded hotels, queria criar o hotel do Cristiano Ronaldo. Entre contatos da música e do futebol, pois tinha jogado federado em juvenis, consegui-lhe uma reunião presencial com a Gestifute. Ele ficou impressionado e contratou-me. Doravante, sempre que ele me levava a entidades governamentais ou filantrópicas à volta do mundo, apresentava-me como seu parceiro (apesar de eu ser apenas o seu aprendiz), pois a reação que eu recebia ao ser português era sempre muito calorosa por ser alguém competente, esforçado, cultural e emotivo. Creio que ser português é isso também. Esta admiração vinha especialmente dos árabes, que se identificam muito connosco devido ao nosso espírito comunitário, cultural e poético e, claro, histórico.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
Os obstáculos que tive de superar foram principalmente meus, autoimpostos ou consequências da falta de entorno. Estudei em escolas e universidades públicas e, mesmo tendo espírito empreendedor e sendo ativo, não tinha bases de educação financeira, ao ter crescido em Portugal. A minha literacia financeira surgiu quando comecei a aprender com os erros, de forma muito lenta, lá fora. Em retrospetiva, foi a bengala que trouxe de Portugal e foi a mais difícil de ultrapassar. O outro grande obstáculo, também consequência dessa falta de inteligência financeira, mas felizmente provido de inteligência emocional e relacional, foi ter tido a oportunidade de ter feito muita coisa em filantropia. Porém, eu não era o filantropo que já tinha alcançado sucesso financeiro ou vinha de um património familiar: estava lá por ser pensador, agregador e bem-intencionado. Ganhava um mero salário enquanto juntava grandes empresários e herdeiros que naturalmente ganhavam confiança e depois faziam outros projetos. Isto começou a borbulhar em mim, pois na maioria das vezes eu preparava os perfis (além dos seus interesses humanitários) e apresentava-os de forma bastante personalizada. Entretanto, ajudei a Câmara de Comércio de Lisboa em algumas missões empresariais para o Dubai e comecei a perceber que o que eu estava a fazer tinha interesses puramente financeiros. Uma semana antes do COVID fechar o mundo, introduzi um investidor indiano a uma organização portuguesa que injetou muito dinheiro num evento, e, apesar de não ter recebido uma comissão, aprendi que era possível e qual o processo. Depois do COVID, tive o meu primeiro filho e abri finalmente a minha empresa, com a particularidade de não avisar ninguém da filantropia, exatamente para não misturar as minhas intenções e separar os meus objetivos. Felizmente, isso protegeu e estendeu ainda mais a minha goodwill a nível internacional.
4 – O que mais admira no país em que está?
Nos Emirados Árabes Unidos, principalmente no Dubai, adoro a transparência e honestidade dos meus círculos sociais. Sou abençoado por ter conhecido emiradenses que são pessoas genuínas, humanos sem agenda e que me aceitaram e incluíram, quase apenas por eu ter interesses filosóficos, artísticos, comunitários e humanitários. Normalmente, a propósito do Dubai, destaca-se a prosperidade, a paz, as oportunidades – que também reconheço e aproveito –, mas para mim foi, e é mesmo, estar rodeado de pessoas, inclusive, portuguesas no Dubai, com ambição e preocupação de legado. Fazer melhor, querer ser melhor, mas principalmente alcançar algo mais de nós.
5 – O que mais admira na empresa/organização em que está?
Eu criei a minha própria empresa – Mandalus – em 2021 e, portanto, não realço nada da minha própria cultura empresarial, apesar de promover transparência e capital relacional, visto ser uma empresa de consultoria estratégica. Estou no board de várias empresas e NGOs à volta do mundo e presido ao Portuguese Business Council do Dubai, sob a égide da Câmara de Comércio do Dubai. Sou também consultor para o governo do Dubai, via a maior e melhor free zone do mundo, a DMCC (Dubai Multi Commodities Centre). Se tivesse que realçar algo, diria, talvez, o projeto “Almadilha”, que combina música, filosofia, diplomacia e negócios e que tem uma equipa e colaborações desde o Dubai, ao Japão, ao Brasil, aos Estados Unidos, ao Vaticano, África do Sul ou mesmo China.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Vocês já são fantásticos! Exponham-se mais. Ampliem a vossa energia e as vossas metodologias de sucesso porque nem todas as outras nacionalidades têm um tecido socioeconómico complexo como nós, de resiliência e mosaico de visões. Ser português é ser mais: é ser grande. Se quiserem vir ao Dubai, será uma questão de serem pacientes com os processos de decisão. É um mercado muito fácil de incorporar e ainda mais fácil de viver. Contudo, é um país turístico com uma grande oferta de atrações desenhada para que o dinheiro que entra fique. Não é necessário ter parceiros emiradenses para conduzir o negócio; mas, caso seja essa a ideia, há um conceito interessante de perceber: “Shura” (conselho consultivo, em árabe), em relação ao qual, mesmo que já tenha sido tomada a decisão pelo decisor (ou líder da tribo ou família), todos os outros membros dentro da organização ou família são consultados para ouvir as suas opiniões sobre a decisão que está prestes a ser tomada. Este processo empata a comunicação efetiva das decisões, mas, a meu ver e gosto pessoal, protege a, longo prazo, os resultados que afetam o legado da família ou tribo, devido à conjuntura das políticas e visões planeadas a nível nacional, onde é importante também estar alinhado. Nem todo o dinheiro é bom dinheiro.
7 – Em que setores do país onde vive poderão as empresas portuguesas encontrar clientes?
Serviços, principalmente. O Dubai e os Emirados têm planos públicos de urbanização até 2070. Assim sendo, o real estate e sectores associados são boas oportunidades. A Tecnologia também, pois tudo é digital e quase não há hard-cash. De igual modo, a acessibilidade e o conforto são essenciais ao estilo de vida comum. Outra área é a de gestão de ativos e fortunas, assim como de investimentos, dada a escala do setor financeiro do Dubai. Há imensas oportunidades, depende da escala, ambição, legado e acessos.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde está querer investir?
Isso estou agora a descobrir! Opções não faltam. Por favor, contatem-me e/ou à Diáspora, porque estou disposto a ajudar em projetos sérios de pessoas íntegras. Principalmente com implementação tripple bottom line (people, planet, profit).
9 – Qual a vantagem competitiva do país em que está que poderia ser replicada em Portugal?
Otimização fiscal para residentes e otimização tecnológica de serviços, principalmente governamentais, para diminuir burocracia. De resto, Portugal dos portugueses é o meu sonho de sempre.
10 – Pensa voltar para Portugal? Porquê?
Penso, claro. Apesar de eu também ser sevilhano, a ligação que tenho com Almada e Lisboa, assim como o eterno romance com a cultura portuguesa e todas as suas nuances e melismas, é algo que me sustenta a um nível extrassensorial. É identidade, mas também fascínio. É ser, mas querer sentir que sou e passar aos outros que somos todos. Os meus filhos têm de saber que são portugueses ao serem portugueses em Portugal. Penso voltar e, com modéstia, mas honestidade, espero conseguir ser útil a Portugal!
BIOGRAFIA: Miguel Gutierrez, ou MIGUTI como artista, é projetista, agregador, empreendedor social e empresário. Nascido em Sevilha e crescido em Almada, vive no Dubai desde 2013, onde tem a sua empresa de consultoria MANDALUS e é também o presidente do Portuguese Business Council na Dubai Chambers. Como filantropo, dedicou-se vários anos à luta contra o tráfico humano e a escravidão moderna, ganhando o prémio Rockefeller com a Global Sustainability Network. Foi reconhecido pelo governo dos Estados Unidos como diplomata cultural a serviço do Hip-Hop em Portugal. Atualmente, está a acabar o álbum ALMADILHA.