10 de Julho de 2025

Entrevista a Miguel Teixeira: “Um dos maiores atrativos de Portugal é o fator humano” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Negócios, Miguel Teixeira, CEO Ibéria, International Organizations, LATAM e Consulting no Benelux e França na NTT Data Inc., e Conselheiro do Núcleo Regional dos EUA, foi entrevistado para o Jornal de Negócios, onde abordou o seu percurso profissional e identificou oportunidades competitivas para Portugal, a sua economia, empresas e empresários em geral.

1 – O QUE O LEVOU A SAIR DE PORTUGAL?

Sair de Portugal foi uma decisão ponderada e motivada por vários fatores. Em primeiro lugar, surgiu um novo desafio profissional que me permitia enriquecer o meu conhecimento e experiência, bem como ter contacto com novas realidades, algo que considero essencial para continuar a evoluir pessoal e profissionalmente. Além disso, depois de seis anos como CEO numa empresa que admiro profundamente, percebi que, para trazer novas ideias e garantir a sustentabilidade futura era inevitável procurar novas perspetivas. Por fim, foi também uma decisão familiar: queria oferecer às minhas filhas uma visão mais global do mundo, com experiências para as ajudar a crescer com uma mentalidade aberta e internacional.

2 – QUE VANTAGENS OU DESVANTAGENS LHE TROUXE O FACTO DE SER PORTUGUÊS?

Ser português num cargo internacional traz desafios e oportunidades. A dimensão económica e geopolítica do país de origem projeta nas pessoas um certo preconceito — ainda que subtil — (e que é natural no ser humano) e pode, de início, condicionar – positiva ou negativamente – a perceção de autoridade e impacto de um executivo. Mas, por outro lado, a origem portuguesa encerra em si mesmo valores muito positivos, como a seriedade, a capacidade de adaptação e uma forte competência multicultural. Quando alguém oriundo de um país com menor visibilidade internacional alcança uma posição de relevo, isso tende a despertar curiosidade e respeito. Muitas vezes, essa origem é vista como sinal de valor diferenciador, de alguém que teve de se destacar num contexto mais exigente. E isso, por si só, pode transformar-se numa vantagem competitiva.

3 – QUE OBSTÁCULOS TEVE DE SUPERAR E COMO O FEZ?

Ao longo da minha carreira internacional, enfrentei vários desafios, mas recorri sempre a duas ferramentas fundamentais. A primeira foi manter-me fiel aos meus princípios. Acredito que, no fim do dia, uma pessoa é uma pessoa — independentemente do país ou da empresa — e que o sucesso organizacional depende sobretudo das pessoas e da cultura em que estão inseridas. Nunca cedi nos meus valores apenas para ser mais facilmente reconhecido. A segunda foi a curiosidade: procurei sempre entender o “alfabeto” de cada país — a sua cultura, o seu passado e como isso molda comportamentos. Não mudei as minhas crenças, mas adaptei a forma de comunicar, ajustando o caminho ou a linguagem para chegar ao mesmo destino, sempre com foco no propósito.

4 – O QUE MAIS ADMIRA NO PAÍS EM QUE ESTÁ?

Tive o privilégio de viver no Chile e, atualmente, nos Estados Unidos — dois países muito diferentes, mas com aspetos que admiro profundamente. No Chile, impressionou-me a resiliência e o espírito liberal que marcou as últimas décadas. Vivi lá durante a pandemia e fui vacinado antes dos meus próprios pais em Portugal, o que demonstra a eficácia do sistema de saúde. As empresas, mesmo com algum apoio estatal, tiveram de se reinventar. Um exemplo notável foi a LATAM Airlines, que, sem ajuda do Estado, conseguiu reerguer-se — um verdadeiro símbolo de superação. Nos Estados Unidos, admiro a cultura de não ter medo de errar. Há um respeito genuíno por quem tenta fazer algo diferente, independentemente do sucesso. O espírito empreendedor, a capacidade de reaprender e o foco em “fazer o que é certo” em vez de apenas “fazer bem feito” são valores muito presentes. E, apesar das suas imperfeições, há um orgulho coletivo em ser americano que continua a unir o país — algo raro e poderoso.

5 – O QUE MAIS ADMIRA NA EMPRESA / ORGANIZAÇÃO EM QUE ESTÁ?

O que mais admiro na NTT DATA é a sua capacidade de combinar uma identidade japonesa sólida com um profundo respeito pela especificidade de cada região. Essa sensibilidade cultural traduz-se numa gestão que valoriza a integridade e privilegia uma visão de médio e longo prazo — algo cada vez mais raro no mundo empresarial. Na minha região em particular, destaco a clareza com que se reconhece a importância do talento e da cultura organizacional. Trabalhar com líderes que têm um espírito empreendedor e que, ao longo de 30 anos, ajudaram a construir esta companhia, é profundamente inspirador. Essa combinação de visão, respeito e autenticidade é, para mim, um dos maiores ativos da empresa.

6 – QUE RECOMENDAÇÕES DARIA A PORTUGAL E AOS SEUS EMPRESÁRIOS E GESTORES?

A principal recomendação que daria é que cuidem verdadeiramente do talento e da cultura das suas organizações. As melhores pessoas permanecem onde se sentem valorizadas, desafiadas por quem as inspira e onde têm espaço para crescer todos os dias. É fundamental dar liberdade às pessoas, exigindo compromisso, responsabilidade e excelência, não tratando todos de forma igual, mas reconhecendo o mérito e o potencial de cada um. É igualmente importante cultivar a curiosidade, aprender com diferentes gerações, ouvir perspetivas diferentes e ter a coragem de tomar decisões difíceis quando é necessário. Tudo isto conjugado, permite reter o bom talento, que atrai outros bons talentos. O mau, quando permanece, não atrai ninguém e ainda afasta os melhores.

7 – EM QUE SETORES DO PAÍS ONDE VIVE PODERÃO AS EMPRESAS PORTUGUESAS ENCONTRAR CLIENTES?

Trabalho no setor tecnológico e é precisamente aí que vejo oportunidades para as empresas portuguesas nos Estados Unidos. Portugal já tem vários unicórnios que exploraram este mercado pelo seu potencial volume de negócios, mas também pelas oportunidades de crescimento e pela abertura à inovação. A maioria destas empresas atua em nichos com uma forte componente de inovação, mas o mercado americano, mesmo nos seus setores mais tradicionais, valoriza o que vem de fora, desde que traga valor real. Não há preconceito quanto à origem, mas sim uma exigência clara quanto ao impacto. Assim, entendo que Portugal deve posicionar-se com uma proposta equilibrada de valor diferencial e competitividade. Não somos — nem devemos ser — um país que compete por custo. O nosso trunfo está no talento, na criatividade e na capacidade de entregar soluções com qualidade e visão. Se entrarmos neste mercado apenas com uma lógica de preço ou de produto “commodity”, dificilmente teremos sucesso.

8 – EM QUE SETORES DE PORTUGAL PODERIAM AS EMPRESAS DO PAÍS ONDE ESTÁ QUERER INVESTIR?

Acredito que um dos maiores atrativos de Portugal para investimento estrangeiro, especialmente dos Estados Unidos, está no fator humano. O país tem vindo a afirmar-se como um verdadeiro ValueShore — não apenas pelo talento altamente qualificado que sai das universidades, mas também pelas condições de vida atrativas, que ajudam a reter e atrair profissionais de excelência. Embora o turismo continue a ser uma das nossas bandeiras, vejo Portugal com um enorme potencial como hub tecnológico bidirecional. Temos uma cultura de rápida adoção de novas tecnologias, o que nos torna um excelente campo de experimentação e escalabilidade para soluções inovadoras. Isso é particularmente relevante para empresas que procuram testar, adaptar e depois expandir globalmente. Portugal pode e deve posicionar-se como um parceiro estratégico para empresas que valorizam talento, inovação e agilidade — não apenas como destino de investimento, mas como plataforma de crescimento.

9 – QUAL A VANTAGEM COMPETITIVA DO PAÍS ONDE ESTÁ QUE PODERIA SER REPLICADA EM PORTUGAL?

Uma das maiores vantagens competitivas dos Estados Unidos que poderia ser replicada em Portugal é a orientação para a inovação. Aqui, errar não é visto como um fracasso, mas como uma parte natural do processo de aprendizagem e crescimento. Essa ausência de preconceito em relação ao erro cria um ambiente onde se experimenta mais, se arrisca mais e, por consequência, se inova mais. Assim, seria importante encontrar um reequilíbrio entre o modelo social europeu, que é valioso e deve ser preservado, e um maior incentivo à iniciativa privada e à meritocracia das empresas. Valorizar quem se destaca, quem empreende e quem assume riscos é essencial para acelerar o progresso. Com a velocidade a que a inteligência artificial está a transformar o mundo, não haverá adoção sem agilidade e sem alguma dose de risco. Portugal tem talento e criatividade; o que falta, por vezes, é o ambiente certo para que essas qualidades floresçam com ambição global.

10 – PENSA VOLTAR PARA PORTUGAL? PORQUÊ?

Sim, penso voltar a Portugal. Antes de sermos profissionais, somos pessoas e para mim, a família, os amigos e os nossos costumes têm um valor imenso. Sinto muito a falta deles, e é por isso, e apenas por isso, que regressarei sem qualquer dúvida. Quando o fizer, espero poder trazer comigo a experiência acumulada e, quem sabe, contribuir com um pequeno “grão de areia” para o nosso país. Voltarei com energia renovada, porque acredito que nenhuma posição ou cargo deve ser eterna. Gosto de aprender, de evoluir, e sei que isso é essencial — tanto para mim como para qualquer organização.