20 de Janeiro de 2026

ENTREVISTA A RICARDO MARFIM DOS SANTOS: “EM ANGOLA É ESSENCIAL ESCOLHER UMA ATITUDE DE COMPROMISSO” | JORNAL DE NEGÓCIOS

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Ricardo Marfim dos Santos, CEO da Tecnovia Angola e Conselheiro da Diáspora Portuguesa em Angola, foi entrevistado sobre o seu percurso internacional e a sua visão estratégica para o fortalecimento das relações económicas entre Portugal e Angola. Ao abordar a sua saída de Portugal, sublinha a ambição de crescimento, a procura de desafios mais exigentes e a vontade de contribuir ativamente para o desenvolvimento de um país em transformação. Destaca ainda a credibilidade associada aos gestores portugueses, a importância da escuta ativa e a valorização do talento angolano como pilares para a construção de equipas sólidas e sustentáveis. Na entrevista, defende que Portugal deve reforçar a visão de longo prazo, investir nas pessoas e na mobilidade internacional e apostar em parcerias duradouras assentes numa cooperação equilibrada entre os dois países.

1 – O que o levou a sair de Portugal? 

Saí de Portugal por ambição de crescimento profissional e pela vontade de abraçar um desafio internacional que me permitisse evoluir como gestor e como pessoa. Vim para Angola para assumir a Direção Comercial da empresa, permitindo-me atuar num mercado em franco crescimento, com necessidades reais e espaço para fazer a diferença. Quis sair da zona de conforto, testar a minha liderança num contexto mais exigente e contribuir para o desenvolvimento de um país em transformação, aplicando a experiência e o rigor adquiridos em Portugal num ambiente de grande dinamismo e potencial. 

2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português? 

Ser português tem sido sobretudo uma vantagem. Existe um capital de confiança associado à nossa forma de trabalhar: competência técnica, pragmatismo, ética e facilidade em criar pontes. A língua comum e a proximidade cultural aceleram a compreensão, reduzem ambiguidades e ligam pessoas. Existem, contudo, perceções iniciais que devem ser geridas: a ideia de que o gestor vem impor modelos importados. Tento combater isso com escuta ativa, adaptação às realidades locais e liderança inclusiva. Utilizo referências portuguesas de rigor, mas aplico-as com humildade e flexibilidade, envolvendo talento local e fomentando equipas mistas que aprendem juntas e crescem com objetivos partilhados e métricas claras. 

3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez? 

No meu caso, diria que foi a adaptação a um contexto económico volátil, liderar equipas multiculturais e manter o rumo num ambiente em constante mudança. Aprendi que, em mercados exigentes, é fundamental antecipar, planear e comunicar de forma clara, constantemente. O sucesso passou por criar confiança, investir na formação contínua e valorizar o mérito de cada colaborador. Foi (e continua a ser) essencial conciliar rigor com flexibilidade, definir prioridades com realismo e tomar decisões difíceis com sentido de responsabilidade. Mais do que superar obstáculos, aprende-se a transformar cada dificuldade em oportunidade e cada crise numa necessidade humana de esforço conjunto e superação, onde se distinguem líderes, de pessoas comuns. Acredito no princípio do equilíbrio, em que cada obstáculo ou adversidade traz consigo uma oportunidade de crescimento e de afirmação. 

4 – O que mais admira no país em que está? 

Admiro a resiliência e o sentido de futuro do povo angolano. Há uma energia empreendedora que nasce da necessidade mais básica de sobrevivência e se transforma em oportunidade. Quando se criam estrutura, confiança e objetivos alcançáveis, o progresso é certo, ainda que nem sempre rápido. A juventude possui talento em bruto e uma curiosidade genuína, respondendo com vontade quando lhe são dadas ferramentas e autonomia. Admiro também a escala e o potencial logístico e agrícola do país, que exigem infraestruturas duráveis e gestão profissional. Liderar aqui é um exercício diário de aprendizagem, ouvir antes de decidir, calibrar expectativas, manter a ambição e monitorizar o cumprimento de prazos. 

5 – O que mais admira na empresa/ organização em que está? 

Na Tecnovia Angola admiro a capacidade de atravessar ciclos mantendo padrões. Ao longo de mais de três décadas, a empresa entregou obras de referência, preservando valores fundadores: segurança primeiro, qualidade sempre e uma relação de confiança e transparência com clientes, parceiros e comunidades. O que nos distingue é a cultura de compromisso e a cadeia de valor integrada, que nos permite controlar custos, prazos e qualidade. Documentamos lições aprendidas, melhoramos processos e mantemos a agilidade no terreno. Orgulha-me liderar equipas que transformam desafios em soluções e deixam legado útil ao país. 

6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores? 

Portugal possui talento, capacidade técnica e uma reputação sólida que lhe permite competir em qualquer mercado. Falta, por vezes, transformar essa competência em visão de longo prazo e em presença internacional consistente. É essencial pensar a dez anos, apostar em inovação e criar parcerias sólidas que resistam aos ciclos económicos. A coragem para sair da zona de conforto e a capacidade de alinhar a tecnologia com a operação fazem a diferença. Investir nas pessoas, reforçar a ligação entre empresas e valorizar a mobilidade internacional são passos determinantes para crescer de forma sustentável. O mundo valoriza quem entrega com consistência e Portugal tem tudo para o fazer, desde que acredite na sua própria escala. 

7 – Em que setores do país onde vive poderão as empresas portuguesas encontrar clientes? 

Angola continua a ser um país de grandes oportunidades, onde praticamente todos os setores necessitam de desenvolvimento e modernização. As empresas portuguesas podem encontrar clientes em áreas muito diversas, da construção e energia à logística, indústria, agricultura, ambiente, tecnologia e serviços. O país possui necessidades estruturais e procura parceiros que tragam conhecimento, rigor, credibilidade e soluções sustentáveis. Existe espaço para empresas que invistam com visão de longo prazo, criem valor local e contribuam para o crescimento económico e social. Em Angola, mais do que escolher um setor, o essencial é escolher uma atitude de compromisso, qualidade e presença consistente. O verdadeiro sucesso acontece quando as empresas portuguesas estabelecem parcerias locais sólidas, partilham conhecimento e investem na formação de quadros angolanos. É dessa cooperação e transferência de competências que resulta um desenvolvimento sustentável e duradouro, capaz de beneficiar ambas as economias. 

8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde está querer investir? 

Portugal é hoje uma plataforma estável, segura e atrativa para o investimento de empresas angolanas. A solidez institucional, a qualificação do talento e a proximidade cultural criam um ambiente de confiança que facilita a cooperação e a diversificação de negócios. As oportunidades são amplas, da agroindústria às energias renováveis, do turismo à tecnologia, pelo que Portugal oferece condições únicas para desenvolver projetos sustentáveis e inovadores. Cada vez mais, investidores angolanos veem o país como um parceiro estratégico, um ponto de entrada para a Europa e um espaço de partilha de conhecimento e de criação de valor conjunto. Acredito que o futuro desta relação passa pela reciprocidade. Portugal e Angola devem continuar a reforçar pontes económicas, apostando em parcerias que beneficiem ambos os países e que transformem afinidades históricas em crescimento real e duradouro. 

9 – Qual a vantagem competitiva do país em que está que poderia ser replicada em Portugal? 

A vantagem competitiva que mais valorizo em Angola é a agilidade para decidir e executar. Quando se junta alinhamento com sentido de urgência, as equipas mobilizam-se com foco, determinação e pragmatismo. Existe uma resiliência notável e uma capacidade de improviso construtivo que permite encontrar soluções mesmo perante limitações de recursos. Essa atitude de superação e de foco no resultado poderia inspirar Portugal a simplificar processos e a acelerar decisões, promovendo maior responsabilização e eficiência. Integrar esta energia em modelos de governança estáveis e tecnicamente sólidos seria uma forma de unir o melhor dos dois mundos: a força e criatividade africana com a organização europeia. 

10 – Pensa voltar para Portugal? Porquê? 

Portugal é a origem do meu percurso, mas Angola representa hoje o centro da minha atividade e do meu compromisso profissional. O trabalho que desenvolvi aqui permite-me contribuir diariamente para o crescimento de projetos com impacto real e para a consolidação de equipas altamente qualificadas. Mais do que pensar num regresso, acredito numa presença complementar e ativa em ambos os países. Portugal e Angola são economias interligadas e com enorme potencial conjunto. O desafio está em criar pontes, partilhar conhecimento e gerar valor mútuo. O meu objetivo é continuar a fortalecer essa ligação com foco, coerência e resultados sustentáveis.