No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Luis Diogo, Diretor-Geral da Fabrimetal em Viana, Angola, e Conselheiro do Núcleo Regional da África, partilha o seu percurso internacional e experiência em gestão, iniciado com a decisão de sair de Portugal para integrar projetos de grande impacto em África. Na entrevista, destaca a importância da internacionalização da carreira, da resiliência, da adaptação a contextos diversos e do investimento no desenvolvimento local. Salienta ainda o valor de ecossistemas empresariais que combinam talento, inovação e sustentabilidade, bem como a relevância da diáspora na criação de pontes entre países. Sobre Portugal, recomenda uma abordagem mais proativa em África, a promoção de investimento local de longo prazo e a valorização da produção interna, defendendo a criação de condições que estimulem o empreendedorismo, a competitividade e a cooperação internacional.
1 – O que o levou a sair de Portugal?
Acima de tudo, foi o desejo de internacionalizar a minha carreira profissional. Após ter concluído a minha formação académica e somando já 13 anos de experiência em diferentes contextos empresariais, surgiu em 2007 a oportunidade de integrar um projeto em Angola. Aceitei o desafio, ainda que o meu desejo inicial fosse seguir para Moçambique — país onde nasci e com o qual mantenho laços familiares e afetivos. Acredito que, em determinados momentos da vida, é fundamental sair da zona de conforto, abraçar novos contextos e ampliar horizontes. Foi isso que fiz: procurei um desafio que me permitisse crescer profissional e pessoalmente, num continente com enorme potencial e em franco desenvolvimento.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?
Desvantagens, sinceramente, nenhumas. A nível de vantagens, a partilha da língua e a proximidade cultural entre Portugal e Angola foram, sem dúvida, fatores que facilitaram significativamente o processo de adaptação. Contudo, considero que estes elementos, se não forem bem aproveitados, podem tornar-se armadilhas, criando uma falsa sensação de conforto. Acredito que ser português, num país de expressão portuguesa, implica também responsabilidade. Somos, de certa forma, representantes do nosso país e da nossa cultura. Infelizmente, a comunidade portuguesa nem sempre comunica ou coopera tanto quanto poderia. Julgo que a diáspora deve assumir um papel mais ativo: apoiar novos compatriotas que chegam, partilhar experiências e ser ponte entre países. Afinal, somos verdadeiros “embaixadores” de Portugal no mundo.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
O principal obstáculo foi, sem dúvida, a adaptação a uma realidade muito diferente da europeia, em praticamente todos os aspetos. As infraestruturas eram limitadas, havia escassez de mão de obra qualificada e os processos eram, muitas vezes, burocráticos e lentos. Para superar estes desafios, foi essencial cultivar resiliência, humildade e capacidade de escuta. Percebi desde cedo que o sucesso passava por compreender o contexto local e respeitar a sua dinâmica própria. Procurei, portanto, transformar cada dificuldade em oportunidade — criar soluções à medida, valorizar as pessoas e investir na formação local. Este processo ensinou-me que, mais do que impor modelos, é preciso adaptar e cocriar.
4 – O que mais admira no país em que está?
Admiro profundamente a força e a resiliência do povo angolano. Apesar das dificuldades do dia a dia, há sempre espaço para um sorriso, uma palavra de acolhimento e uma enorme vontade de seguir em frente, mesmo perante as adversidades. O que mais me realiza é perceber que o meu trabalho tem um impacto real: cada projeto que desenvolvemos contribui, ainda que modestamente, para melhorar as condições de vida de muitas pessoas. Essa consciência dá sentido ao que faço e reforça o propósito de estar aqui.
5 – O que mais admira na empresa/organização em que está?
Admiro sobretudo a capacidade da empresa em potenciar o talento e os recursos locais. Trabalhamos com matéria-prima e mão de obra nacional, e isso cria valor não apenas económico, mas também social. Na Fabrimetal, onde exerço funções de Diretor-Geral, acreditamos no poder das pessoas e na economia circular. Apostamos na transformação interna, na inovação e na sustentabilidade — pilares que nos permitem gerar impacto nas comunidades em que operamos. É gratificante ver como uma empresa pode ser simultaneamente rentável e responsável, contribuindo de forma ativa para o desenvolvimento do país.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Recomendo que apostem de forma mais consistente em África, especialmente na África lusófona. Este é um continente com imenso potencial, vastos recursos e um mercado jovem em crescimento acelerado. Os empresários portugueses têm uma vantagem comparativa importante: compreendem o contexto cultural, falam a língua e possuem a flexibilidade necessária para lidar com desafios complexos. A diplomacia económica de Portugal — incluindo aqui o papel da diáspora — precisa de ser mais proativa. É urgente desmistificar preconceitos ainda existentes sobre África. Seria importante promover mais fóruns, feiras e encontros de negócios que permitam a partilha de experiências, o fortalecimento de redes de contacto e a criação de parcerias sustentáveis. Quem já cá está deve ser convidado a partilhar o seu percurso, pois o exemplo concreto é o melhor incentivo.
7 – Em que setores do país onde vive poderão as empresas portuguesas encontrar clientes?
Praticamente em todos os setores. Desde o agronegócio à indústria transformadora, da construção à energia, as oportunidades são vastas. Contudo, é fundamental que a abordagem seja de longo prazo. O investimento deve ir para além da exportação de produtos — é necessário criar presença local, formar equipas, produzir e transformar no próprio país. Só assim se criam relações duradouras, se gera valor real e se reforça a influência económica e cultural portuguesa.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde está querer investir?
Creio que o setor imobiliário é, atualmente, o mais apelativo. Portugal tem vindo a afirmar-se como destino seguro e atrativo para investimento, oferecendo estabilidade, qualidade de vida e enquadramento legal sólido. Há um interesse crescente por parte de empresários africanos, sobretudo da lusofonia, em investir em Portugal — tanto em imóveis como em negócios ligados ao turismo, educação e tecnologia.
9 – Qual a vantagem competitiva do país em que está que poderia ser replicada em Portugal?
A maior vantagem competitiva que observo é a valorização da produção local. Angola tem procurado reduzir a dependência das importações e fomentar a industrialização interna. Esta estratégia, para além de criar emprego, gera autonomia e resiliência económica. Portugal, tal como outros países europeus, deslocalizou muitas indústrias para a Ásia, e hoje percebe-se que essa dependência tem custos elevados. É essencial voltar a produzir mais localmente, acrescentar valor e diversificar a economia. Além disso, podemos tirar partido do capital humano dos países lusófonos, promovendo o intercâmbio de competências e combatendo, simultaneamente, a escassez de mão de obra em alguns setores.
10 – Pensa voltar para Portugal? Porquê?
Nos próximos quatro a cinco anos, gostaria de passar mais tempo em Portugal — idealmente entre 10 a 15 dias por mês — sem, no entanto, perder a ligação a Angola e Moçambique. Estes países fazem parte do meu percurso e da minha identidade. Sinto, porém, uma vontade crescente de contribuir mais diretamente para Portugal, partilhando a experiência que adquiri no exterior. Acredito que posso ajudar a fortalecer as pontes entre os dois continentes e inspirar outros profissionais e empresários a olharem para África com um olhar mais realista e confiante.