
No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Francisco Miguel Sousa, Diretor Geral da Talabat Catar (Delivery Hero Group) e Conselheiro da Diáspora no Catar, partilha um percurso marcado pela ambição de crescer em mercados competitivos e multiculturais, iniciado com a decisão de sair de Portugal para acelerar o seu desenvolvimento profissional. Na entrevista, destaca a importância da internacionalização, da capacidade de adaptação e da liderança empática em equipas diversas, sublinhando que os portugueses possuem uma forte competência para criar pontes e gerar confiança, embora devam afirmar o seu valor com maior convicção. Admira no Catar a clareza estratégica da Qatar National Vision 2030, a rapidez na execução e a articulação eficaz entre setor público e privado. Defende que Portugal deve adotar uma postura mais ambiciosa e confiante na internacionalização, apostar em presença global para além dos mercados tradicionais e reforçar a cooperação entre Estado, empresas e academia, promovendo competitividade, investimento e projeção internacional sustentada.
1- O que o levou a sair de Portugal?
A curiosidade e a vontade de crescer em contextos diferentes – mais competitivos e multiculturais onde pudesse acelerar o meu crescimento profissional. Acredito que sair de Portugal foi uma forma de ampliar horizontes e testar o meu impacto em mercados diferentes. Sempre acreditei que o crescimento acontece quando nos colocamos em terrenos desconhecidos.
2- Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?
A vantagem de ser português está profundamente ligada à nossa herança cultural e histórica, marcada pela curiosidade, pela capacidade de adaptação e pelo espírito de tolerância.
Crescemos habituados a pensar em grande, mesmo sendo um país pequeno, e isso molda a nossa mentalidade global. Os portugueses têm uma habilidade natural para negociar, criar empatia e construir pontes em qualquer parte do mundo. A nossa forma de ser, discreta, trabalhadora e respeitosa, gera confiança e abre portas em contextos culturais muito diferentes.
Por outro lado, essa mesma humildade, que é uma virtude, é também uma forte desvantagem quando se traduz em falta de autoconfiança na forma como comunicamos o nosso valor.
Muitas vezes temos o talento, a experiência e os resultados, mas não os afirmamos com a convicção que merecemos.
Portugal tem tudo para se posicionar globalmente com mais força. Precisamos apenas de acreditar mais em nós e comunicar a nossa identidade com mais orgulho e ambição.
3- Que obstáculos teve de superar e como o fez?
Liderar equipas multiculturais em contextos de alta pressão exigiu aprender rapidamente a equilibrar diferentes estilos de comunicação, valores e formas de trabalhar. Cada cultura tem o seu ritmo, a sua forma de tomar decisões e de reagir ao erro. Compreender isso foi essencial para construir confiança e alinhar objetivos. Aprendi que liderança é, antes de tudo, empatia e capacidade de adaptação. Superei os desafios com atenção genuína às pessoas, foco no propósito comum e uma mentalidade de aprendizagem contínua, que me permite crescer com cada experiência e equipa.
4- O que mais admira no país em que está?
Admiro imensos aspetos no Catar. O país tem uma visão clara: Qatar National Vision 2030. Todos os ministérios, empresas públicas e privadas sabem exatamente como contribuir para esse objetivo. Valoriza profundamente a herança, a cultura e os costumes, ao mesmo tempo que aposta na inovação digital e na diversificação económica. Tudo com uma ambição de crescer rápido, com foco, disciplina e uma visão de longo prazo que atrai talento global.
5- O que mais admira na empresa / organização em que está?
A talabat é a empresa líder de e-commerce na região do Médio Oriente e África. Temos dark stores, cloud kitchens e, em média, entregamos tudo em 30 minutos. Uma espécie de Glovo, mas no Catar. Tenho assistido a todo o crescimento da talabat. Desde o momento em que éramos uma equipa de 5 pessoas ao IPO em Dubai, em que foi cotada com uma capitalização estimada em cerca de 10 Mil Milhões de Dólares –10 Bilhões americanos. É uma empresa que aprende rápido, adapta-se ainda mais depressa e nunca perde o lado humano nas decisões. Essa combinação de agilidade e empatia é o que realmente diferencia a nossa forma de liderar e servir.
6- Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Portugal deve apostar mais fortemente na internacionalização fora da CPLP e fazê-lo com rapidez, escala e confiança. O mundo é hoje um mercado global e competitivo, e as empresas portuguesas têm talento, tecnologia e capacidade de execução para se afirmarem muito além dos mercados tradicionais. Precisamos de pensar maior, investir em presença internacional e aprender a comunicar o nosso valor com mais assertividade. Portugal tem energia, criatividade e visão, mas falta-nos, por vezes, a ambição de acreditar que podemos competir de igual para igual com qualquer país, desde que alinhemos propósito, capital e confiança. A internacionalização não deve ser vista como risco, mas como oportunidade natural para crescer e projetar o país no mundo.
7- Em que setores do Catar poderão as empresas portuguesas encontrar clientes?
No Catar há oportunidades concretas em tecnologia alimentar, com foco em inovação, sustentabilidade e segurança alimentar. Áreas em que Portugal tem conhecimento e soluções competitivas. A construção sustentável continua a ser um setor prioritário, sobretudo com os grandes projetos urbanos e de infraestrutura ligados à Qatar National Vision 2030.
A hospitalidade e o turismo de luxo estão em forte expansão, com procura por design, arquitetura e gestão com identidade europeia. Na educação e nos serviços digitais existe espaço para parcerias académicas e tecnológicas, num país que aposta fortemente na diversificação da economia e na formação de talento global. São áreas onde a qualidade, fiabilidade e criatividade portuguesa são altamente valorizadas e reconhecidas.
8- Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde está querer investir?
As oportunidades de investimento do Catar em Portugal são particularmente relevantes na indústria de dessalinização, onde o país procura tecnologia e conhecimento para otimizar o uso da água e garantir segurança hídrica. Uma prioridade estratégica também em Portugal, com projetos de grande escala em curso.
O turismo português continua a ser uma referência global pela qualidade da hospitalidade, sustentabilidade e autenticidade das experiências, atraindo investidores interessados em diversificar portfólios e criar ligações com o turismo do Golfo.
Já na agroindústria, Portugal oferece um campo fértil para cooperação em inovação, sustentabilidade e produção de alimentos premium, setores onde o know-how português é reconhecido e onde o investimento do Catar pode gerar valor mútuo e impacto duradouro.
9- Qual a vantagem competitiva do país onde está que poderia ser replicada em Portugal?
O Catar destaca-se pela agilidade na decisão e pela forma como o setor público e privado atuam de forma integrada. Existe uma clareza de objetivos e uma coordenação institucional que permite que as decisões estratégicas sejam transformadas rapidamente em ação.
Projetos de grande escala, seja em infraestrutura, tecnologia ou educação, avançam com uma velocidade e alinhamento notáveis frutos de uma visão compartilhada e de uma cultura de execução. Portugal poderia beneficiar ao adotar esse modelo de colaboração estruturada, promovendo maior ligação entre governo, empresas e academia, e reduzindo a burocracia que tantas vezes trava o progresso. Falta-nos ainda pensar Portugal e a portugalidade como um projeto coletivo de futuro, com propósito comum, orgulho e pragmatismo. A combinação entre a visão estratégica do Catar e a criatividade e resiliência portuguesa seria, sem dúvida, uma fórmula poderosa para acelerar o desenvolvimento nacional.
10- Pensa voltar para Portugal? Porquê?
Sim, um dia. Portugal e o Algarve são e serão sempre a minha casa, o ponto de partida e de regresso. Quase todos os meus investimentos pessoais estão em Portugal, e mantenho uma ligação constante, quer através de projetos, quer pelo envolvimento na diáspora portuguesa. Por agora, o meu foco está em aproximar os dois mundos: Portugal e o Golfo, promovendo colaboração, investimento e partilha de conhecimento. Acredito que há um enorme potencial em ligar o talento e a inovação portuguesa à ambição e capacidade de execução do Golfo.
Voltar será uma questão de tempo, mas também de propósito: regressar quando puder devolver ao país tudo o que aprendi fora.