No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, António Magalhães, Diretor Geral da Prometeus, reflete sobre o seu percurso internacional e destaca a sua visão estratégica para o reforço da cooperação entre Portugal e Angola.
1- O que o levou a sair de Portugal?
A minha saída de Portugal não foi uma rutura, mas uma progressão natural de um percurso que sempre combinou serviço público, liderança operacional e construção institucional. Depois de mais de 20 anos em funções de chefia e comando, em Portugal e em missões internacionais — sendo as realizadas em Angola as mais desafiantes e enriquecedoras —, percebi que podia contribuir de forma mais direta em contextos onde a necessidade de estruturar organizações, formar equipas e criar processos fosse urgente. Angola surgiu como um desafio real: um país em transformação, com espaço para quem estivesse disposto a trabalhar com rigor, método e sentido de missão. Vim porque senti que podia acrescentar valor e porque acredito na lusofonia como espaço de cooperação prática, onde o conhecimento circula e se transforma em impacto real.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?
Ser português abriu portas, sobretudo pela língua, pela história comum e pela reputação de profissionalismo que Portugal construiu ao longo de décadas. A facilidade de comunicação e a proximidade cultural aceleraram a integração. Mas ser estrangeiro implica responsabilidade acrescida: é preciso provar todos os dias que se está ali para somar, respeitando as dinâmicas locais e contribuindo para soluções sustentáveis. A confiança não se herda — conquista‑se com trabalho, consistência e respeito.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
Os maiores desafios foram estruturais: criar processos onde não existiam, consolidar equipas diversas, implementar padrões elevados de ética e transparência e garantir que a cultura organizacional evoluía ao ritmo das necessidades. Mas houve também desafios muito concretos. Lembro‑me, por exemplo, de chegar a uma unidade operacional onde não existiam procedimentos escritos, turnos definidos ou critérios de avaliação. Era tudo feito “como sempre se fez”. Transformar esse ambiente exigiu escuta ativa, disciplina e muita pedagogia.
Houve igualmente desafios pessoais. Nos primeiros anos, vivia em Talatona e trabalhava no centro de Luanda — cerca de 15 quilómetros que, na prática, significavam 4 a 5 horas de deslocação diária. As conversas de alinhamento com a minha esposa, feitas muitas vezes no carro, tornaram‑se um espaço essencial para partilhar ideias, ajustar rotinas e manter o equilíbrio familiar. Essa experiência ensinou‑me que a liderança começa em casa: com diálogo, resiliência e capacidade de adaptação.
Trabalhar em ambientes em desenvolvimento obriga a uma leitura institucional fina, mas também a uma liderança que forme, capacite e dê exemplo. Sempre acreditei que liderar é criar condições para que outros cresçam. Foi isso que procurei fazer: ouvir, estruturar, capacitar e manter o foco no essencial.
4 – O que mais admira no país onde está?
Angola tem uma energia difícil de explicar a quem nunca a viveu. Admiro a resiliência do seu povo, a capacidade de recomeçar, a criatividade e a força da juventude. É um país com enorme potencial económico e humano, onde a vontade de fazer acontecer supera muitas vezes as limitações materiais. A vida em Angola é intensa: os dias começam cedo, as distâncias são longas, mas existe uma vitalidade contagiante, um sentido de comunidade muito forte e uma capacidade de acolhimento que marca quem chega. Há uma informalidade calorosa nas relações, uma forma direta de comunicar e uma enorme disponibilidade para colaborar. Essa combinação cria um ambiente onde é possível construir, inovar e transformar. É uma inspiração diária.
5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?
O que mais valorizo é a visão estratégica e a capacidade de execução num contexto exigente. A Prometeus, a Prorumus e a Teramed combinam ambição, responsabilidade social e profissionalismo. A Prometeus, sendo uma empresa de serviços de higiene, opera numa área crítica para a saúde pública e para o funcionamento de instituições essenciais. Trabalhar com equipas que asseguram limpeza hospitalar, manutenção industrial ou higiene urbana dá uma noção muito concreta do impacto diário que o nosso trabalho tem na vida das pessoas.
Durante o período da COVID‑19, essa responsabilidade tornou‑se ainda mais evidente. Criámos uma força operacional de cerca de 250 colaboradores dedicada exclusivamente à desinfeção de espaços públicos, hospitais, escolas, aeroportos e infraestruturas críticas. Entre formar, equipar e executar missões diárias, esta equipa tornou‑se uma referência nacional, tendo o trabalho sido publicamente elogiado pela Assembleia Nacional. Foi um momento que reforçou o orgulho interno e demonstrou a importância vital do setor da higiene para a segurança coletiva.
A Prorumus, dedicada à formação profissional, permite transformar competências e abrir oportunidades reais de empregabilidade, algo particularmente relevante num país jovem. Já a Teramed, uma start‑up de referência na área da saúde, representa inovação, tecnologia e futuro. Trabalhar num grupo com mais de 8.000 colaboradores exige maturidade organizacional, clareza de processos e liderança consistente. É um ambiente onde o rigor não é negociável e onde cada decisão tem impacto direto na vida de milhares de pessoas. Essa consciência reforça o sentido de missão.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Portugal tem talento, conhecimento e capacidade de inovação, mas precisa de reforçar a sua presença em mercados emergentes. A diplomacia económica deve ser mais assertiva e a internacionalização mais estratégica. África não pode ser vista apenas como destino de exportação, mas como espaço de parceria, investimento e criação conjunta de valor. É fundamental apostar em relações de longo prazo, onde a confiança, a presença no terreno e a compreensão das realidades locais são tão importantes quanto o produto ou serviço. Portugal tem muito a ganhar com uma abordagem mais ousada e global.
7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?
Angola oferece hoje oportunidades concretas para empresas portuguesas em vários setores com forte procura. A saúde continua a ser uma prioridade nacional, com necessidade de equipamentos, soluções digitais, gestão hospitalar e formação especializada. A educação, sobretudo a formação técnica e profissional, mantém procura consistente. A energia — tradicional e renovável — abre espaço para soluções eficientes e projetos de transição energética. A digitalização da economia cria oportunidades em tecnologias de informação, integração de sistemas e cibersegurança. A logística, a construção, a agricultura e os serviços financeiros completam um quadro de necessidades reais. O mercado angolano valoriza competência técnica, fiabilidade e capacidade de adaptação. Quem investe na presença no terreno e na construção de relações encontra aqui um espaço de crescimento sustentável.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?
Vejo grande potencial em turismo, agroindústria, energias renováveis, imobiliário, educação superior, saúde e indústria alimentar. Portugal oferece estabilidade, segurança jurídica, talento qualificado e acesso ao mercado europeu — fatores que atraem investidores angolanos. A complementaridade entre os dois países é evidente e ainda pouco explorada. Há espaço para investimentos estruturantes que beneficiem ambas as economias.
9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?
Angola tem uma agilidade notável. Quando existe um objetivo comum, as decisões acontecem com rapidez e foco. Essa capacidade de mobilizar pessoas e recursos é uma vantagem competitiva que Portugal poderia observar com atenção. A energia empreendedora angolana, combinada com o rigor português, criaria um modelo altamente eficaz. Há muito a aprender desta capacidade de avançar com determinação.
10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?
Portugal é a minha origem e continuará a ser o meu eixo identitário. Mas, neste momento, sinto que o meu contributo é mais relevante no contexto internacional onde atuo, sobretudo em ambientes que exigem construção institucional, liderança operacional e capacidade de transformar organizações. O regresso poderá acontecer, mas não por inércia ou nostalgia: acontecerá se houver desafios que façam sentido para o país e para o meu percurso, e onde a minha experiência possa gerar impacto real. A minha lógica é de missão, não de geografia. Onde puder servir melhor, é aí que estarei — seja em Portugal, em Angola ou noutro ponto da lusofonia ou do espaço global.