30 de Junho de 2026

Entrevista a Rodrigo Camacho: “Se Portugal quer dar o salto tem de olhar lá para fora” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Rodrigo Camacho, Economista no Governo de Abu Dhabi, partilha um pouco do seu percurso profissional pelos Emirados Árabes Unidos e a sua visão sobre o potencial económico de Portugal.

1- O que o levou a sair de Portugal?

Em primeiro lugar, o enriquecimento pessoal. Tendo vivido, estudado e trabalhado até aos 25 anos quase exclusivamente em Portugal (com uma breve passagem pela Tanzânia em regime de voluntariado), senti que precisava de passar uma temporada no estrangeiro para crescer e expandir os meus horizontes. Isto liga-se à segunda razão – a experiência profissional –, que acabou por me fazer ficar mais tempo fora. Tendo trabalhado numa consultora em Madrid e no Qatar (Bain & Company) que me proporcionou a possibilidade de trabalhar em vários continentes e indústrias, deixei de sentir pressa de voltar. Aliada a uma terceira vertente, que são as condições financeiras que os EAU (Emirados Árabes Unidos) proporcionam, esta tríade foi fazendo com que a minha experiência no estrangeiro se fosse prolongando até aos dias de hoje.

2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?

Na minha experiência pessoal, não senti desvantagens relevantes por ser português. Nunca me senti prejudicado ou discriminado por ser português. Do lado das vantagens, a nível profissional tenho beneficiado da boa impressão deixada por outros portugueses nos vários sítios onde tenho trabalhado. Ao saberem que sou de Portugal, as pessoas assumem que sou uma pessoa muito trabalhadora, criativa e flexível. O que ajuda sempre. A nível pessoal, creio que ser português também ajuda, já que somos tipicamente vistos como pessoas simpáticas e divertidas. E claro, termos o Cristiano Ronaldo como nosso embaixador honorário dá sempre jeito para quebrar o gelo em todas as conversas. Uma das vantagens que sinto ao pertencer a uma comunidade pequena (os portugueses são uma comunidade de alguns milhares nos EAU) é que a nossa nacionalidade abre muitas portas. Particularmente numa vertente mais cívica e até social.

3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?

Creio que o maior obstáculo que vivenciei foi a necessidade de me adaptar a várias culturas diferentes e maneiras distintas de trabalhar, concentradas no mesmo escritório. Mas nada que uma mente aberta, flexibilidade e boa vontade não resolvam. E, claro, aquilo que inicialmente era desafiante, passou rapidamente a ser muito enriquecedor. Costumo dizer que a composição da minha equipa ao nível de nacionalidades se assemelha ao início de uma (longa) anedota: um português, um chinês, um indiano, uma emiradense, um italiano, um uzbeque, um neerlandês, uma brasileira, uma egípcia, um turco, um argentino, um canadiano, e um espanhol entram num escritório… É fantástico poder falar e aprender com pessoas com experiências tão diferentes e muitas vezes opostas no espaço de 200 metros quadrados.

4 – O que mais admira no país onde está?

A sua ambição e a sua resiliência. Por um lado, a ambição de querer ser o melhor país em praticamente tudo, e trabalhar para isso: com metas bem definidas, roteiros estratégicos detalhados, uma execução exímia, e muita prestação de contas e responsabilização. A ambição de querer passar – no espaço de três gerações – de um grupo de vilas viradas para a pastorícia e a pesca, para um dos países mais desenvolvidos do mundo. A principal lição que retiro de trabalhar fora é que a ambição de um país não se mede apenas pelos planos que anuncia, mas também pela disciplina com que os executa. Por outro lado, admiro a resiliência que demonstram na prossecução dos seus objetivos, dadas as várias adversidades com que se têm deparado: conflitos recorrentes na sua vizinhança, seca extrema e alterações climáticas num país já de si difícil do ponto de vista climático, sucessivas crises económicas, ou o facto de estar ensanduichado entre duas potências regionais (Arábia Saudita e Irão). Foi particularmente admirável poder experienciar o comportamento do país durante os episódios de tensão regional que se viveram em 2026. A relativa calma que se sentia nessa altura, a rápida organização de respostas humanitárias e a eficiência das forças armadas, são todos exemplos que me fazem admirar esta nação ainda mais.

5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?

Trabalho para o Ministério das Finanças do Governo de Abu Dhabi. Aquilo que mais admiro é o quão bem organizado o Estado aqui é. Extremamente eficiente, com instalações modernas, recursos de trabalho de última geração (por exemplo, computadores, software, etc.), e ótimas condições remuneratórias. Assemelha-se mais ao que encontrei ao trabalhar nas melhores empresas privadas do mundo do que a um típico setor público. Nos EAU, é um motivo de orgulho para um emiradense trabalhar para o Estado; e entrar não é fácil. É evidente que nem tudo é transponível para a realidade do Estado português, dada a abundância de recursos de Abu Dhabi. Mas parte do que alimenta esta eficiência – por exemplo, uma aversão à burocracia e uma aposta em tecnologia e inteligência artificial – são coisas que o Estado português pode adotar. Um exemplo que combina estas duas facetas é a aplicação TAMM, que centraliza mais de 1000 serviços do Governo numa única aplicação. Licenças, pagamentos, registos, vistos, multas, contas de água, eletricidade, gás, internet. Tudo na mesma aplicação de telemóvel. São várias as pessoas aqui que já não entram numa repartição pública há uns belos anos. Podia também falar do enorme programa de formação em IA para os funcionários e cidadãos de Abu Dhabi, entre outros exemplos.

6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?

Aos empresários e gestores portugueses digo que, em determinados aspetos, devem pôr os olhos neste país. Nomeadamente, na capacidade de atrair capital estrangeiro e talento e de gerar negócio. Portugal deve saber aproveitar as mais-valias que tem – bom clima, boa comida, bom sistema de saúde, segurança, fazer parte de um mercado único com 450 milhões de pessoas, ter uma certeza regulatória superior à de muitos outros países – para conseguir atrair os melhores. E claro, melhorar nas áreas onde estamos a ficar para trás (nomeadamente no custo da habitação e nos salários). Não faltam exemplos de boa gestão de empresas em Portugal; mas, parece-me, que se Portugal quer dar o salto, tem de olhar lá para fora.

7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?

Tudo o que sejam bens de consumo/retalho de gama alta à base de materiais portugueses (cortiça e madeiras, por exemplo) para habitação, hotelaria e retalho. Regra geral, os emiradenses tendem a valorizar tudo o que seja luxuoso e possua um bom storytelling. Parece uma piada, mas a verdade é que a venda de lareiras de luxo nos EAU vai de vento em popa.

8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?

Em muitos, mas aqueles mais óbvios seriam as energias renováveis (a Masdar tem adquirido muitos ativos de energia renovável na Europa), as utilities (a TAQA tem fortes ambições de internacionalização), a gestão portuária (AD Ports está presente em mais de cinquenta países), a agricultura tecnológica (por exemplo, a Pure Harvest), ou o desporto (nomeadamente o futebol, onde se destaca a presença dos EAU no Manchester City).

9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?

Provavelmente, a componente fiscal. Não necessariamente na mesma escala – até porque Portugal tem um modelo de Estado Social diferente –, mas a verdade é que Portugal tem uma carga e complexidade fiscais elevadas. Ao invés, os EAU têm uma carga fiscal baixa, e os impostos são relativamente simples. Por aqui, o IRS ainda não existe e o IVA foi introduzido em 2018 com uma taxa normal de 5%.

10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?

Sem dúvida. Criar família nos EAU é materialmente cómodo, mas emocionalmente complicado. Tanto eu como a minha noiva temos bem presente que queremos ver os nossos filhos nascer e crescer em Portugal, junto das nossas famílias e dos nossos amigos mais antigos. O que não nos impede de pensar em voltar a emigrar numa fase posterior. São decisões que vemos como naturais e não permanentes. Acima de tudo – e correndo o risco de cair num lugar-comum – vemo-nos como pessoas livres. Possuímos um grande carinho por Portugal, que será sempre a nossa casa, mas estamos bem em muitos outros sítios.