27 de Outubro de 2026

Entrevista a Fernando Braz de Oliveira: “Cabo Verde tem um enorme potencial na economia digital” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, esta iniciativa dá a conhecer o percurso internacional de Fernando Braz de Oliveira, destacando a sua experiência profissional em Cabo Verde ao serviço do Grupo ETE e da CV Interilhas, bem como as oportunidades de negócio e o potencial de cooperação económica entre Portugal e Cabo Verde.

1- O que o levou a sair de Portugal?

A minha vida profissional levou-me, desde cedo, além-mar e para lá das fronteiras de Portugal. Como oficial da Marinha de Guerra e, mais tarde, ao longo do meu percurso empresarial ligado ao mar, tive o privilégio de navegar literalmente diferentes geografias, culturas e realidades.

Quando surgiu o convite para abraçar um novo desafio em Cabo Verde, encarei-o como uma evolução natural do meu percurso. Conhecia bem África, a sua diversidade, o seu potencial e a riqueza das suas relações humanas.

O projeto que me foi apresentado, aliado ao facto de se tratar de Cabo Verde, um país com profundas ligações históricas, culturais e afetivas a Portugal, tornou a decisão particularmente fácil.

Hoje, olhando para trás, considero que foi uma das decisões mais acertadas que tomei. Cabo Verde acolheu-nos de forma extraordinária e permitiu-me continuar a crescer profissionalmente, enquanto contribuo através das responsabilidades que desempenho no Grupo ETE e na CV Interilhas, para projetos com impacto real e no apoio ao desenvolvimento económico e social do país

2- Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?

A principal vantagem foi, sem dúvida, a língua portuguesa, que constitui um fator fundamental para criar pontes, aproximar pessoas e eliminar barreiras. O facto de ser português, permitiu-me uma adaptação rápida, uma integração natural e uma ligação genuína à cultura e às vivências locais.

Ao longo da minha vida constatei que ser português no mundo é transportar connosco uma identidade que facilmente encontra pontos de contacto noutros povos e geografias.

3- Que obstáculos teve de superar e como o fez?

O maior obstáculo para quem vive e trabalha fora de Portugal é, sem dúvida, a “saudade”.

Somos por natureza muito agarrados às nossas raízes, somos caseiros e muito próximos da nossa realidade diária de família, casa, trabalho, amigos, desporto e de rotinas difíceis de quebrar.

A minha experiência profissional de oficial da Marinha de Guerra com muitas missões fora de casa, ensinou-me a lidar com esta realidade. Criei para mim os mecanismos, os hábitos as rotinas, e a disciplina, que me mantém rotineiramente ocupado e focado nos objectivos.

Aprendi que a melhor forma de gerir a saudade não é combatê-la, mas integrá-la na nossa vida, impondo uma boa gestão do quotidiano, e de um envolvimento pleno junto da comunidade que me acolhe, conhecendo as pessoas, a cultura e as suas vivências.

Curiosamente, a saudade nunca desaparece. Mas transforma-se numa força tranquila que nos recorda de onde vimos, dando-nos, em simultâneo, energia para continuar a construir pontes entre o lugar que deixámos e o lugar que aprendemos a chamar casa.

4- O que mais admira no país onde está?

Cabo Verde é um país extraordinário, que nos acolhe, nos enriquece e nos conquista pelo coração com a sua “Morabeza” Uma palavra que como “saudade” não tem tradução, tem de ser vivenciada.

Cabo Verde é um país pequeno, com um mar gigante e com homens e mulheres extraordinários, e são precisamente essas pessoas que fazem deste país um lugar tão genuíno e que enriquecem todos aqueles que aqui têm o privilégio de viver e trabalhar.

5- O que mais admira na empresa ou organização onde está?

O Grupo ETE tem a capacidade de combinar uma história de 90 anos de experiência com uma visão voltada para o futuro, e sempre de forma sustentada. É uma organização que alia conhecimento, competência e multidisciplinaridade a uma forte cultura de responsabilidade e criação de valor.

Em Cabo Verde, essa visão materializa-se através de uma aposta clara nas pessoas, no desenvolvimento de talento local e na valorização de competências que contribuem diretamente para o crescimento sustentável do país. Tenho particular orgulho em trabalhar com equipas cabo-verdianas altamente qualificadas e motivadas, cuja dedicação e profissionalismo são determinantes para os resultados alcançados.

A presença do Grupo ETE em Cabo Verde em áreas estratégicas como o transporte marítimo, a logística integrada, a engenharia e os serviços marítimos permitem-nos responder aos desafios do país de forma integrada, colocando a experiência acumulada ao longo de décadas ao serviço do desenvolvimento económico e da conectividade entre as ilhas.

Este é o “terreno da honra” daqueles que serviram no Mar e que agora neste Grupo ligado ao transporte e logística integrada me permitem ser uma mais-valia e um factor diferenciador, na criação de valor, e no apoio ao desenvolvimento sustentável de Cabo Verde.

6- Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?

Não me sinto particularmente à vontade para dar recomendações a Portugal, nem aos empresários e gestores portugueses, muitos dos quais são certamente mais experientes e competentes do que eu em inúmeras áreas.

Partilho um dos pilares norteiam a minha vida profissional: que é inspirado no livro “Uma Carta para Garcia”, uma obra que me acompanha há muitos anos e que me encoraja todos os dias a fazer mais e melhor, com responsabilidade e perseverança. Ensinou-me a procurar soluções em vez de problemas e a não desistir perante as adversidades.

Se há uma convicção que os anos reforçaram em mim, é a de que não existe sucesso sem trabalho e que a sorte dá muito trabalho!

7- Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?

Cabo Verde, é tradicionalmente conhecido como o país da Morabeza, da música de Cesária Évora, e da sua localização estratégica no meio do Atlântico. Mais recentemente, tornou-se também o país dos “Tubarões Azuis” e do fenómeno Vozinha, projetando uma imagem moderna, dinâmica e confiante para o mundo.

Hoje Cabo Verde afirma–se como um gigante no Mundo global, cada vez mais visível. É um país estável, aberto ao investimento, com uma localização geoestratégica privilegiada entre África, a Europa e as Américas, e que se apresenta como uma plataforma de serviços, conhecimento e inovação, atraindo interesses e gerando um sem número de oportunidades para investidores.

O turismo continua a ser um dos principais motores da economia cabo-verdiana, mas as oportunidades vão muito além do turismo. Identifico um enorme potencial nas áreas das comunicações e da economia digital, da observação da Terra e das tecnologias espaciais, da economia azul, da investigação científica aplicada aos oceanos, da agricultura resiliente, da produção de água potável e da sustentabilidade energética, nomeadamente através das energias renováveis.

8- Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?

A modernização de Cabo Verde apresenta elevados índices de digitalização e de competências nas áreas de serviços especializados, que pela sua globalização podem ser exportados para qualquer parte do mundo através de “serviços partilhados”.

Neste contexto, considero que existem importantes oportunidades de parceria entre empresas cabo-verdianas e portuguesas em áreas ligadas à economia azul, nomeadamente na pesca, na transformação e valorização do pescado, na logística marítima, nos serviços portuários, na investigação aplicada aos oceanos e na formação técnica associada às atividades do mar.

Mais do que uma relação entre investidor e mercado, vejo um enorme potencial para a criação de cadeias de valor partilhadas entre Portugal e Cabo Verde.

9- Qual a vantagem competitiva do país em que vive que poderia ser replicada em Portugal?

Viver em Cabo Verde mostrou-me que a proximidade gera confiança e que a confiança é um dos principais motores do desenvolvimento.

Mas há uma característica que admiro particularmente e que favorece um ambiente competitivo global, que é a resiliência dos cabo–verdianos. Num território arquipelágico, com recursos limitados e desafios permanentes associados à insularidade, existe uma extraordinária capacidade de adaptação, inovação e superação. Aqui as limitações não são obstáculos, mas antes incentivos à criatividade e à procura de novas formas de fazer acontecer.

10- Pensa voltar a Portugal? Porquê?

Todo o expatriado tem um bilhete de regresso! Mais cedo ou mais tarde, a saudade acaba por vencer a missão.

No entanto, o meu horizonte redesenha-se todos os dias. A cada pôr do sol faço um balanço do caminho percorrido, e a cada nascer do sol renova-se a vontade de continuar a contribuir, a aprender e a servir.

Nunca dou nada por garantido, e apresento–me a cada novo dia com a mesma energia entusiasmo e determinação do primeiro, sempre disponível para mais um desafio e mais um dia de trabalho.

Por isso, embora saiba que Portugal estará sempre à minha espera, continuo a viver esta experiência com enorme entusiasmo e gratidão. Cabo Verde acolheu-me de forma extraordinária e enquanto sentir que posso continuar a criar valor, a contribuir para o desenvolvimento do país e para o fortalecimento das relações entre Cabo Verde e Portugal, manterei a mesma a motivação que me trouxe até aqui.