No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, esta iniciativa dá a conhecer o percurso internacional de Diogo Aires Coelho, destacando a sua experiência em consultoria estratégica e investimento no setor do desporto no Médio Oriente, bem como as oportunidades de negócio e o potencial de colaboração entre Portugal e os mercados da região.
1. O que o levou a sair de Portugal?
Desde cedo quis construir uma carreira internacional e ter a experiência de viver no estrangeiro. Essa vontade cresceu com os dois intercâmbios que fiz na universidade, primeiro nos Países Baixos e depois em Hong Kong. Sair de Portugal pareceu-me uma oportunidade de trabalhar em contextos e culturas muito diferentes e, ao mesmo tempo, crescer a nível pessoal. Comecei a minha carreira na Bain em Madrid, vivi depois em Santiago do Chile e atualmente estou baseado no Dubai, trabalhando sobretudo na Arábia Saudita.
2. Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?
Ser português trouxe-me sobretudo vantagens. Raramente encontrei ideias preconcebidas; pelo contrário, senti curiosidade e recetividade. A proximidade cultural e linguística com Espanha e a América Latina facilitou a minha adaptação a esses mercados e a aprendizagem do espanhol. Também no setor em que trabalho, o desporto, Portugal construiu uma forte credibilidade internacional, sobretudo no futebol, através de gerações de jogadores, treinadores e outros profissionais.
A principal desvantagem é termos menos massa crítica e redes profissionais menos estruturadas do que países maiores. Noutros mercados, vi como profissionais, empresas e investidores do mesmo país se apoiam, partilham contactos e criam oportunidades em conjunto. Penso que Portugal pode fazer mais nesse sentido, e iniciativas como o Conselho da Diáspora ajudam precisamente a reforçar essas redes.
3. Que obstáculos teve de superar e como o fez?
Um dos maiores desafios foi mudar-me sozinho para o Chile aos 25 anos, sem conhecer ninguém e num país com poucos portugueses. O trabalho deu-me uma primeira rede, e o desporto e outros interesses ajudaram-me a construir uma vida fora do escritório e a integrar-me mais rapidamente.
Profissionalmente, trabalhar em consultoria estratégica em novos mercados exige adaptação cultural. Procurei compreender cada contexto, acompanhar de perto a realidade local e, sobretudo, conhecer pessoas locais e aprender com mentores com mais experiência em cada mercado.
4. O que mais admira no país onde está?
Vivo nos Emirados Árabes Unidos e trabalho sobretudo na Arábia Saudita, dois países que admiro por razões diferentes. Nos Emirados, impressiona-me a qualidade de vida construída em poucas décadas, nomeadamente a segurança, a qualidade dos serviços, a simplicidade administrativa e as condições para criar uma família. Tudo isto faz do país um lugar onde muitas pessoas querem ficar a longo prazo, e não apenas um destino de passagem.
Na Arábia Saudita, admiro a escala e a velocidade da transformação económica e social. É um país historicamente mais fechado que se está a abrir ao mundo e a diversificar a economia, tendo no desporto uma das suas alavancas. O progresso e o otimismo são particularmente visíveis numa população muito jovem. É uma energia que valorizo e que, por vezes, sinto faltar na Europa.
5. O que mais admira na empresa ou organização onde está?
Na BCG, admiro o profissionalismo das pessoas e a capacidade de mobilizar rapidamente conhecimento de diferentes mercados e áreas. É uma organização verdadeiramente internacional, onde é possível aprender com pessoas de todo o mundo. Também valorizo a oportunidade de trabalhar de perto com quem toma decisões estratégicas, tanto no setor privado como no público. No Médio Oriente, em particular, isso permite-nos acompanhar estratégias e projetos de grande escala, num contexto em que a transformação dos países e de vários setores é muito visível, mesmo num curto espaço de tempo.
6. Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Portugal deve ser mais ativo na forma como utiliza a sua rede internacional. Aos empresários que querem entrar em novos mercados, recomendaria conhecer bem o contexto local, construir relações e usar mais a diáspora como ponte. Organizações como o Conselho da Diáspora Portuguesa reúnem profissionais bem posicionados em diferentes geografias e setores e podem ajudar a acelerar esse processo.
Precisamos também de organizar melhor algumas das vantagens que já temos. O desporto é um bom exemplo: Portugal tem forte reputação internacional, sobretudo no futebol, mas o nosso talento e conhecimento continuam bastante fragmentados. Uma rede mais forte entre profissionais, empresas e investidores poderia ajudar-nos a gerar mais valor a partir dessa reputação, em áreas como serviços, tecnologia, eventos, conteúdos, educação e turismo.
7. Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?
Nos Emirados Árabes Unidos e na Arábia Saudita existem oportunidades em áreas onde as empresas portuguesas têm experiência reconhecida, como turismo e hotelaria, arquitetura, engenharia, construção, cultura e entretenimento.
No desporto, a oportunidade é particularmente relevante na Arábia Saudita. O crescimento das competições e a preparação do Mundial de Futebol de 2034 estão a criar procura em áreas como a construção de estádios e instalações de treino, a operação e manutenção de infraestruturas, tecnologia, eventos e outros serviços especializados. A privatização e profissionalização dos clubes abrem também oportunidades nas áreas comercial, operacional, de gestão e desenvolvimento desportivo, onde empresas portuguesas podem aproveitar as competências e a credibilidade que Portugal construiu no futebol.
8. Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?
Portugal pode ser atrativo para investidores dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita pela estabilidade, acesso ao mercado europeu e competitividade de custos. Energias renováveis, turismo, logística, tecnologia, centros de dados e imobiliário parecem-me áreas particularmente relevantes.
No desporto, vejo uma oportunidade clara no futebol. Portugal combina clubes e academias de qualidade, forte capacidade de formação de talento, acesso às competições europeias e valorizações inferiores às das principais ligas. A entrada da Qatar Sports Investments no capital do SC Braga é um exemplo concreto do apetite de investidores do Golfo pelo futebol português. Vejo também oportunidades em projetos que combinem desporto, turismo, retalho e imobiliário, desde estádios e áreas envolventes a projetos residenciais ou hoteleiros associados a golfe, padel ou outras experiências desportivas.
9. Qual a vantagem competitiva do país em que vive que poderia ser replicada em Portugal?
Uma das principais vantagens competitivas dos Emirados Árabes Unidos é a quase obsessão em tornar o país mais atrativo para viver, visitar e investir. Existe uma visão de longo prazo, mas também muita rapidez para identificar problemas, definir soluções e executar. Isso é visível na digitalização dos serviços, na facilidade de investir ou na melhoria constante da mobilidade e do espaço público.
Nem tudo é replicável em Portugal, mas temos condições para ser mais ágeis do que economias maiores. Portugal já fez um enorme caminho na capacidade de atrair quem nos visita; o próximo desafio é ser igualmente competitivo para quem decide onde viver, investir ou criar uma empresa.
10. Pensa voltar a Portugal? Porquê?
Sim. Regressar a Portugal esteve sempre nos planos. O que inicialmente seria uma experiência de três a cinco anos transformou-se numa década, à medida que foram surgindo novas oportunidades. Eu e a minha mulher somos portugueses e, agora com duas filhas pequenas, gostaríamos que elas crescessem e criassem também raízes em Portugal, próximas da família e da nossa cultura.
Ao mesmo tempo, estar baseado em Portugal não é incompatível com uma carreira internacional. Gostaria de trazer comigo a experiência e as relações construídas no exterior, continuando a trabalhar e a desenvolver oportunidades noutros mercados a partir de Portugal.