No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, João Magalhães, Chief Medical Officer na VIVA Health, integrada na Swiss Medical Network, partilha um pouco do seu percurso pessoal e profissional na Suíça, e a sua reflexão sobre o potencial económico de Portugal.
1- O que o levou a sair de Portugal?
O que me levou a sair de Portugal foi o facto de ser português.
Porque ser português é ser do mundo.
Saí de Portugal porque queria conhecer melhor outros sistemas e compreender como diferentes países organizam os cuidados de saúde e as suas instituições. No final de 2018, depois de concluir a especialidade, surgiu a oportunidade de trabalhar como médico de família em Frauenfeld, perto de Zurique. Decidi abraçar o desafio e mudei-me para a Suíça com a minha mulher e as nossas duas filhas, na altura ainda pequenas.
Parti também para ampliar a minha capacidade de contribuir e para aprender a olhar para Portugal de fora: com maior exigência, mas também com uma consciência mais profunda do seu potencial.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?
A maior vantagem é acordar todos os dias e recordar que sou português.
É saber que, com ambição, disciplina e capacidade de reinvenção, podemos estar entre os melhores do mundo.
Existe ainda outra vantagem: a forma de nos relacionarmos uns com os outros. Tendemos a não esquecer que a relação com o outro não é um meio para chegar a um fim. É um fim em si mesmo. Talvez o fim mais fundamental da vida.
Essa forma de estar dá-nos uma capacidade natural para acolher, escutar, criar proximidade e liderar.
Portugal é uma verdadeira reserva de liderança humana.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
Cheguei à Suíça com 33 anos, sem dominar a língua e sem conhecer por dentro o sistema em que iria trabalhar. Para comunicar com colegas e doentes, tive de aprender a dominar alemão suíço, italiano e francês, compreender uma nova cultura e adaptar-me a uma organização dos cuidados de saúde muito diferente da portuguesa.
Nos oito anos seguintes, mudámos de casa mais duas vezes e eu próprio mudei de organização outras duas, assumindo níveis de responsabilidade progressivamente crescentes. Pelo caminho, comprámos uma casa e nasceu o nosso terceiro filho. Cada etapa trouxe novas exigências e obrigou-nos a reconstruir rotinas, relações e referências.
Aprendi, porém, que adaptar-se não significa perder identidade. Significa saber ler o contexto, compreender o que ele exige e evoluir sem deixar de saber quem somos.
Aprendi igualmente que, na liderança em saúde, a competência técnica é indispensável, mas não suficiente. É preciso compreender pessoas, organizações, incentivos e modelos de governação; traduzir conhecimento clínico em decisões estratégicas e transformar essas decisões em resultados concretos.
Ao longo de todo o percurso, procurei manter o foco no essencial: o doente, a pessoa.
4 – O que mais admira no país onde está?
O que mais admiro na Suíça é a capacidade de manter tudo tão impecável: limpo, seguro e organizado.
A qualidade de um país revela-se, muitas vezes, nas pequenas coisas: no espaço público, no respeito pelos horários, no cuidado com o que é comum e na forma como os sistemas funcionam mesmo quando ninguém os está a supervisionar.
Admiro também a forma como a Suíça preserva esta cultura, apesar da sua forte internacionalização. Recebe pessoas, empresas e influências de todo o mundo, sem perder o seu sentido de ordem, responsabilidade e identidade.
Não é um país sem problemas; mas existe uma maturidade institucional para os reconhecer, medir resultados e corrigir o rumo. Essa capacidade de olhar para a realidade sem dramatizar é, para mim, uma das suas maiores forças.
5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?
O que mais admiro na Swiss Medical Network é a combinação entre dimensão e abertura à inovação.
A dimensão cria capacidade. A abertura à inovação determina o que se faz com essa capacidade. Na saúde, inovar não significa apenas introduzir tecnologia. Significa organizar melhor os cuidados, melhorar resultados e aproximar a estratégia da realidade clínica. É nessa interseção entre medicina, gestão e transformação que considero poder acrescentar mais valor.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Portugal deveria olhar com maior profundidade para a experiência do cliente e, no setor público, para a experiência do cidadão.
Não basta saber se o serviço foi prestado. É preciso compreender como foi vivido: o tempo de espera, a clareza da comunicação, a atenção recebida e a confiança gerada.
Na saúde, esta reflexão é urgente. Portugal tem excelentes profissionais e um Serviço Nacional de Saúde essencial, mas enfrenta dificuldades de acesso, tempos de espera excessivos, pressão sobre as urgências e falta de profissionais em áreas críticas.
A resposta exige melhor organização, responsabilização por resultados e coordenação mais eficaz entre os setores público e privado.
7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?
Vejo três áreas com particular potencial na Suíça: saúde e tecnologias médicas, engenharia especializada e serviços digitais de elevado valor acrescentado.
As empresas portuguesas têm competência técnica, flexibilidade e capacidade de adaptação. Mas o mercado suíço conquista-se com prova, continuidade e reputação.
Devem posicionar-se não como alternativas mais económicas, mas como parceiros de elevada qualidade, capazes de compreender o cliente, executar com rigor e permanecer depois da venda.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?
Vejo duas áreas principais: a saúde e as ciências da vida, e a transformação digital.
Na saúde, existe uma complementaridade evidente. A Suíça dispõe de capital, conhecimento científico e empresas de referência mundial nas áreas farmacêutica, do diagnóstico e da tecnologia médica. Portugal oferece profissionais qualificados, instituições clínicas reconhecidas e condições para desenvolver investigação e novos modelos de cuidados.
Na transformação digital, incluindo inteligência artificial, dados e cibersegurança, Portugal dispõe de talento e boas infraestruturas. O desafio está em acelerar a sua aplicação prática.
O investimento suíço pode acrescentar valor não apenas através do capital, mas também do conhecimento, das redes internacionais e da capacidade de escala.
Portugal deve afirmar-se como um lugar onde a precisão suíça encontra talento, capacidade científica e abertura para inovar.
9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?
Uma das grandes vantagens da Suíça é a descentralização acompanhada de responsabilidade.
Os cantões dispõem de autonomia significativa, mas também de responsabilização. Muitas decisões são tomadas perto das comunidades e por quem conhece melhor a realidade local.
Portugal poderia beneficiar de uma maior descentralização política, administrativa e financeira, atribuindo às regiões mais capacidade de decisão e responsabilidade pelos resultados.
Na saúde, isso permitiria adaptar as respostas às populações servidas, sem perder objetivos nacionais de qualidade, acesso e equidade.
Outro elemento essencial é a robustez das instituições. As reformas estruturais não podem recomeçar a cada ciclo político. Um país competitivo define prioridades, mede resultados e mantém o rumo.
10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?
Na verdade, nunca senti que tivesse saído de Portugal.
Portugal nunca foi, para mim, apenas um lugar geográfico. Foi sempre uma forma de estar.
Nasci em Inglaterra e vivi lá os primeiros dez anos, mas os meus pais eram portugueses e falávamos sempre português em casa.
Quando íamos a Portugal, estava frequentemente rodeado pelos meus avós e dezenas de tios e primos. Fui crescendo num universo português, no qual senti que a relação com o outro não era apenas um meio para alcançar um fim. Era um fim em si mesmo.
Voltaria a Portugal por um projeto profissional com ambição, impacto e capacidade de transformação.
Portugal precisa de preservar o melhor do seu sistema de saúde – a universalidade e a competência dos profissionais – mas também de enfrentar com coragem os problemas e a dificuldade em transformar estratégia em execução.
Não voltaria apenas para ocupar uma função. Voltaria para assumir uma responsabilidade relevante e ajudar a construir algo que permanecesse no futuro.