No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Artur Rebelo, Cirurgião em Advanced Clinician Scientist no Universitätsklinikum Halle (Saale), afiliado à Universidade Martin Luther de Halle-Wittenberg, partilhou um pouco do seu percurso internacional e a sua visão sobre o potencial económico de Portugal.
1- O que o levou a sair de Portugal?
A decisão de saída surgiu do desejo de aprofundar a formação em cirurgia oncologica e vascular, áreas que, na altura, ofereciam um percurso de formação mais estruturado no sistema académico alemão. A Alemanha disponibiliza programas de residência rigorosos, com elevado volume cirúrgico e forte ligação entre clínica e investigação, o que me permitiu desenvolver simultaneamente a prática cirúrgica e um percurso científico. Foi também uma forma de testar a capacidade de adaptação a um sistema diferente, a uma língua nova e a uma cultura de trabalho exigente, mantendo sempre uma ligação próxima a Portugal e à comunidade da diáspora portuguesa.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?
Ser português tem sido, sobretudo, uma vantagem. A formação médica de base em Portugal é sólida e bem reconhecida na Europa, o que facilitou a integração no sistema alemão. A capacidade de comunicação, a proximidade no relacionamento com doentes e colegas, e a flexibilidade para trabalhar em equipas multiculturais são características muito valorizadas na Alemanha. Falar várias línguas, incluindo alemão, inglês e português, abriu portas a colaborações internacionais, nomeadamente com redes como a IHPBA, a E-AHPBA e a ESSO. A principal desvantagem inicial foi a barreira linguística e o processo de reconhecimento de títulos, que exige tempo, paciência e bastante burocracia, mas que, uma vez superado, deixa de ser um obstáculo relevante.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
O maior obstáculo foi, sem dúvida, a língua alemã, essencial não só para comunicar com doentes, mas também para integrar equipas cirúrgicas e participar em comissões académicas. Estudei alemão de forma intensiva nos primeiros anos e procurei imergir-me no ambiente clínico o mais possível. Outro desafio foi o reconhecimento e validação das qualificações médicas portuguesas, um processo administrativo longo. Mais tarde, conciliar a atividade cirúrgica assistencial com a investigação clínica e atividade académica exigiu uma gestão de tempo rigorosa e bastante disciplina. Superei estes obstáculos com persistência, apoio de mentores na Alemanha e em Portugal, e mantendo sempre objetivos claros a médio e longo prazo, tanto na vertente clínica como na científica.
4 – O que mais admira no país onde está?
Admiro, antes de mais, a organização e a meritocracia do sistema de saúde e académico alemão, que valorizam a formação contínua, a investigação e a qualidade assistencial. A cultura de planeamento, o investimento em infraestruturas hospitalares e a estabilidade institucional permitem desenvolver projetos de longo prazo, como ensaios clínicos multicêntricos. Admiro também a abertura à colaboração internacional nas universidades alemãs e o respeito pelo equilíbrio entre vida profissional e pessoal, apesar das exigências da cirurgia. Valorizo ainda a forma como a sociedade alemã investe na formação técnica e científica das novas gerações, criando uma base sólida para a inovação.
5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?
No Universitätsklinikum Halle (Saale), ligado à Universidade Martin Luther de Halle-Wittenberg, admiro a forte cultura de cirurgia oncológica complexa, nomeadamente em cirurgia hepatobiliopancreática e oncovascular, associada a um ambiente académico muito ativo. Existe um investimento claro na formação de jovens cirurgiões e cientistas clínicos, com programas estruturados como o de Advanced Clinician Scientist, que permitem combinar prática cirúrgica de alta diferenciação com investigação translacional. A liderança do departamento, sob a direção do Prof. Dr. Jörg Kleeff, incentiva ativamente projetos internacionais, ensaios clínicos e colaborações multicêntricas, criando um ambiente estimulante para quem quer crescer cientificamente sem abandonar a componente cirúrgica.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Recomendaria um maior investimento em programas estruturados de formação avançada e investigação clínica dentro dos hospitais, à semelhança dos modelos de clinician scientist existentes na Alemanha, que retêm talento e geram inovação. Para empresários e gestores, sublinharia a importância de olhar para a Alemanha não apenas como mercado de exportação, mas como parceiro para investigação e desenvolvimento, sobretudo em áreas como dispositivos médicos, biotecnologia e saúde digital. A internacionalização precisa de continuidade e de redes de confiança; o trabalho de comunidades da diáspora, como o Conselho da Diáspora Portuguesa, pode ser uma ponte valiosa para identificar oportunidades concretas e facilitar contactos institucionais e empresariais. A criação de parcerias estratégicas de longo prazo, e não apenas pontuais, é fundamental para resultados sustentáveis.
7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?
A Alemanha tem uma procura crescente em setores onde Portugal já demonstra competência, como tecnologias de saúde, dispositivos médicos, software de gestão hospitalar e soluções de saúde digital. Há também oportunidades em construção sustentável, energias renováveis e componentes para a indústria automóvel, onde fornecedores portugueses já têm presença. No setor agroalimentar, produtos portugueses de qualidade, continuam a ter um nicho de consumidores alemães interessados em produtos mediterrânicos autênticos. Por fim, o turismo médico e de bem-estar pode também encontrar clientes alemães interessados em serviços de qualidade a preços competitivos.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?
Empresas alemãs poderiam encontrar em Portugal oportunidades interessantes em energias renováveis, sobretudo solar e hidrogénio verde, dada a localização geográfica privilegiada. O setor da saúde privada e das infraestruturas hospitalares também têm potencial, assim como a digitalização de serviços públicos e de saúde. A indústria automóvel e de componentes, já com presença alemã relevante em Portugal, pode continuar a expandir-se. Por fim, Portugal oferece condições atrativas para centros de investigação e desenvolvimento e para serviços partilhados internacionais, beneficiando de mão de obra qualificada, custos competitivos e qualidade de vida elevada.
9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?
Uma das maiores vantagens competitivas da Alemanha é a integração estreita entre universidades, hospitais e indústria, que permite transformar investigação clínica em inovação aplicada de forma relativamente rápida. Os programas de financiamento para investigação translacional, geridos por fundações públicas e privadas, criam um ecossistema onde médicos podem desenvolver carreiras científicas sem deixar a prática clínica. Replicar este modelo em Portugal, com maior investimento em programas de clinician scientist, parcerias público-privadas estruturadas e financiamento competitivo para investigação clínica, poderia ajudar a reter talento médico e científico e a aumentar a capacidade de inovação no setor da saúde.
10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?
Mantenho uma ligação muito próxima a Portugal, tanto a nível profissional, através de colaborações científicas e do trabalho com o Conselho da Diáspora Portuguesa, como a nível pessoal e familiar. No entanto, a curto e médio prazo, o meu projeto profissional está consolidado na Alemanha, onde tenho em curso projetos clínicos e científicos de grande dimensão. Não excluo, no futuro, formas de colaboração mais estreita com instituições portuguesas, seja através de projetos de investigação conjuntos, ensino ou consultoria, contribuindo para o desenvolvimento da cirurgia académica em Portugal sem implicar necessariamente um regresso definitivo a curto prazo.