14 de Julho de 2026

Entrevista a Luís Miranda: “Eficiência do sistema judiciário é absolutamente crítica” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Luís Miranda, Responsável pelo Escritório de Representação da Miranda & Associados, em Houston, reflete sobre o seu percurso profissional e a sua visão sobre o potencial económico de Portugal.

1- O que o levou a sair de Portugal?

A minha primeira saída de Portugal ocorreu com apenas dezoito anos de idade. Após ter concluído o ensino secundário no Liceu Francês Charles Lepierre em Lisboa, decidi mudar-me para França, de modo a prosseguir a minha formação na Faculdade de Direito da Universidade de Toulouse. Pese embora não tivesse, na altura, uma ideia exata sobre a área na qual me iria especializar, existia uma oferta bastante mais abrangente de mestrados com uma vertente internacional do que em Portugal. Esse fator foi absolutamente determinante na minha tomada de decisão e veio a revelar-se, uns anos mais tarde, muito importante para o meu percurso profissional.

Após algumas experiências no estrangeiro (em Timor-Leste, Macau e França), tive oportunidade de começar a trabalhar no setor energético. Comecei muito rapidamente a manifestar um enorme interesse pelo mesmo, e o facto de ter passado largos períodos no Gabão e nos Camarões a trabalhar de perto com empresas do setor petrolífero fez com que, em 2015, decidisse vir para os Estados Unidos, de modo a tirar um LL.M. em Direito da Energia, Ambiente e Recursos Naturais na Faculdade de Direito da Universidade de Houston. Esta formação permitiu-me alavancar de forma bastante significativa os conhecimentos neste setor. Ademais, sendo Houston considerada a capital mundial da energia, existe um contacto muito próximo com o centro de decisões da indústria que faz com que seja uma cidade apaixonante para quem trabalha nesta área.

2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?

Confesso nunca ter sentido qualquer desvantagem pelo facto de ser português. Antes pelo contrário. Em regra geral, os portugueses possuem um conjunto de características que lhes permite serem bem-sucedidos, independentemente do país no qual se encontrem. Destaco, entre outras, uma forte capacidade de adaptação a outras culturas, assim como o facto de sermos capazes de estabelecer relações de confiança com alguma facilidade. Esses traços foram absolutamente fundamentais para criar laços com os meus interlocutores nos Estados Unidos.

Por outro lado, na medida em que trabalhamos de perto com mercados lusófonos (e não só) em África, o facto de ser português surge como uma verdadeira vantagem competitiva. Existe, por razões históricas, uma proximidade cultural com estas jurisdições, e que é vista como sendo muito relevante pelos nossos clientes. A capacidade de entender e navegar as diferenças culturais permite que sejamos uma autêntica mais-valia para os nossos parceiros.

3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?

O maior obstáculo de que me recordo, foram os primeiros meses em França. Na altura, sair da zona de conforto em Lisboa, com apenas dezoito anos, para outro país, longe da família e dos amigos, foi um processo duro. No entanto, esse período permitiu-me igualmente desenvolver uma certa resiliência, que me veio a ser extremamente útil nos anos que se seguiram.

4 – O que mais admira no país onde está?

A meritocracia e o empreendedorismo nos Estados Unidos sempre mereceram a minha admiração. Pese embora quem não viva no país possa ter uma perceção algo diferente, a verdade é que uma das suas imagens de marca é que não há impossíveis. Tive oportunidade, ao longo dos anos, de ouvir várias dezenas de histórias de sucesso em diversos setores que, se tivessem ocorrido em outra parte do mundo, provavelmente não teriam tido o mesmo desfecho. Inclusive, esse forte ambiente de inovação, negócios e oportunidades profissionais continua a ser um catalisador capaz de atrair talento de todo o mundo.

Destacaria igualmente o respeito que existe pelo tempo das pessoas. Quando dei início à minha atividade profissional em Houston, recebi sistematicamente um pedido de desculpas por parte dos meus interlocutores quando chegavam apenas um par de minutos atrasados relativamente à hora marcada para o início da reunião. Sempre admirei imensamente a postura dos americanos a este respeito.

5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?

A cultura forte e diversificada da Firma, que resulta das mais de quinze nacionalidades que compõem o nosso universo de colaboradores. A mesma permite-nos ter uma perfeita noção das necessidades e preocupações dos nossos clientes, independentemente do seu país de origem. A diversidade existente nas dezasseis jurisdições nas quais temos presença permite-nos contribuir com diferentes perspetivas, o que, por sua vez, proporciona aos nossos clientes o melhor da nossa reflexão conjunta.

Por outro lado, admiro igualmente o cariz internacional deste projeto. Para além de uma presença inigualável no mercado africano, o facto de sermos o único escritório de advogados português com uma presença nos Estados Unidos (que remonta a 2005) permite-nos conjugar os mais elevados padrões de qualidade a nível internacional com um profundo conhecimento das realidades locais nas quais operamos.

6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?

Quando equacionarem investir no continente africano, não restringirem a sua aposta aos países com os quais partilham a língua ou a cultura. África é um mercado em rápido crescimento, dispõe de recursos naturais abundantes, e possui oportunidades bastante vastas de diversificação face a outros mercados mais saturados. Pude, inclusive, observar in loco essa janela de oportunidades quando estive sedeado em jurisdições francófonas no continente.

A nossa geografia permite-nos ter uma posição estratégica muito relevante, e Portugal pode (e deve) atuar como uma plataforma privilegiada entre a Europa e África. Existem inúmeras áreas em mercados francófonos ou anglo-saxónicos para as quais os nossos empresários devem olhar com particular atenção, tais como o agronegócio, as energias renováveis, as telecomunicações ou a logística.

7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?

Para além das áreas mais tradicionais, tais como a engenharia, a tecnologia, e as energias renováveis, gostaria de destacar uma tendência que tenho vindo a observar no decorrer dos últimos meses, e que está relacionada com o setor da defesa.

Num contexto de crescente procura global e expansão internacional deste setor, os Estados Unidos parecem estar a afirmar-se como um mercado estratégico para as empresas portuguesas que operam nesta área. Prova disso foi a recente participação, no passado mês de abril, de uma missão empresarial portuguesa na exposição Sea, Air & Space em Washington D.C. Esta iniciativa contou com a presença de vinte e duas empresas nacionais e tem particular relevância, pois permitiu que as mesmas tivessem um contacto direto com decisores, empresas e entidades norte-americanas, o que permitiu aumentar a visibilidade da oferta portuguesa neste setor.

8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?

Existem vários setores junto dos quais as empresas americanas podem investir em Portugal. Para além das áreas mais óbvias, nas quais incluo o turismo, o imobiliário e a tecnologia, parecem-me existir oportunidades bastante relevantes no setor energético, em particular ao nível das energias renováveis. A posição geográfica de Portugal é particularmente favorável a múltiplas formas de energia renovável e, no decorrer dos últimos anos, temos vindo a assistir a um impulsionamento da inovação neste domínio. Convém relembrar que Portugal é líder na União Europeia em energias renováveis, e que nos primeiros dois meses deste ano, mais de 80% da eletricidade gerada proveio de fontes limpas.

9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?

Pese embora pudesse elencar um leque de medidas bastante alargado, tais como um regime fiscal mais atrativo, julgo que faz sentido fazer referência à lentidão do sistema judiciário português. A eficiência do sistema judiciário é absolutamente crítica para os investidores estrangeiros, na medida em que garante a necessária segurança jurídica para a alocação de capital a longo prazo.

Ora, Portugal continua a ser um dos Estados-membros da União Europeia com maior duração dos processos nos tribunais de primeira instância e de instância superior (o que se explica, entre outros, pela excessiva burocracia processual, assim como pela falta de recursos humanos e materiais). Esta situação tem um impacto direto na atração de capital externo e contribui para a diminuição da confiança dos investidores estrangeiros.

10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?

Neste momento, continuo focado em dar continuidade ao trabalho que tenho vindo a desenvolver no decorrer dos últimos anos. Os Estados Unidos têm sido uma verdadeira casa para a nossa família, e estamos muito gratos pelas oportunidades que este país nos tem proporcionado.

Naturalmente, um dia regressarei a Portugal. Quando o fizer, espero poder partilhar muitas das experiências que tive pelo mundo, nomeadamente com as gerações mais novas.