29 de Setembro de 2026

Entrevista a Mafalda Freixial: “Uma das vantagens da China é a capacidade de execução” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Mafalda Freixial, Senior Manager de Social Media Strategy na Coty, partilha um pouco do seu percurso pessoal e profissional na China, e a sua reflexão sobre o potencial económico de Portugal.

1- O que a levou a sair de Portugal?

Desde jovem que tenho muita curiosidade por outras culturas. Essa curiosidade cresceu durante a licenciatura e o mestrado, por ter tido a oportunidade de estudar e viver em diferentes países, nomeadamente em Itália, nos Emirados Árabes e nos Estados Unidos. Foi também durante o mestrado que surgiu o meu interesse pela China e, em 2021, comecei a estudar mandarim já com a intenção de um dia viver e trabalhar no país.

Visitei a China pela primeira vez em 2023 e fiquei impressionada com o nível de desenvolvimento em áreas como e-commerce e tecnologia. Na altura, em Portugal ainda pouco se falava de live streaming, enquanto na China já era uma indústria altamente desenvolvida.

Em 2024, surgiu a oportunidade de me mudar para Xangai. Sabia que, se quisesse realmente integrar-me profissionalmente, falar mandarim seria fundamental. Por isso, comecei por estudar Língua Chinesa na Fudan University, uma decisão que acabou por mudar completamente o rumo da minha vida.

2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser portuguesa?

Uma vantagem é a imagem muito positiva de Portugal que encontro no estrangeiro. Na China, existe curiosidade pelo nosso país, pela nossa história e, naturalmente, pela relação histórica que partilhamos através de Macau. Ao mesmo tempo, surpreende-me a reduzida presença portuguesa no mercado chinês. Encontramos poucas marcas portuguesas, e Portugal ainda tem pouca visibilidade junto do consumidor. Vejo isso menos como uma desvantagem e mais como uma oportunidade: existe espaço para dar a conhecer melhor aquilo que Portugal tem para oferecer num dos maiores mercados do mundo.

3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?

Depois de estudar mandarim durante um ano na Fudan University, um dos primeiros desafios foi entrar no mercado de trabalho chinês. Apesar da minha experiência profissional anterior, rapidamente percebi que estava perante um ecossistema completamente diferente e que muito do meu conhecimento teria de ser reconstruído. Quando entrei na Buy Quickly, aceitei uma posição menos sénior e comecei praticamente do zero. Era a única estrangeira na empresa e poucos colegas meus falavam inglês. Com um nível de mandarim ainda intermédio, tinha de trabalhar diariamente em chinês. Os primeiros meses foram provavelmente os mais desafiantes da minha carreira. Poucas semanas depois de começar, decidi acrescentar aulas privadas de mandarim para acelerar a minha evolução. Foi exigente, mas essa imersão acabou por ser uma das experiências que mais contribuiu para o meu crescimento profissional.

4 – O que mais admira no país onde está?

Quando fazem esta pergunta a estrangeiros que vivem em Xangai, há uma palavra que aparece constantemente: conveniência. Na China, as coisas funcionam. As cidades são seguras, os transportes públicos são eficientes e a tecnologia está profundamente integrada no quotidiano. Praticamente tudo é feito através do telemóvel: pagamentos, transportes, compras, alimentação, entretenimento e comunicação. As aplicações estão interligadas e as várias plataformas criaram um ecossistema digital extremamente desenvolvido.

Admiro também a forma como sou recebida. Da minha experiência, os chineses são muito curiosos e acolhedores com os estrangeiros. Não é raro alguém falar comigo na rua para perguntar de onde sou, porque vivo na China ou simplesmente para conversar. É uma dimensão do país que, vista de fora, talvez seja menos conhecida.

5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?

Uma das experiências profissionais que mais me marcou foi trabalhar na Buy Quickly, um grupo chinês de e-commerce que integra áreas como live streaming, logística, tecnologia e produção criativa.

O que mais me impressionou foi a velocidade de evolução. Em apenas um ano e meio, vi o live streaming tornar-se cada vez mais sofisticado e profissional, desde os cenários e preparação dos hosts ao styling e maquilhagem. Os próprios eventos desenvolvidos para as marcas tornaram-se progressivamente mais ambiciosos.

Ao mesmo tempo, numa única semana podia trabalhar com diferentes marcas, categorias e plataformas. Essa exposição deu-me uma curva de aprendizagem extraordinária sobre as diferentes dinâmicas do mercado e, sobretudo, sobre o que funciona e o que não funciona, na China. Não me lembro de alguma vez ter aprendido tanto, em tão pouco tempo.

6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?

Diria, em primeiro lugar, para olharem mais para a China. É um mercado extremamente competitivo, mas também muito recompensador para empresas com bons produtos e uma estratégia verdadeiramente adaptada ao consumidor chinês. Ser reconhecido na Europa não garante sucesso aqui: é preciso compreender as plataformas, tendências, celebridades e momentos culturais locais, como o Ano Novo Chinês, o Festival do Meio do Outono ou o Qixi. As empresas portuguesas precisam, por isso, de uma verdadeira estratégia de localização, parceiros locais e humildade para aprender. Como se diz frequentemente aqui, “Chinese know Chinese best”.

7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?

Vejo oportunidades sobretudo onde Portugal combina qualidade, identidade e know-how. A gastronomia e a pastelaria são bons exemplos. O pastel de nata já é conhecido na China e existe inclusivamente uma versão local, o dàntǎ. O vinho português é também uma categoria com uma oferta forte, embora o mercado de bebidas alcoólicas esteja a atravessar atualmente uma pressão considerável na China. Exploraria ainda mobiliário e decoração, onde Portugal tem uma indústria muito forte e poderia desenvolver colaborações com marcas chinesas; e joalharia, tendo em conta a importância cultural do ouro. Em qualquer destas categorias, ter um bom produto é apenas o ponto de partida. A estratégia tem de ser pensada especificamente para a China.

8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?

A minha experiência na China está sobretudo ligada ao e-commerce e a marcas internacionais, por isso não tenho conhecimento suficiente para identificar com rigor os setores mais atrativos para o investimento chinês em Portugal. Procuraria sobretudo áreas de complementaridade, onde Portugal tenha competências ou recursos diferenciadores e onde possam surgir parcerias entre empresas dos dois países.

9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?

Uma das vantagens competitivas que mais noto na China é a capacidade de execução. A cultura de trabalho é muito intensa, sobretudo nas empresas chinesas. Não acredito que Portugal deva replicar essa intensidade, mas penso que podemos aproximar-nos um pouco mais da disciplina e do sentido de urgência que existem aqui. Na China, decisões são tomadas rapidamente e existe uma grande capacidade de mobilizar recursos e transformar projetos em realidade.

Admiro também a visão de longo prazo: as estratégias são pensadas para gerar crescimento no futuro, e não apenas resultados imediatos. Existe uma grande consistência entre os objetivos definidos e as decisões tomadas no presente.

Portugal pode aprender com esta capacidade de definir objetivos de longo prazo e manter a disciplina e a rapidez de execução necessárias para os concretizar.

10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?

De momento, não. Sinto que ainda tenho muito para aprender na China. Ao mesmo tempo, sinto uma vontade crescente de manter uma ligação profissional a Portugal e de contribuir para aproximar os dois países. A experiência que estou a construir na China pode ser particularmente valiosa precisamente porque existe ainda tanto conhecimento por partilhar entre os dois mercados. É também por isso que integrar o Conselho da Diáspora Portuguesa é tão significativo para mim. Gostaria de utilizar aquilo que estou a aprender aqui para criar pontes, identificar oportunidades e contribuir para Portugal, mesmo estando do outro lado do mundo.