22 de Setembro de 2026

Entrevista a David Pereira de Castro: “Previsibilidade e uma aposta séria no mercado de capitais” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, David Pereira de Castro, Presidente da SPOT Nordic, partilha um pouco do seu percurso pessoal e profissional na Dinamarca, e a sua visão sobre o potencial económico de Portugal.

1- O que o levou a sair de Portugal?

Saí por uma combinação de razões familiares e de ambições profissionais. Em 2019, motivos pessoais levaram-me a Copenhaga, depois de um percurso em Portugal que passou pela Administração Pública, pelo Ministério da Economia e por funções autárquicas. Mas a mudança só fez sentido porque a Dinamarca oferecia também um horizonte profissional exigente: fiz o mestrado em International Business and Politics na Copenhagen Business School e desenvolvo hoje o doutoramento na mesma escola, onde também leciono. Foi uma decisão de vida que se transformou numa oportunidade: a de aprender por dentro como funciona um ecossistema onde ciência, empresas e Estado cooperam com naturalidade, e de tentar devolver essa aprendizagem a Portugal, através da SPOT Nordic e do que escrevo sobre a economia portuguesa.

2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?

Ser português trouxe-me sobretudo vantagens. Trazemos uma formação sólida, facilidade linguística e relacional e uma capacidade de adaptação que é reconhecida nos países nórdicos, onde os profissionais portugueses qualificados têm boa reputação. Num ambiente cultural mais reservado, a nossa abertura ajuda a construir pontes e a criar relações de confiança. A principal desvantagem é partir sem redes: o capital social constrói-se do zero e a credibilidade tem de ser demonstrada, não herdada. E a marca Portugal ainda é mais associada ao turismo e ao estilo de vida do que à ciência, à engenharia e à tecnologia, pelo que acabamos todos por fazer também um pequeno trabalho de representação do país e das suas competências reais.

3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?

Os obstáculos foram os de quase todos os emigrantes: a língua, os códigos culturais de uma sociedade que é informal na forma, mas exigente nas regras implícitas, e a construção de uma rede profissional num país onde a confiança se ganha devagar. Houve também o recomeço: cheguei sem contactos e tive de reconstruir um percurso passo a passo, com as dúvidas que isso traz. Fui superando estas barreiras com tempo, estudo e presença: investi na qualificação, aprendi a cultura de trabalho local e ajudei a criar plataformas, como a SPOT Nordic, que organizam a comunidade portuguesa qualificada e lhe dão voz junto de universidades e empresas. É um trabalho que hoje me liga também à Suécia, à Noruega e à Finlândia, onde, com outros portugueses e em iniciativas conjuntas com as embaixadas de Portugal, vamos construindo a rede portuguesa nos países nórdicos. A integração não é um ato, é um processo, e exige consistência e alguma humildade.

4 – O que mais admira no país onde está?

A confiança. Entre pessoas, empresas e instituições, a confiança reduz custos de transação, permite hierarquias planas, delegação real e decisões rápidas. Admiro também o pragmatismo: os problemas discutem-se com base em dados e resolvem-se por consenso, sem dramatização. E impressiona-me a forma como o país transforma conhecimento em valor: universidades, fundações, fundos de pensões e empresas trabalham em conjunto para converter ciência em exportações, como se vê na energia eólica, na farmacêutica ou na logística marítima. Tudo isto assenta num equilíbrio entre trabalho e vida pessoal que, longe de reduzir a produtividade, a sustenta: um modelo em que a exigência profissional convive com o respeito pelo tempo de cada um.

5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?

A Copenhagen Business School liga investigação, ensino e sociedade sem hierarquias pesadas. Um jovem investigador tem autonomia real, acesso direto a professores de topo e contacto permanente com empresas e decisores públicos. Aprecio a interdisciplinaridade e a abertura internacional do grupo no qual me insiro, no qual desenvolvo o doutoramento em economia política internacional, com foco em estruturas corporativas multinacionais, cadeias de riqueza globais e greenwashing. E aprecio o facto de a escola levar a sério o seu papel público: os temas em que trabalho são tratados como questões de sociedade e não apenas como objetos académicos. Ensinar aqui, em áreas como a economia política comparada, tem sido para mim uma escola permanente de rigor e de aprendizagem.

6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?

Diria, com a prudência de quem observa à distância, que o essencial é distinguir crescimento de atividade de criação de valor. Portugal cresce em volume, turismo e emprego, mas continua frágil em produtividade, escala empresarial e posição nas cadeias de valor globais. Foi este diagnóstico que procurei desenvolver com Paulo Morgado no livro VAB – Valor Acrescentado Brando, publicado pela Vida Económica: uma parte demasiado grande do valor criado no país é branda, pouco defensável, pouco escalável e pouco internacionalizável. Aos empresários e gestores, sugeriria ganhar escala através de capitalização e de mercados de capitais, profissionalizar a gestão e a governação e construir vantagens competitivas defensáveis, em vez de competir por custos. Ao Estado, pediria previsibilidade e uma aposta séria num mercado de capitais mais dinâmico, que gere mecanismos de investimento e de poupança que garantam sustentabilidade no longo prazo.

7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?

A Dinamarca, mas também a Suécia e a Noruega, são mercados exigentes, mas fiéis: quem entra como fornecedor qualificado tende a ficar. Vejo oportunidades na cadeia de fornecimento da energia eólica e das renováveis, onde a metalomecânica, os moldes e a engenharia portuguesa têm nível para competir; na construção e reabilitação, com escassez crónica de mão-de-obra especializada; nas tecnologias de informação e serviços de engenharia, dado o custo elevado do talento local; no agroalimentar de valor acrescentado, do vinho aos produtos gourmet; e no fornecimento certificado à indústria farmacêutica e de dispositivos médicos. A chave é entrar com certificações, prazos rigorosos e proposta técnica sólida, não apenas com preço.

8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?

As empresas dinamarquesas procuram talento, energia limpa e localizações estáveis na União Europeia, e Portugal tem os três. Vejo potencial nas energias renováveis, incluindo eólica offshore, solar e hidrogénio verde, onde operadores dinamarqueses são líderes mundiais; na economia do mar e nos portos; nos centros de engenharia, dados e serviços digitais, aproveitando o talento técnico português; nas ciências da vida, área em que a Dinamarca tem gigantes industriais e Portugal capacidade clínica e científica; e no agroalimentar. Para captar este investimento, Portugal precisa de um licenciamento previsível, de uma rede elétrica robusta e de interlocutores públicos que respondam com rapidez.

9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?

Escolheria o sistema de pensões por capitalização. Os fundos de pensões dinamarqueses geram poupança de longo prazo que financia empresas, infraestruturas e inovação, além de garantirem reformas mais seguras. É uma vantagem silenciosa, mas estrutural. Portugal, sem poupança institucional de escala, fica dependente de capital externo e de dívida, e muitas das suas melhores empresas acabam vendidas cedo. Criar gradualmente um pilar de capitalização mudaria em vinte anos a estrutura de propriedade da economia portuguesa. Replicaria também a confiança tripartida entre Estado, empresas e trabalhadores, que permite flexibilidade com segurança, e a articulação entre universidades e indústria: nada disto exige recursos naturais, exige desenho institucional e paciência.

10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?

Nunca saí completamente: mantenho ligação ativa a Portugal através da SPOT Nordic, do Conselho da Diáspora Portuguesa e do que escrevo sobre a economia portuguesa. A minha vida pessoal está hoje repartida entre Portugal e a Dinamarca, e isso pesa naturalmente nas escolhas. Não excluo o regresso, mas penso que a pergunta certa não é onde vivemos, é onde acrescentamos valor: neste momento sinto que sou mais útil como ponte entre Portugal e a região nórdica, ligando instituições, investigadores e empresas. Se surgir um projeto concreto em que esta possa fazer a diferença em Portugal, considerá-lo-ei com seriedade. O essencial é que o país trate a diáspora qualificada como um recurso permanente, com mecanismos de circulação de talento, e não apenas como uma saudade.