No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Ricardo Ribeiro, COO da Ferpinta Moçambique, reflete sobre a sua experiência profissional num mercado internacional em crescimento.
1- O que o levou a sair de Portugal?
A decisão esteve diretamente ligada ao alinhamento com a estratégia de expansão internacional da Ferpinta e à oportunidade de acompanhar de perto o desenvolvimento de um mercado com elevado potencial.
Moçambique representa um contexto exigente, mas com margem de crescimento significativa, particularmente em setores ligados à indústria e infraestruturas. A possibilidade de estar no terreno, com impacto direto na execução e desenvolvimento do negócio, foi determinante.
A nível pessoal, encarei este passo como uma oportunidade para evoluir enquanto gestor, num ambiente onde a capacidade de adaptação, leitura de contexto e tomada de decisão têm impacto direto nos resultados e na criação de valor.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?
Num contexto lusófono, existe uma vantagem clara ao nível da proximidade cultural e facilidade de comunicação, o que acelera significativamente a construção de relações de confiança e a integração nos diferentes contextos de negócio.
A presença histórica de empresas portuguesas em Moçambique contribui também para um reconhecimento positivo, facilitando o acesso a parceiros, clientes e redes já estabelecidas. No caso da Ferpinta, essa continuidade entre Portugal e Moçambique permitiu consolidar a presença de forma mais estruturada e consistente ao longo do tempo.
Por outro lado, esta proximidade pode também criar a expectativa de uma adaptação imediata, quando na realidade existem diferenças operacionais relevantes que exigem tempo e aprendizagem.
Mais do que a nacionalidade, o fator diferenciador acaba por ser a consistência na execução, a credibilidade construída no terreno e a capacidade de entrega — e é aí que, na minha experiência, os profissionais portugueses se destacam.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
O principal desafio foi a adaptação a um contexto operacional distinto, onde os modelos europeus nem sempre são diretamente aplicáveis. Questões como logística, previsibilidade de supply chain, burocracia ou acesso a recursos exigem uma abordagem mais flexível e pragmática.
A resposta passou por ajustar a forma de trabalhar, privilegiando proximidade ao terreno, rapidez na tomada de decisão e capacidade de adaptação contínua.
Outro fator crítico foi a integração cultural. Apesar da língua comum, existem diferenças relevantes na forma de trabalhar, comunicar e gerir expectativas. A aprendizagem passa muito pela escuta ativa e pela valorização das equipas locais, que têm um conhecimento profundo do contexto e são essenciais para garantir eficácia operacional.
Esta experiência reforça a importância de modelos de gestão mais ágeis e menos dependentes de estruturas rígidas.
4 – O que mais admira no país onde está?
O potencial estrutural do país. Moçambique tem uma base de recursos naturais muito relevante e uma posição geoestratégica que o coloca como um ponto importante na região da África Austral.
Existe ainda uma margem significativa para desenvolvimento, o que representa oportunidades claras para quem está disposto a investir com uma visão de médio e longo prazo, assumindo também os desafios inerentes a um mercado em crescimento.
5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?
A capacidade de alinhar uma cultura de empresa familiar com uma visão estratégica orientada para o longo prazo, mantendo simultaneamente um elevado grau de agilidade na resposta ao mercado.
Existe um compromisso real com as pessoas, refletido na estabilidade das equipas. Em Moçambique, num universo de cerca de 140 colaboradores, mais de 20 estão connosco desde o início da operação, o que demonstra confiança e consistência ao longo do tempo.
Paralelamente, destacaria a capacidade da Ferpinta em ajustar rapidamente a sua estratégia quando as condições de mercado se alteram. Em 2019, por exemplo, o varão representava apenas cerca de 5% a 10% do nosso volume de negócios e era um segmento onde atuávamos como mais um operador.
Perante uma quebra no mercado do aço, com impacto na venda de tubos e chapas, reposicionámos a nossa abordagem e apostámos de forma mais agressiva no trading de varão, integrando-o como uma área estratégica do negócio.
Hoje, essa decisão traduziu-se numa posição de liderança no mercado, com o varão a representar cerca de 50% da faturação no mercado interno.
Essa lógica de adaptação aplica-se também aos mercados externos. Em períodos em que mercados como a África do Sul apresentaram condições desfavoráveis, nomeadamente devido à volatilidade cambial, reforçámos a diversificação geográfica e fomos proativos na entrada em novos mercados.
Atualmente, países como o Zimbabué e o Malawi assumem-se como mercados de referência para a operação, evidenciando a importância de uma abordagem flexível e orientada para oportunidades.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Portugal tem uma base muito sólida de talento e competências, amplamente reconhecida a nível internacional.
A experiência fora do país reforça a perceção de que os gestores portugueses são altamente competentes, com forte capacidade de execução, resiliência e adaptação a diferentes contextos.
A principal recomendação passa por reforçar a ambição e a escala. Existe capacidade para competir globalmente, mas é importante assumir essa posição com maior confiança, visão estratégica e consistência na internacionalização.
Além disso, a capacidade de adaptação — muitas vezes associada ao “desenrasque” — deve ser encarada como uma vantagem competitiva estruturada, que pode e deve ser integrada em modelos de gestão mais formais e orientados para crescimento sustentável.
Num contexto global cada vez mais competitivo, essa combinação entre flexibilidade e rigor pode ser determinante.
7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?
Moçambique apresenta oportunidades relevantes em setores estruturantes como infraestruturas, energia, indústria, construção e logística, todos fundamentais para o desenvolvimento do país.
Para além destes, existe um potencial crescente em áreas como serviços técnicos especializados, manutenção industrial e tecnologia, onde o know-how português pode ter um impacto significativo na modernização de processos e aumento de eficiência operacional.
O crescimento de projetos ligados a recursos naturais e desenvolvimento urbano cria também oportunidades indiretas em vários setores de suporte.
Empresas com capacidade técnica, flexibilidade e visão de longo prazo encontram em Moçambique um mercado desafiante, mas com potencial real de crescimento.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?
Portugal mantém uma posição atrativa nos setores do turismo e imobiliário, suportada por fatores como estabilidade política, segurança e qualidade de vida.
Adicionalmente, o setor tecnológico tem vindo a afirmar-se de forma consistente, com um ecossistema cada vez mais competitivo, capaz de atrair investimento internacional e talento qualificado.
Essa combinação entre qualidade de vida, infraestruturas e capacidade técnica torna o país particularmente interessante para investidores estrangeiros.
9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?
Uma das principais vantagens é a agilidade na tomada de decisão e na implementação de soluções.
Em mercados em desenvolvimento, existe maior flexibilidade estrutural e menor dependência de processos complexos, o que permite responder rapidamente a desafios e oportunidades.
Essa capacidade de simplificação e foco na execução pode ser uma aprendizagem relevante para economias mais maduras, onde a burocracia e a rigidez processual tendem a atrasar decisões.
Não se trata de reduzir exigência ou controlo, mas de encontrar um equilíbrio mais eficiente entre estrutura e agilidade.
10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?
No curto prazo, o foco está no desenvolvimento do projeto e na consolidação da presença da empresa no mercado.
Estamos numa fase de crescimento que implica não só reforçar a posição atual, mas também avançar com uma estratégia mais agressiva de expansão, nomeadamente através da entrada física em mercados como o Zimbabué e a África do Sul, bem como da criação de novas delegações em zonas emergentes dentro de Moçambique.
Paralelamente, temos vindo a investir de forma significativa no aumento da gama de produtos, com a introdução de novos equipamentos e tecnologias mais avançadas, que nos permitem responder melhor às exigências do mercado e aumentar a nossa competitividade.
Este conjunto de iniciativas exige uma presença contínua no terreno e um acompanhamento próximo das operações, o que, nesta fase, torna pouco provável um regresso a Portugal no imediato.
Ainda assim, Portugal continuará sempre a ser uma referência pessoal e profissional. É onde tenho as minhas raízes e onde mantenho uma ligação constante, facilitada pela natureza da função e pela mobilidade que esta permite.