21 de Abril de 2026

Entrevista a Mariana Carriço: “Em Espanha, admiro a cultura da execução” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Mariana Carriço, “Head of Category” na L’Óreal Espanha e Portugal, partilha um pouco do seu percurso desde que deixou Portugal, e a sua visão sobre o papel da diáspora portuguesa enquanto ponte para negócios internacionais.

1 — O que a levou a sair de Portugal?

A decisão de sair de Portugal foi impulsionada por uma oportunidade profissional: a L’Oréal tem o seu epicentro em Paris, onde está sediada a investigação e desenvolvimento de produto, uma área que sempre quis explorar. Além disso, havia também uma vontade genuína de alargar horizontes e de conhecer outras culturas. Já tinha feito Erasmus em Itália e intercâmbio na Austrália, mas tinha vontade de voltar a viver fora, desta vez a nível profissional.

2 — Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser portuguesa?

As vantagens são muitas. Os portugueses têm uma capacidade notável de se adaptar a contextos culturais diversos, uma facilidade natural com línguas e um espírito de improviso que nos permite navegar situações complexas com agilidade. Somos também reconhecidos como profissionais dedicados, com brio genuíno.

Desvantagens, ainda não encontrei nenhuma. Quem vai para o estrangeiro está, à partida, disposto a trabalhar muito, a integrar-se na cultura local e a tentar ter uma boa carreira profissional. Com esta atitude, não há nenhuma desvantagem em ser português.

3 — Que obstáculos teve de superar e como o fez?

Mais do que obstáculos, prefiro chamar-lhes desafios de integração. A necessidade de aprender outras línguas, de absorver as referências culturais locais, o humor, as nuances do quotidiano. Em Paris aprendi que a integração é um trabalho diário, feito de humildade e vontade de aprender, e que sair da zona de conforto nos torna mais fortes. Quando cheguei a Madrid, a proximidade ibérica tornou tudo mais fluido — mas a humildade é sempre necessária: cada cultura tem a sua forma de ser e de trabalhar. A isto acresce um desafio pessoal: vim com família e filhos, com menos rede de apoio por perto. Gerir o dia a dia nessas condições é uma adaptação constante e um exercício diário de organização e resiliência.

4 — O que mais admira no país onde está?

Em Espanha, admiro a cultura de execução. Passa-se menos tempo a discutir o como e o quando, arrisca-se mais, e quando algo não corre bem, não se fica a julgar o erro — aprende-se e segue-se em frente. É precisamente essa agilidade que percebi estar na base dos elevados índices de produtividade. Sente-se também uma cultura de trabalho mais horizontal e menos formal — decide-se mais rápido, há menos barreiras entre níveis hierárquicos, e isso agiliza tudo. Mas admiro igualmente a forma como os espanhóis aproveitam a vida fora do trabalho. As esplanadas e os restaurantes estão cheios todos os dias, e há uma cultura genuína de work-life balance que coexiste, de forma muito natural, com essa orientação para os resultados.

5 — O que mais admira na empresa ou organização onde está?

A L’Oréal é uma empresa com um grande legado e um portfolio de marcas icónicas com uma ligação aos consumidores por todo o mundo. Operar numa escala verdadeiramente global abre horizontes que dificilmente encontraria noutro contexto. Mas o que mais me move — e não é cliché — são as pessoas e a cultura da empresa. Há uma paixão partilhada, um espírito de conquista e uma garra que se sente no dia a dia. Apesar de ser uma multinacional de grande dimensão, existe um sentido de família. Fiz amigos para a vida nesta empresa — e isso não acontece por acaso.

6 — Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?

Que olhem para fora com confiança e sem complexos. Somos com frequência reféns de um síndrome de país pequeno que não nos corresponde — e quando saímos, percebemos o quanto Portugal é valorizado pela sua história, tradições, cultura e pessoas. Primeiro, investir numa marca Portugal mais assertiva e consistente — não apenas pela matéria-prima que temos, mas porque temos a legitimidade para o fazer. Países como a Suécia ou a Dinamarca fizeram-no, exportando não só produtos, mas uma identidade, uma forma de viver e de pensar que o mundo reconhece. Segundo, apostar em nichos de excelência: não competir em volume, mas em qualidade e diferenciação. Portugal já o demonstrou nos moldes e componentes automóveis, no vinho e no azeite, na cortiça, no calçado e nos têxteis — a questão é exportar essa lógica para outros setores. E por fim, alavancar a diáspora: os portugueses no estrangeiro são uma rede de contactos e de conhecimento de mercado ainda muito subaproveitada. Um português expatriado consegue muitas vezes abrir portas que os canais formais dificilmente alcançam — e há uma enorme vontade de o fazer. É esse o espírito do Conselho da Diáspora.

7 — Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?

Em Espanha, as marcas portuguesas já têm uma reputação de qualidade sólida, sobretudo na área têxtil e de manufatura — moda, calçado, têxteis de lar e cerâmica. O fenómeno das criadoras de conteúdo portuguesas tem vindo também a aproximar os dois mercados de forma orgânica, sobretudo na moda e na beleza. Mas onde vejo potencial crescente é na gastronomia. O pastel de nata já é um fenómeno em Espanha e marcas como a Manteigaria e O Melhor Croissant da Minha Rua são conceitos portugueses que cruzaram a fronteira com sucesso. E as conservas artesanais portuguesas são hoje um produto gourmet muito valorizado internacionalmente. Portugal exporta não apenas produtos, mas conceitos e experiências com identidade própria, e há ainda muito por explorar nesse sentido.

8 — Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?

Portugal tem condições atrativas para o investimento espanhol em vários setores. No retalho, esse investimento já é uma realidade visível: a Mercadona expandiu-se para Portugal com uma presença crescente, e insígnias como a Primor e a Druni estão também a conquistar o mercado português — um sinal claro da confiança no potencial do país. Na indústria audiovisual, Portugal combina talento criativo, clima excecional e custos de produção competitivos — uma equação que já está a atrair produções internacionais e que merece políticas de captação mais assertivas. Na tecnologia, a qualidade dos engenheiros e profissionais de IT portugueses é cada vez mais reconhecida, posicionando Portugal como destino natural para hubs de inovação e desenvolvimento. E na educação e ensino superior, universidades como a Nova SBE e a Católica Lisbon são exemplos de instituições com uma estratégia clara de atração de estudantes e parceiros internacionais, e que demonstram o potencial de Portugal neste setor.

9 — Qual a vantagem competitiva do país em que vive que poderia ser replicada em Portugal?

A infraestrutura. Em Madrid, a cidade funciona: um aeroporto de grande capacidade e bem localizado, acessos rodoviários eficientes, uma das maiores redes de metropolitano da Europa e uma rede de alta velocidade ferroviária que conecta todo o país. Mas o que mais me impressiona não é Madrid em si — é a forma como Espanha conseguiu desenvolver múltiplos polos económicos e culturais que atraem talento e distribuem a riqueza pelo território. Em Portugal, é preciso um plano nacional com essa ambição: espalhar o investimento, criar condições para que jovens e empresas se fixem em diferentes regiões, e garantir que o crescimento do país não fica concentrado num só ponto. Isso implica também repensar a dependência excessiva do turismo — um setor estruturalmente pouco produtivo, sem capacidade de automatização, muito baseado em salários baixos. Portugal merece apostar em setores que gerem mais valor acrescentado e melhores condições de vida para quem cá vive.

10 — Pensa voltar a Portugal? Porquê?

Sim, a médio e longo prazo, provavelmente. Portugal está sempre no horizonte. É difícil estar longe da família e dos amigos — e quando estamos fora percebemos o quanto dávamos por garantido. Foi a viver fora que comecei a ouvir e a apreciar verdadeiramente o Fado — talvez porque o é a expressão mais portuguesa da saudade. O mar, o clima, a gastronomia, as pessoas — há um fio que nos liga sempre às nossas origens. Espanha, pela sua proximidade ibérica, suaviza essa distância, mas acredito que, no momento certo, e quando a vida e a carreira o permitirem, Portugal voltará a ser casa.