É mais do que uma rede de networking mundial de portugueses influentes na economia, ciências, cultura e cidadania. O Conselho da Diáspora Portuguesa é reconhecido como um instrumento relevante para o país. Entrevista do Presidente da Direcção à Executive Digest.

Cinco milhões de portugueses e lusodescendentes estão espalhados pelo Mundo. Isto representa 50% dos cidadãos em Portugal, núme­ro desproporcio­nal à média da diáspora mun­dial, de apenas 3%. Tudo começou com o Conselho da Globalização, em 2006. Na altura, convidava-se CEOs das grandes multinacionais do mundo, desde a IBM, Toyota, City Bank, para virem a Portugal discutir temas da actualidade, à porta fechada. «Éramos cerca de 25 empre­sários, de geografias variáveis, desde europeus, asiáticos, norte-americanos e sul-americanos, a convite do Presidente da República, Cavaco Silva, mas também para poderem estar durante um dia a “mangas de camisa” com Durão Barroso, ex-presidente da Comissão Europeia, para fazer lobbi», conta Filipe de Botton, presidente da Direcção do Conselho da Diáspora Portuguesa, referindo-se aos primórdios do Conselho da Globalização, que sofreu evoluções.

Em 2012, sentiu-se que o conceito podia estar a criar “anticorpos”, uma vez que era composta só por estrangeiros. Foi decidido «convidar apenas CEOs lusófonos e da comunidade dos países de língua portuguesa de empresas não portuguesas. Correu bem e criámos o Conselho da Diáspora Portuguesa, sobretudo com pessoas das áreas da Economia, Artes, Ciências e Cidadania».

REFORÇAR A REPUTAÇÃO DE PORTUGAL

Ao contrário de outras Diásporas criadas no seio dos Governos, esta ideia é oriunda da sociedade civil, mais concretamente de Filipe de Botton – conhecido empre­sário português, Chairman da Logoplaste, (terceira maior empresa europeia con­versora de plástico rígido), também sócio fundador da Norfin, da Invesfin e da Logowines, estando envolvido no sector da hotelaria e resorts e sócio dos gelados Santini. «Na altura limitei-me a ter a ideia e tive o apoio do Presidente da República, Cavaco Silva», explica, conforme garante que a missão original se mantém: ajudar o País.

Assim, é formalmente constituída no dia 26 de Dezembro de 2012 sob o alto Patrocínio do Presidente da República – igualmente Presidente Honorário do CDP – bem como do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros – vice-presidente honorário do CDP, em funções, hoje Marcelo Rebelo de Sousa e Augusto Santos Silva.

O principal elemento de intervenção do Conselho da Diáspora são os seus 91 conselheiros, espalhados em 28 países, num total de 47 cidades, nos cinco continentes. «Um activo com um valor incalculável. O Conselho começou por um mapeamento dos portugueses de influência fora de Portugal e é um trabalho que continua a ser feito. Estes portugueses fazem a diferença e têm elevado reconhecimento nas sociedades de acolhimento. Dos 96 convites que fiz, nenhuma das pessoas se recusou a ajudar Portugal.»

Dos 96 membros convidados no início, saíram mais de três, porque se reformaram ou regressaram a Portugal. «Tem havido uma saudável renovação», acrescenta Filipe de Botton.  «É sem dúvida, a diáspora da influên­cia. Todos, os que trabalham fora, são importantes, mas aqui não se trata da Diáspora da Saudade ou da Diáspora da remessa do emigrante, que ajudou muito Portugal. Trata-se das pessoas que podem reforçar a imagem de Portugal, quer através de encontrar parcerias para o desenvolvimento de novas formas de estar, quer trazer ideias e pessoas dife­rentes para Portugal, divulgar artistas, reorganizar o network de portugueses fora de Portugal. Os conselheiros têm a permissão de “Introducing Portugal” em cada lugar onde vivem, organizar uma ou duas vezes por ano encontros com pessoas locais para falar de Portugal e divulgar o País», sublinha.

Falamos por exemplo de José Manuel Durão Barroso (Goldman Sachs), Carlos Gomes (Peugeot Citroen), Pedro Domingos (Universidade de Washington), Joana Vicente (Toronto International Film Festival), António Horta Osório (Lloyd’s Banking Group), António Simões (HSBC), Zita Martins (IST) e Manuela Veloso (Carnegie Mellon University). Para ajudar na construção da Diás­pora Portuguesa, Filipe de Botton foi observar, em particular, os exemplos da Diáspora da Irlanda, Israel, China e Índia. «Eram casos muito bem estru­turados, que fazem uso, no bom sentido da palavra, da sua diáspora. Na China e na Índia existem milhões de pessoas fora e todos têm obrigação de ajudar as finanças do país de origem.»

A grande preocupação do presidente da Direcção do Conselho da Diáspora Portuguesa tem sido fazer crescer e credibilizar o Conselho. «Hoje está totalmente credibilizado, é uma peça institucional importantíssima da ac­ção quer da Presidência da República quer do Governo. Trabalhamos como um braço armado para ambos, aju­dando e interagindo», lembra, ao mesmo tempo que faz questão de re­ferir e ir sublinhando que o Conselho é totalmente apolítico. «Sempre nos quisemos manter independentes do Governo, para não haver uma tendência de nos politizar. Fazem parte do Conselho pessoas que têm uma vivência exterior, que estão a ajudar o seu país de forma totalmente desinteres­sada. Não é um veículo de pressão é para ajudar e cooperar.»

Filipe de Botton diz-se satisfeito com o percurso traçado pela Diáspora ao longo destes seis anos. Até porque o grande objectivo que tinha ao criar o Conselho foi conseguido. «Pusemos na agenda nacional o tema da Diáspora, o que para nós já é um motivo de orgulho e os conselheiros estão desejosos de poder ajudar o País. Hoje são uma série de acções. O Governo neste momento está a criar a Diáspora Empresarial. Criou-se um novo fundo de desenvolvimento de biotecnologia na Católica do Porto. Da mesma forma que o Conselho da Globalização trouxe o Centro de Competências da IBM para Portugal, porque o CEO ficou encantado com o País, os conselheiros também nos dão a oportunidade de chegar a pessoas que nunca conseguiríamos antes. Um embaixador não tem esta capacidade, não cria em quatro anos estas relações de intimidade. Tudo isto é um activo gigante que o País tem de aproveitar».

Ainda assim, não deixa de parte vir um dia a passar a pasta, isto é, quando achar necessário. «Hoje estou presidente não sou presidente e certamente depois de mim virão pessoas com outras ideias e formas de estar.»

REPENSAR O PAPEL DO CONSELHO FACE À MUDANÇA

Filipe de Botton lembra-se de viajar muito quando era mais novo. Aliás por regra os portugueses são um exemplo de cidadãos do mundo que, tendo procurado outros países para trabalhar, mantêm uma relação próxima com o país e a língua, e mesmo à distância mantêm a sua identidade transmitindo-a aos seus descendentes. «Quando se fala da preo­cupação das pessoas que emigram, nós vivemos num mundo global, as pessoas não emigram, vão e vêm. Já não se deve falar no mercado português, no mínimo é a Europa. Isto é um mundo global, as fronteiras são diferentes do passado, não me preocupa essa questão e cada vez vão ser mais esbatidas. Se olharmos para as gerações mais novas, são pessoas que viajam, ficam, voltam, é uma forma diferente de estar. As pessoas que se preocupam com a emigração são de outra geração e não percebem que o mundo mudou», garante o próprio.

Outro passo alcançado pelo Conselho da Diáspora foi a internacionalização. «No ano passado, criámos o EurAfrican Forum, uma plataforma de ligação entre as relações da Europa e África, como um todo. Neste Fórum estiverem presentes 380 pessoas, oito Ministros da Economia e Negócios Estrangeiros africanos. Foi depois do EurAfrican, que passou a existir uma normalização entre as relações de Portugal e Angola. Foi um tremendo sucesso. Vamos criar todos os anos um, porque percebemos o papel fundamental que o Conselho pode ter em ajudar a coordenar o desenvolvimento de Conselhos de Diáspora de Países Africanos. Uma das grandes riquezas do país é a sua Diáspora. O mundo está a mudar tão rapidamente que temos de repensar o papel da Diáspora. É impor­tante passar do patamar nacional para o internacional», afirma.

Todos os anos, os conselheiros reúnem­-se duas vezes para alinhar propósitos e temas. Há já alguns eventos bem firmados, como as “Conversas Improváveis”, onde alguns membros vão falar com estudan­tes e partilhar as suas vivências e temas da actualidade. A ideia é reaproximar Portugal com a sua história.

Entre 2013 e 2018 foram debatidos diversos temas, entre os quais: Liderança e Diversidade, Cibersegurança, Gerir na Era Digital, Diplomacia Cultural e o Papel da Diáspora, Competências para o século XXI, Portugal como Nearshoring Go-To-Country, Inovação na Indústria Audiovisual em Portugal, Prevenção da Doença e Promoção da Saúde ou Mobilidade Inteligente numa Economia Verde, o posicionamento de Portugal para manter ou melhorar os bons índices de competitividade. Para este ano, os temas não estão ainda fechados, ainda que se ande a discutir a adaptação da força de trabalho ao futuro, se estamos a criar as pessoas certas para um trabalho que se avizinha e ninguém conhece e como se deve gerir essa incerteza.

Contribuir para a afirmação univer­sal dos valores e cultura portuguesa, bem como para a elevação e reforço permanente da reputação do País é o propósito do Conselho. Uma espécie de “never ending job”.

 

Por Executive Digest, Abril de 2019

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