7 de Abril de 2026

Entrevista a Carlos Macedo e Couto: “Taiwan é um mercado que valoriza muito a história” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Carlos Macedo e Couto, arquiteto e empresário com percurso entre Macau e Taiwan, partilha a sua experiência internacional e a sua visão sobre a valorização dos produtos portugueses e o posicionamento de Portugal nos mercados globais.

1 – O que o levou a sair de Portugal?

A minha saída de Portugal pouco teve a ver com a procura de novas oportunidades profissionais. Faço parte de uma geração contemporânea da Revolução de Abril e, nessa altura, existiam oportunidades de trabalho em arquitetura e urbanismo sem grandes dificuldades.

Quando me formei, saíam das escolas cerca de trinta a quarenta arquitetos por ano em Lisboa e talvez metade disso no Porto. A realidade atual é muito diferente e os jovens recém-formados enfrentam dificuldades para iniciar a carreira e acabam por procurar oportunidades fora do país.

Fui para Macau em finais de 1981, numa decisão motivada sobretudo pelo desejo de conhecer o mundo e regiões que então pareciam distantes e inacessíveis para um português.

Viajar de avião era ainda algo raro e o nosso universo de deslocação limitava-se a viagens de automóvel pela Europa; e, mesmo assim, grande parte desta permanecia fora do nosso alcance, integrada que estava na esfera de influência da União Soviética.

2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?

Com a descolonização iniciada após o 25 de Abril, a China solicitou a Portugal um período mais alargado para a transferência de soberania, tendo-se prolongado as responsabilidades administrativas portuguesas até finais de 1999, com um esforço significativo de organização e modernização.

Macau tinha então uma estrutura administrativa limitada e havia muito a fazer para preparar o seu futuro, sendo-me atribuída a responsabilidade do planeamento urbano da cidade, preparando a cidade para um crescimento que se adivinhava acelerado, impulsionado pela expansão da indústria do jogo.

Em 1989, iniciei atividade privada como arquiteto, passando a participar de outra forma na construção de Macau. O grande “salto” deu-se com o projeto do Pavilhão de Portugal na Expo Mundial de Shanghai 2010 e mais tarde com aquilo que viria a alterar significativamente o rumo da minha vida: o projeto de um Autódromo de F1 em Taichung.

3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?

Ao dividir a minha vida entre Macau e Taiwan, surgiu naturalmente uma oportunidade na área da importação de produtos portugueses. Depressa percebi que o verdadeiro segredo do sucesso residia em acreditar profundamente na qualidade do que se produz em Portugal e no trabalho dedicado dos produtores portugueses. Compreendi também que, para promover o vinho português, não bastava ter uma loja: era essencial criar uma ligação autêntica à gastronomia tradicional. Foi assim que nasceu o conceito do TUGA.

Hoje somos reconhecidos pela excelência da gastronomia e pela diversidade dos vinhos, procurando representar Portugal no seu todo, com referências de todas as regiões vinícolas e denominações de origem, promovendo o melhor que o país tem para oferecer.

No TUGA existe também uma dimensão cultural: as obras de Victor Hugo Marreiros, artista gráfico da diáspora portuguesa, contam nas paredes do restaurante fragmentos da nossa história coletiva — a história de um país e de um povo. 

4 – O que mais admira no país onde está?

Três aspetos fundamentais.

Em primeiro lugar a enorme segurança, que é muito diferente da que encontramos em muitos outros países. Tudo o que se perde ou aparece mais tarde numa esquadra de polícia ou está no local onde foi deixado.

Depois, refiro a cidadania. Não há lixo no chão e não existem caixotes de lixo pela cidade. O que existe é uma educação cívica e um forte sentido de responsabilidade coletiva: o lixo é colocado em locais e horários definidos e todos o cumprem disciplinadamente.

E, por fim, a dimensão humana. Costumo dizer, em tom de brincadeira, que os taiwaneses são quase latinos: pessoas calorosas, amigas dos amigos, que se despedem à mesa, depois à porta, e ainda caminham juntos até à esquina. Aqui sinto-me como em casa.

5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?

Estarei, de certa forma, a falar de mim próprio, pois tenho dois “chapéus”. A Arquitetura, que continuará sempre presente, é, para mim, uma diversão e não um trabalho; e a atividade empresarial que desenvolvi com a importação de produtos portugueses e com o restaurante/loja de vinhos é uma fonte de motivação e prazer.

Entrar no TUGA é, de certa forma, como entrar em Portugal sem sair de Taiwan e encontrar o melhor que o nosso país tem para oferecer. E isso é um orgulho que não escondo.

6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?

Na área em que atuo — restauração, bebidas e produtos alimentares —, diria, sem hesitação, que Portugal deve apresentar ao mundo o melhor que tem.

Os produtos portugueses continuam pouco conhecidos internacionalmente, apesar da sua extraordinária qualidade. É necessário um trabalho de promoção estruturado, começando pelo topo: posicionar primeiro os produtos no segmento da qualidade e da excelência e só depois expandir para outros níveis do mercado.

Na minha experiência, competir pelo preço é um erro. O caminho está na qualidade, na autenticidade e na história — e aí Portugal tem uma clara vantagem competitiva. Se soubermos comunicar bem essa realidade, temos todas as condições para conquistar novos mercados.

7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?

Taiwan é um mercado que valoriza muito a história, a autenticidade e a narrativa cultural. Produtos portugueses que contam uma história — tradição, origem regional e produção artesanal — tendem a ter mais sucesso do que produtos puramente industriais.

Os sectores com maiores oportunidades para empresas portuguesas em Taiwan são: alimentação, bebidas e vinhos; turismo; energias renováveis; tecnologias digitais; e design e materiais naturais.

8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?

Empresas de Taiwan procuram investir em países com acesso a mercados, tecnologia complementar, estabilidade e boas infraestruturas. E Portugal oferece várias oportunidades, sendo hoje um hub tecnológico crescente, com talento qualificado, custos competitivos e acesso ao mercado da União Europeia. Eventos como o Web Summit reforçam essa posição.

Os sectores mais atrativos para investidores taiwaneses são: energias renováveis; tecnologia e inovação; indústria automóvel; portos e logística; turismo e hotelaria; e agricultura e agroindústria.

Mas, para que isso aconteça, é necessário criar “pontes” e relações comerciais e institucionais mais sólidas e permanentes entre os dois países, uma área onde ainda existem lacunas na diplomacia económica portuguesa.

9 – Qual a vantagem competitiva do país em que vive que poderia ser replicada em Portugal?

Taiwan possui um dos sistemas de saúde mais eficientes e acessíveis do mundo, enquanto Portugal enfrenta atualmente desafios estruturais importantes neste setor.

Outra área onde Taiwan é exemplar é na gestão de desastres naturais. Sendo um território sujeito a terramotos, tufões e chuvas intensas, desenvolveu elevada capacidade de organização, prevenção e resposta rápida.

Nestes dois domínios — saúde pública e gestão de emergências —, Portugal poderia beneficiar do estudo da experiência taiwanesa. Estas são precisamente áreas em análise no âmbito do Conselho da Diáspora Portuguesa, com o objetivo de identificar boas práticas internacionais que possam contribuir para melhorar estes sistemas em Portugal.

10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?

Para quem, como eu, viveu cerca de 30 anos em Portugal e quase 45 na diáspora, há dois tipos de “voltar”.

Existe o voltar da saudade, do orgulho e do amor por Portugal. Esse sentimento está sempre presente, leva-nos a visitar o país com regularidade e a contribuir, como podemos, para o seu desenvolvimento. É também o que nos faz celebrar o 10 de junho com a família no consulado, cantar o hino e ver a bandeira subir, transmitindo às novas gerações o sentido de portugalidade. Quando vivia em Portugal, o 10 de junho era apenas mais um dia de praia. A distância muda a forma como vemos o país e as suas celebrações.

Existe depois o voltar do regresso definitivo, que no meu caso provavelmente nunca acontecerá. O ritmo de trabalho e a forma como as coisas funcionam aqui tornariam difícil uma adaptação profissional a Portugal ou à Europa. Além disso, trabalho por conta própria e a ideia de “reforma” não faz parte do meu “dicionário” de vida. Aqui estou e aqui ficarei, procurando sempre continuar, à minha maneira, a contribuir para o futuro de Portugal.