No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Sílvia Renda, Chief Advisor & Head of Government Relations na Australian Financial Complaints Authority e Conselheira da Diáspora Portuguesa na Austrália, partilha um pouco do seu percurso internacional desde que deixou Portugal, aos 16 anos.
1 – O que a levou a sair de Portugal?
Saí de Portugal com apenas 16 anos, acompanhando a minha família imediata que procurava uma vida melhor e novas oportunidades. Vivíamos um tempo em que a mobilidade internacional começava a abrir horizontes, e os meus pais acreditaram que a Austrália poderia oferecer-nos uma educação de qualidade, estabilidade económica e um futuro mais promissor. Apesar da idade jovem, lembro-me bem da mistura de curiosidade, receio e entusiasmo que senti ao embarcar numa nova vida. Foi uma mudança profunda, não só geográfica, mas também emocional — o início de uma jornada que moldou a minha identidade entre dois mundos.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser portuguesa?
Ser portuguesa sempre foi, para mim, uma vantagem. A nossa cultura ensina-nos a ser resilientes, criativos e solidários. A capacidade de adaptação e a empatia que caracterizam o povo português ajudaram-me a integrar-me mais facilmente numa sociedade multicultural como a australiana. Contudo, nem sempre foi fácil. No início, o sotaque e a timidez de quem chega a um país novo fizeram-me sentir diferente. Mas com o tempo percebi que essa diferença era, na verdade, uma força: trouxe-me uma perspetiva única e uma ligação genuína a várias culturas. Hoje, considero o facto de ser portuguesa uma das minhas maiores riquezas pessoais e profissionais.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
A adaptação cultural e linguística foi o primeiro grande desafio. Chegar adolescente a um novo país significou recomeçar tudo — escola, amigos, idioma, hábitos. Tive de aprender a ser flexível, persistente e confiante num ambiente onde tudo era diferente. Mais tarde, no percurso profissional, enfrentei o desafio de construir uma carreira num país competitivo, longe das minhas raízes. Fi-lo apostando na educação, no trabalho árduo e na construção de relações baseadas em respeito e integridade. Aprendi que a confiança e a credibilidade não têm fronteiras: conquistam-se com consistência, humildade e resultados.
4 – O que mais admira no país em que está?
O que mais admiro na Austrália é a forma como este país consegue equilibrar diversidade, oportunidade e qualidade de vida. É um lugar que valoriza o mérito e o esforço individual, mas também o bem comum, o respeito e a empatia. Essa combinação de justiça, humanidade e esperança é algo que me marcou profundamente desde cedo.
Cheguei à Austrália aos 16 anos — uma idade em que tudo é intenso e o mundo parece enorme. E começar uma nova vida num país diferente nunca é fácil. Como qualquer pessoa que emigra, enfrentei desafios: a barreira da língua, a saudade, a adaptação cultural e aquele sentimento de ter de recomeçar do zero. Foram anos de aprendizagem, de encontrar o meu lugar e de construir, passo a passo, uma nova identidade entre duas culturas.
Mas foi precisamente através dessas dificuldades que aprendi o verdadeiro sentido de resiliência e o valor da inclusão. Descobri uma sociedade que, apesar das suas imperfeições, acredita na oportunidade e na justiça — onde o trabalho, o respeito e a dedicação realmente abrem portas. Aos poucos, a Austrália deixou de ser apenas o país onde eu vivia e passou a ser o lugar que me acolheu, me desafiou e me fez crescer.
Socialmente, admiro o espírito aberto e o sentido de comunidade. Há uma valorização genuína da diversidade — pessoas de todo o mundo convivem, colaboram e aprendem juntas. A vida aqui é equilibrada: há espaço para o trabalho, para a família, para a natureza e para a partilha.
Profissionalmente, admiro a cultura de confiança e de “Fair Go”— essa ideia profundamente australiana de que todos merecem uma oportunidade justa. É uma sociedade que encoraja as pessoas a contribuir, inovar e apoiar umas às outras.
Também admiro a maturidade cívica e o envolvimento social que fazem parte da vida australiana. As pessoas participam — interessam-se por temas públicos, acompanham os debates, e têm uma confiança genuína nas instituições. Mesmo com opiniões diferentes, existe um respeito pelo processo democrático e pela ideia de que o diálogo é o caminho para resolver as diferenças.
Hoje, olhando para trás, sinto gratidão por ter crescido num país que me ensinou tanto sobre coragem, empatia e pertença. A Austrália não me deu apenas oportunidades — deu-me também um sentido de propósito e a vontade de retribuir à comunidade que me ajudou a construir a minha vida.
Se pudesse deixar um conselho a quem sonha vir para a Austrália, diria: venha com o coração aberto e preparado para trabalhar, aprender e recomeçar. Haverá desafios — todos os recomeços têm os seus — mas também haverá pessoas generosas, oportunidades inesperadas e uma sociedade que, com o tempo, o fará sentir em casa. A jornada não é fácil, mas vale profundamente a pena.
5 – O que mais admira na empresa / organização em que está?
Trabalho numa organização que tem um papel fundamental na defesa dos consumidores e na promoção da justiça e transparência no setor financeiro australiano. O que mais admiro é o compromisso com os valores humanos — proteger as pessoas, promover a equidade e garantir que as instituições atuem de forma ética. Também valorizo o ambiente inclusivo e diverso, que permite que cada pessoa traga a sua experiência e identidade para a mesa. Sinto orgulho em fazer parte de uma instituição que combina profissionalismo com propósito, e que procura sempre o equilíbrio entre rigor técnico e empatia social.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Portugal tem um talento extraordinário e uma cultura empreendedora em crescimento. A minha recomendação é que continue a apostar na inovação, na internacionalização e nas parcerias estratégicas. Os empresários portugueses devem confiar mais nas suas capacidades e olhar para o mundo sem medo — há espaço para o “Made in Portugal” em muitos setores, desde a tecnologia à economia verde, passando pelo turismo sustentável e pelas indústrias criativas. Também é essencial investir nas pessoas: valorizar o mérito, a diversidade e a colaboração. É isso que transforma boas ideias em impacto duradouro.
7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?
Na Austrália, vejo oportunidades significativas para empresas portuguesas em áreas como as energias renováveis, a tecnologia financeira (fintech), a educação, o turismo e os produtos agroalimentares de qualidade. O consumidor australiano valoriza produtos autênticos, sustentáveis e com história — algo que Portugal tem de sobra. Há também espaço para a cooperação académica e científica, bem como para soluções tecnológicas que apoiem setores como a saúde, a educação e a sustentabilidade.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde está querer investir?
Portugal é um país cada vez mais atrativo para o investimento estrangeiro, sobretudo em energias limpas, tecnologia, imobiliário sustentável e turismo de qualidade. As empresas australianas podem encontrar em Portugal um parceiro estratégico dentro da Europa, com talento qualificado, estabilidade política e uma excelente localização geográfica. Vejo também oportunidades no setor marítimo e portuário, bem como na investigação científica ligada às alterações climáticas e à economia azul.
9 – Qual a vantagem competitiva do país onde está que poderia ser replicada em Portugal?
A Austrália tem uma cultura muito pragmática e orientada para resultados. Investe fortemente na confiança — entre pessoas, empresas e instituições — e isso cria um ecossistema produtivo e transparente. Outra vantagem é o foco na colaboração intersectorial: governo, setor privado e comunidade trabalham juntos para resolver problemas comuns. Este modelo de cooperação, aliado a uma mentalidade aberta à diversidade, poderia ser mais desenvolvido em Portugal, trazendo grandes benefícios económicos e sociais.
10 – Pensa voltar para Portugal? Porquê?
Não penso voltar a viver em Portugal de forma permanente, porque já estou há muitos anos completamente inserida na Austrália. Aqui construí a minha vida, a minha carreira e o meu sentido de pertença. Mas Portugal estará sempre no meu coração. É o lugar das minhas raízes, da minha língua, da minha identidade e das minhas memórias mais profundas. Continuarei sempre ligada ao meu país — seja através da cultura, das pessoas ou dos projetos que promovam a ligação entre Portugal e a Austrália. É essa ponte que procuro manter viva todos os dias.