6 de Outubro de 2026

Entrevista a Pedro Baliza: “País tem os ingredientes para ser muito mais ágil do que é” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Pedro Baliza, Managing Partner da NextBold Capital, partilha um pouco do seu percurso pessoal e profissional pelo Vietname e a sua reflexão sobre o potencial económico de Portugal.

1- O que o levou a sair de Portugal?

Não houve um master plan, mas havia intenção desde cedo. O resto foi timing, contexto e acaso feliz.

Ainda no liceu, já tinha a minha própria empresa. Um gap year a trabalhar numa start-up em Berlim, seguido de uma experiência híbrida de estudo e trabalho na Finlândia, abriu a porta ao Sudeste Asiático. Depois de mais de uma década a investir e a construir billion dollar businesses, em 2024 fundei a NextBold Capital para investir em emerging markets, a partir do Vietname.

É caso para dizer que houve alturas em que saí do empreendedorismo – mas este nunca me saiu do sistema. Talvez o mesmo se aplique à minha relação com Portugal?

2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?

Em termos de vantagens, cultura e educação são as mais visíveis. A cultura portuguesa adapta-se bastante mais à assimilação do que outras culturas europeias, e isso traduz-se numa capacidade natural de entrar em contextos muito diferentes sem fricção. Quanto à educação, Portugal forma pessoas tecnicamente competentes, com uma cultura de responsabilidade e dedicação que é fora de série.

As desvantagens? Prefiro chamar-lhes realidades. Individualmente somos fortes – a diáspora é um símbolo disso. O problema é estrutural: falta-nos a capacidade de clustering e de associação cross-border. Não há ainda um esforço organizado que faça com que portugueses pelo mundo colaborem economicamente – estruturas financeiras, knowledge transfer, flow of capital, objectivos de expansão comuns. Essa fragmentação é o nosso maior handicap coletivo. Há um ditado que resume bem esta situação: um português é um herói em terra alheia e um desgraçado na sua.

3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?

Nenhum que me tenha marcado de forma particular. Tive talvez a sorte e fortuna de encontrar as pessoas certas nos momentos certos – e, em mercados tão diversos como os do Sudeste Asiático, aprendi rapidamente que temos sempre mais em comum do que aquilo que nos separa.

Talvez o único desejo: que tivéssemos voos mais diretos para Lisboa.

4 – O que mais admira no país onde está?

O Vietname passou de uma economia de subsistência a um dos motores mais consistentes da Ásia, em menos de uma geração – não por acidente, mas devido a três fatores críticos.

Primeiro, a cultura de execução. Passa-se menos tempo a discutir o como e o quando, arrisca-se mais, e quando algo não corre bem, o foco é aprender e seguir em frente.

Segundo, a velocidade de decisão. Nas empresas privadas, as decisões tomam-se depressa e o esforço é colocado a operacionalizar e não a deliberar.

Terceiro, a coesão. O Vietname criou uma cultura de unificação suficientemente forte para trazer vietnamitas de segunda e terceira geração de volta ao mercado, ao país, e à cidadania. Este retorno de cérebros e capital tem sido um dínamo de desenvolvimento.

5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?

A NextBold Capital é uma casa de investimento com um modelo operacional e de gestão de risco único na região. Os nossos resultados devem-se a três secret weapons.

Primeiro, a tese. Mais do que olhar para mercados, olhamos para inflection points. O Sudeste Asiático está a viver uma transição sem precedentes: centenas de milhões de pessoas a entrar num nível de rendimento onde, pela primeira vez, podem escolher o que consomem. Nesta região, investimos em empresas a viver momentos de transformação: mudanças de gestão, desinvestimentos, transições de público para privado, ou expansões para mercados regionais.

Segundo, o modelo operacional. A maior parte dos fundos globais investe e monitoriza o que funciona na Europa, mas não tanto no resto do mundo. Conhecer o mercado sem o playbook operacional para ajudar líderes on the ground a crescer e a prevenir más decisões é insuficiente. O nosso approach foi construído exactamente para isso.

Terceiro, a equipa. Recrutamos e treinamos top talent nestes mercados, e é isso que nos permite fazer o que fazemos.

6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?

Nada de novo, apenas um pouco de perspetiva.

Primeiro: pensem em mercados europeus e globais desde o primeiro dia. Não há razão para definir uma estratégia à volta de 10 milhões de pessoas, quando se tem acesso a um mercado de 450 milhões – este acesso é hoje ainda mais fácil com IA. O complexo de país pequeno é o maior inimigo da ambição.

Segundo: construam uma estrutura acionista e de capital diversificada cedo. O capital certo traz network, experiência, e acesso a mercados – não apenas dinheiro.

Terceiro: façam uso da diáspora. Há portugueses em posições relevantes em praticamente todos os mercados do mundo, com vontade genuína de ajudar. Um telefonema de um português expatriado abre portas que anos de esforço diplomático formal não conseguem.

7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?

O Vietname é uma das economias mais abertas do Sudeste Asiático, e há cinco sectores com oportunidade direta para empresas portuguesas.

Na agroindústria, os Países Baixos perceberam isto há décadas e são hoje o maior investidor europeu no sector. O know-how europeu em food processing e sustentabilidade tem procura crescente.

Na saúde, 85% dos dispositivos médicos são importados e a procura cresce mais depressa do que a oferta de qualidade.

No consumer market, uma classe média em explosão, que tem apetite por produtos e serviços de qualidade.

No manufacturing de valor acrescentado, o Vietname posiciona-se como alternativa séria ao China+1.

Nas renováveis, o Vietname passou de 4 MW de capacidade solar em 2015 para mais de 18 GW em 2024, sendo líder destacado da ASEAN. As ambições para 2030 são claras. Para chegar lá, falta capital e tecnologia, onde Portugal tem vantagem.

8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?

Portugal tem um argumento único: acesso simultâneo ao mercado europeu, à CPLP, e a África. Para um investidor asiático com ambições globais, isso é difícil de ignorar.

O imobiliário e turismo premium são o ponto de entrada mais óbvio – uma asset class próxima do que a Ásia está acostumada.

Na logística, o Porto de Sines é o primeiro porto de águas profundas da Europa Atlântica, ligado a mais de 200 portos em 80 países – esta é uma conversa relevante para empresas do SEA que pensam em supply chains globais.

Na tecnologia, Portugal tem talento qualificado, com custos competitivos e acesso ao mercado da EU, como, aliás, a Web Summit ajudou a sinalizar.

Na agroindústria, há interesse crescente de capital asiático em cadeias de valor alimentares europeias de qualidade.

Na educação, instituições como a Nova SBE (a minha alma mater) e a Católica mostraram que há mercado para exportação de educação.

Portugal, num mundo interconectado, tem muito para oferecer. O que falta é contar melhor essa história.

9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?

Primeiro, a cultura de risco e velocidade de decisão. Aqui testa-se, erra-se, corrige-se e avança-se, sem o peso do estigma do fracasso. Portugal tem os ingredientes para ser muito mais ágil do que é.

Segundo, o investimento deliberado em infraestrutura para criar hubs financeiros, de manufacturing e tecnológicos. Portugal tem a posição geográfica e o talento; falta o commitment para criar polos com escala internacional.

Terceiro, a agressividade fiscal para atrair investimento. O Vietname usa incentivos fiscais de forma muito mais direcionada: taxas preferenciais de 10% para sectores prioritários, isenções nos primeiros anos e uma estrutura desenhada para atrair capital externo.

10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?

Por agora, família, amigos, o Glorioso e a seleção nacional mantêm-me perto de “casa”. No futuro, voltar de forma mais regular é o objetivo; de forma mais permanente, talvez esteja menos no horizonte. Mas qualquer que seja o futuro, o objetivo é contribuir para Portugal da melhor forma possível.