13 de Outubro de 2026

Entrevista a Tirso Olazábal: “É importante apostar em mais inovação e especialização” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, a iniciativa dá a conhecer os portugueses que se destacam além-fronteiras, identificando oportunidades de negócio e novas perspetivas para o desenvolvimento económico de Portugal.

1. O que o levou a sair de Portugal?

Saí de Portugal essencialmente por razões profissionais e pela vontade de ter uma experiência verdadeiramente internacional. Procurava um contexto em que pudesse ser exposto a mercados diferentes, a operações transfronteiriças e a formas distintas de fazer negócios. A oportunidade de trabalhar na Ásia, primeiro e ainda com uma forte ligação a Macau e, posteriormente, a partir de Hong Kong, representou um desafio difícil de recusar.

Não encarei a saída como um afastamento de Portugal, mas como uma forma de alargar horizontes e adquirir competências que dificilmente teria desenvolvido permanecendo sempre no mesmo contexto. A Ásia obrigou-me a compreender outras culturas empresariais, outros ritmos de decisão e diferentes enquadramentos jurídicos e financeiros. Ensinou-me igualmente a reconhecer o valor das relações pessoais, da persistência e da confiança na construção de negócios duradouros.

Com o tempo, percebi que viver fora nos torna, muitas vezes, mais conscientes da nossa identidade portuguesa. Continuamos ligados ao país, acompanhamos a sua evolução e identificamos oportunidades para aproximar Portugal dos mercados onde estamos inseridos. É precisamente essa, uma das pontes, que procuro construir na minha atividade profissional.

2. Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?

Ser português foi, globalmente, uma vantagem. Portugal é geralmente associado a uma cultura aberta, cordial e com capacidade de adaptação. Os portugueses têm uma longa tradição de contacto com outras geografias e demonstram uma facilidade muito particular em compreender diferentes sensibilidades culturais. Na Ásia, onde a relação pessoal e a confiança são essenciais, essa capacidade de escutar, adaptar a comunicação e encontrar pontos de entendimento é muito valiosa.

A ligação histórica de Portugal a Macau constitui também um importante fator de diferenciação. Macau mantém um sistema jurídico de matriz portuguesa, utiliza o português como língua oficial e assume uma função de plataforma entre a China e os países de língua portuguesa. Para um advogado português que trabalha em operações envolvendo Macau, Hong Kong, China e Portugal, este património jurídico e cultural representa uma vantagem concreta.

A principal desvantagem será a dimensão limitada do conhecimento sobre o Portugal contemporâneo. Muitas pessoas na Ásia conhecem o país pelo turismo, pelo futebol, pelo vinho ou pela história, mas desconhecem a capacidade portuguesa em áreas como tecnologia, engenharia, energias renováveis, saúde, indústria, serviços financeiros ou investigação. Cabe-nos ultrapassar essa perceção incompleta e apresentar Portugal como um país moderno, sofisticado e capaz de produzir soluções com valor acrescentado.

3. Que obstáculos teve de superar e como o fez?

O primeiro obstáculo foi aprender a trabalhar num ambiente culturalmente muito diferente. Na Ásia, nem sempre aquilo que é dito corresponde à totalidade da mensagem. É necessário interpretar o contexto, compreender os silêncios e perceber que a construção de confiança pode demorar mais tempo do que a negociação formal. Essa aprendizagem exige humildade e disponibilidade para observar antes de concluir.

Outro desafio foi desenvolver uma prática profissional em várias jurisdições, conciliando diferentes sistemas jurídicos, culturas empresariais e expectativas dos clientes. Trabalho em áreas como financiamento, mercado de capitais, imobiliário e investimento, frequentemente em operações com componentes em Hong Kong, Macau, China e Portugal. Isso obriga a uma atualização constante e, acima de tudo, à criação de equipas multidisciplinares capazes de coordenar os vários elementos de uma transação.

Superei esses obstáculos através da persistência, da preparação e da construção gradual de uma rede de relações profissionais. Na Ásia, a reputação não se cria de um dia para o outro. Resulta da consistência, do cumprimento da palavra dada e da capacidade de estar presente quando surgem dificuldades. Aprendi ainda que não devemos tentar impor a nossa maneira de trabalhar. Devemos preservar os nossos valores, mas adaptar a forma como os aplicamos.

4. O que mais admira no país onde está?

O que mais admiro é a extraordinária capacidade de execução. Existe uma cultura de rapidez, pragmatismo e orientação para resultados. As pessoas valorizam o tempo, tomam decisões com agilidade e procuram transformar ideias em iniciativas concretas. Essa atitude é visível tanto nas grandes instituições como nas pequenas e médias empresas.

Admiro também a combinação entre segurança jurídica, liberdade económica, sofisticação financeira e ligação à China continental. No caso de Hong Kong continua a desempenhar um papel importante como centro internacional de negócios, comércio e finanças e como porta de entrada para a Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau. A sua economia é profundamente orientada para os serviços, que representavam 93,6% do PIB em 2024, e mantém posições relevantes nos mercados financeiros, na gestão de patrimónios e nos fluxos internacionais de investimento.

É uma sociedade exigente e competitiva, na qual existe, contudo, a convicção de que o esforço, a qualificação e a iniciativa individual podem gerar oportunidades.

5. O que mais admira na empresa ou organização onde está?

Na MdME, o que mais admiro é a capacidade de combinar conhecimento local com uma perspetiva internacional. O escritório desenvolveu uma posição particularmente diferenciada na ligação entre Macau, Hong Kong, a China continental e os mercados lusófonos, nomeadamente Portugal. Essa combinação permite-nos compreender o contexto económico, institucional e cultural em que os clientes tomam decisões.

Enquanto sócio responsável pelas áreas de Finance e Real Estate e pelo escritório de Hong Kong, tenho a oportunidade de trabalhar com uma equipa multicultural em operações de investimento imobiliário, de financiamento, project finance, mercado de capitais .

Admiro igualmente o espírito empreendedor da organização. A dimensão da firma permite-nos ser ágeis e oferecer uma participação direta dos sócios, mas sem abdicar da sofisticação técnica necessária para operações complexas. Num mercado em permanente evolução, essa proximidade com os clientes e capacidade de adaptação são fundamentais. Mais do que prestar um serviço jurídico isolado, procuramos compreender os objetivos comerciais e contribuir para encontrar soluções executáveis.

6. Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?

Portugal deve ser mais ambicioso na forma como se apresenta no exterior. Temos empresas, talento e conhecimento com qualidade internacional, mas nem sempre comunicamos essa capacidade de forma suficientemente consistente. É necessário passar de uma lógica assente sobretudo na competitividade pelo preço para uma estratégia baseada em inovação, marca, especialização e valor acrescentado.

Aos empresários portugueses recomendaria uma abordagem de longo prazo. A entrada na Ásia não deve ser tratada como uma sucessão de ações comerciais pontuais. Exige presença, parceiros locais, adaptação do produto e investimento continuado na criação de relações. É importante visitar regularmente os mercados, compreender os canais de distribuição e aceitar que a construção de confiança antecede frequentemente os resultados comerciais.

Portugal deve também reduzir a complexidade administrativa e assegurar maior previsibilidade nos processos de licenciamento e investimento. Quem compete pela captação de capital internacional precisa de oferecer rapidez de decisão e estabilidade. Paralelamente, deve aproveitar melhor a diáspora portuguesa. Os portugueses residentes no estrangeiro conhecem os decisores, as práticas locais e os obstáculos à entrada. Essa rede deve ser integrada sistematicamente na estratégia económica externa do país, em articulação com a AICEP, as câmaras de comércio, as embaixadas e as associações empresariais.

7. Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?

Hong Kong é um mercado sofisticado, com consumidores exigentes, elevado poder de compra e grande exposição a marcas internacionais. Vejo oportunidades para as empresas portuguesas nos produtos alimentares de qualidade, vinhos, azeite, peixe, conservas, carne, pastelaria e produtos gourmet. A diferenciação deve basear-se na origem, autenticidade, segurança alimentar, sustentabilidade e capacidade de contar uma história de marca.

Existem igualmente oportunidades no vestuário, calçado, têxteis técnicos, joalharia, relojoaria, cosmética, mobiliário, iluminação, cortiça e materiais de construção. Em 2025, entre as exportações portuguesas para Hong Kong encontravam-se relógios, equipamento elétrico e eletrónico, vestuário, cosmética, máquinas, calçado, produtos farmacêuticos, preparações de carne e pescado, bebidas, cerâmica, cortiça e mobiliário.

Nos serviços, destacaria tecnologia financeira, cibersegurança, inteligência artificial, software empresarial, engenharia, arquitetura, energias limpas, gestão de resíduos, saúde e soluções para cidades inteligentes. Hong Kong deve ser visto não apenas como um mercado final, mas como uma plataforma regional. Uma presença bem estruturada pode facilitar o acesso à Grande Baía e a outros mercados asiáticos. Contudo, as empresas precisam de selecionar cuidadosamente os parceiros, proteger a propriedade intelectual e ajustar a oferta às preferências e requisitos locais.

8. Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?

Portugal pode atrair investidores de Hong Kong em setores nos quais combine ativos de qualidade, conhecimento técnico e acesso ao mercado europeu. O imobiliário continuará a interessar, mas o investimento deverá ser orientado para projetos com uma lógica económica sólida, como habitação, residências para estudantes, hotelaria, logística, parques empresariais, centros de dados e ativos ligados à saúde e aos cuidados continuados.

Vejo também potencial nas energias renováveis, armazenamento de energia, mobilidade elétrica, infraestruturas, indústria avançada, biotecnologia, tecnologias da saúde, inteligência artificial, semicondutores, agritech e economia azul. Portugal dispõe de talento, universidades e centros de investigação que podem sustentar parcerias com empresas e investidores asiáticos. Em 2025, uma delegação de Hong Kong visitou Portugal para aprofundar a colaboração em tecnologia e inovação, incluindo contactos com o Taguspark e a Oeiras Valley Investment Agency, com foco em investimento, intercâmbio empresarial e transferência de tecnologia.

Portugal pode ainda servir como plataforma para investidores que pretendam aceder à União Europeia e aos países de língua portuguesa. Para concretizar esse potencial, é essencial apresentar oportunidades suficientemente estruturadas, com parceiros credíveis, informação financeira clara e processos de decisão previsíveis.

9. Qual a vantagem competitiva do país em que vive que poderia ser replicada em Portugal?

A principal vantagem competitiva que Portugal poderia procurar replicar é a cultura de execução. Em Hong Kong existe uma forte preocupação em reduzir o intervalo entre identificar uma oportunidade, tomar uma decisão e concretizá-la. A rapidez não significa ausência de regras. Significa regras suficientemente claras, processos eficientes e responsabilização de quem decide.

Portugal beneficiaria de uma administração mais orientada para resultados, com prazos efetivos, maior coordenação entre entidades e uma utilização mais profunda de ferramentas digitais. Um investidor aceita que existam exigências ambientais, urbanísticas, fiscais ou regulatórias. O que tem dificuldade em aceitar é não saber quanto tempo demorará uma decisão ou receber interpretações contraditórias de diferentes organismos.

Outra lição de Hong Kong e também de Macau é a sua vocação de plataforma. A cidade construiu vantagens não apenas para servir o mercado local, mas para intermediar capital, comércio, conhecimento e serviços entre várias geografias. Portugal pode assumir uma função semelhante entre a Europa, o Atlântico e o mundo lusófono. Para isso, deve transformar a sua posição geográfica, língua, estabilidade e qualidade de vida numa proposta económica integrada, apoiada por infraestruturas, talento, conectividade e segurança jurídica.

10. Pensa voltar a Portugal? Porquê?

Portugal continua a ser a minha casa e mantenho uma ligação pessoal e profissional muito próxima ao país. Não considero, por isso, a relação em termos de uma escolha definitiva entre Portugal e a Ásia. A minha vida profissional foi construída precisamente na ligação entre geografias, procurando aproximar pessoas, empresas, investidores e instituições.

No contexto da diáspora, apenas uma nota final que a internacionalização não deve ser entendida como uma perda para o país. Quando a diáspora permanece envolvida, partilha conhecimento, cria relações e mobiliza investimento, a saída pode transformar-se num ativo para Portugal.