No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Manuel Maria Correia, Managing Director para a Região Nórdica (Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia) na DXC Technology, partilha um pouco do seu percurso profissional na Suécia e as suas principais recomendações para Portugal.
1- O que o levou a sair de Portugal?
A decisão de sair de Portugal foi muito pessoal. Cheguei a um ponto da minha carreira em que fazia sentido procurar novos desafios. Nessa busca surgiram vários caminhos, mas o mais interessante do ponto de vista profissional foi esta oportunidade, apesar de implicar sair do país e ter um impacto significativo na minha vida pessoal. De qualquer forma, foi a altura certa da minha vida para o fazer, uma vez que, do ponto de vista familiar, os “miúdos” já eram quase todos adultos. Inclusive, um deles, por grande coincidência, já estava na Suécia a estudar!
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?
Eu não colocaria a questão dessa forma. Até hoje não senti que ser português fosse, por si só, uma vantagem ou uma desvantagem. Houve situações em que me foi útil — por exemplo, para me relacionar com alguns clientes onde portugueses também ocupam lugares de destaque — e outras em que nem por isso, nomeadamente quando a língua foi uma barreira. Do ponto de vista da integração na sociedade, não tive qualquer problema. Na verdade, o facto de estarmos na Europa é facilitador: os cidadãos europeus são cada vez menos tratados como “estrangeiros” noutro país da União.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
Os obstáculos foram os normais de quem se muda de país para uma cultura diferente. Como já foi repetidamente dito por muitos, a capacidade de adaptação dos portugueses é, em geral, elevada — e no meu caso não foi exceção. Fui rapidamente aprendendo a integrar-me e a adaptar-me às regras e costumes locais. Tirando alguns obstáculos logísticos iniciais, não tive grandes dificuldades em estabelecer-me. O apoio de uma comunidade portuguesa local, que contactei desde o início, ajudou a superar esses pequenos detalhes. Por outro lado, como viajo bastante na função atual, acabo por não ter uma rotina muito fixa num único sítio. Ainda assim, estabeleci uma base em Estocolmo que me permite desfrutar de outras coisas que gosto quando tenho tempo livre.
4 – O que mais admira no país onde está?
Devo começar por dizer que a Suécia é um país espetacular e que a maioria dos portugueses não faz ideia — tal como eu não fazia — do estilo de vida e da beleza deste país. É, por exemplo, o país do mundo com maior número de ilhas (mais de 200.000!) e onde tudo gira em torno da Natureza, repleta de água. Aliás, a própria Estocolmo resulta de um vasto conjunto de ilhas ligadas entre si.
Depois, duas coisas se destacam: em primeiro lugar, a organização da sociedade e o respeito pelo outro — tudo funciona com base no cumprimento de regras que todos respeitam; em segundo lugar, a ambição e o pensamento em escala de quem cria e gere negócios, o que lhes confere uma capacidade notável para construir empresas globais com forte implantação tanto no mercado local como internacional (IKEA, Ericsson, Volvo, SKF, entre outras).
Estas duas características em conjunto são a base do sucesso da economia sueca — e dos países nórdicos em geral, apesar de serem todos bastante diferentes entre si. Baixo índice de corrupção, respeito mútuo, organização e pensamento em grande, aliados a um elevado nível de escolaridade e educação, que é onde tudo começa.
5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?
Em primeiro lugar, o facto de ser uma empresa verdadeiramente global, o que permite ter experiências profissionais muito diversas e estar exposto a diferentes realidades dentro da mesma organização. Do ponto de vista do desenvolvimento profissional, é extremamente gratificante.
Mas destacaria especialmente a forma como, em cada região ou país, a empresa se adapta à cultura local, absorve esses valores, os combina com os seus próprios e define uma estratégia que é, ao mesmo tempo, de crescimento e ambição, e de impacto positivo na sociedade em que está inserida.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
A principal recomendação seria precisamente que estudassem o modelo sueco e nórdico, para compreenderem como se constroem negócios globais desde a sua génese. Em Portugal, temos tendência para começar pequeno e ir crescendo a partir daí. O problema é que muitos negócios nascem já limitados na sua conceção e são muito difíceis de escalar. Em resumo: começar a “pensar em grande”!
Uma outra recomendação seria pensar em criar negócios onde possamos ser mais produtivos e gerar mais valor. É neste ponto que reside a chave para desbloquear a nossa economia e garantir a sua sustentabilidade futura. Portugal teve muito sucesso nos últimos anos a recuperar de uma crise profunda e a colocar-se “no mapa” em muitas áreas. Mas agora é tempo de olhar para como podemos ser mais produtivos, de forma a pagar melhores salários e, consequentemente, viver melhor como sociedade. Não escondo que é um processo longo — que começa na educação —, mas que é urgente iniciar o quanto antes.
7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?
Eu diria que em todos, uma vez que existem muitas empresas de qualidade em todos os setores, com capacidade global, o que gera oportunidades de parceria com empresas portuguesas nas mais variadas áreas. Se tivesse de destacar um, provavelmente o setor industrial seria o mais relevante.
Mas na ótica de quem quer exportar valor, existem inúmeros serviços que podemos prestar a empresas globais como as que existem na Suécia, sejam eles de pura tecnologia ou especializados por setor. Falta, provavelmente, criar essas pontes. Até hoje, Portugal não tem sido visto como um mercado de conhecimento: exportámos o nosso clima e estilo de vida com sucesso, mas falta dar o próximo passo. E para isso é preciso organização e método — aqui, o nosso típico “desenrascanço” não irá funcionar.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?
Em Portugal somos competitivos em algumas matérias-primas, e esse pode ser um caminho. Teremos sempre um desafio de volume em certos setores, mas na exportação de serviços não há limites, desde que continuemos o nosso trabalho de atração de investimento. A Suécia é, neste momento, um hub tecnológico e de inovação, mas ainda não olha para o mercado português nessa perspetiva — é mais natural virar-se para o leste da Europa. Vejo, por isso, uma enorme oportunidade em ligar estes dois mercados nesta área. Portugal tem feito um trabalho notável na criação de talento tecnológico; agora é o momento de “pensar em grande”, criar recursos que prestem serviços de valor acrescentado e que são cada vez mais necessários em toda a Europa.
9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?
Aqui terei de ser crítico da nossa cultura. Se o nosso país, com as condições naturais que tem, conseguisse que os serviços públicos funcionassem — em particular a justiça e uma fiscalidade atrativa — como na Suécia, teríamos condições para aumentar significativamente o investimento estrangeiro. Quem vem para a Suécia sabe com o que conta: sabe que, se tiver um problema, ele ficará resolvido em semanas — e não em anos, ou nunca —, e sabe exatamente os impostos que vai pagar. Que também são altos, mas com um retorno muito visível para os cidadãos!
10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?
Sim, esse é o plano. Gosto muito de Portugal e esta minha “aventura” é exclusivamente profissional. Um dia hei de regressar para desfrutar da reforma e do nosso belo país.