No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Porrtuguesa e o Jornal de Negócios, Paulo Paiva dos Santos, Fundador e CEO da INVENTIS e QANTARIS e Presidente do Portuguese Business Council in Dubai, partilhou um pouco do seu percurso profissional internacional e a sua visão sobre o potencial económico de Portugal.
1- O que o levou a sair de Portugal?
Depois de mais de duas décadas a construir a Generis, desde o primeiro dia em 2002 até se tornar a maior empresa de genéricos em Portugal, com três unidades fabris entre Portugal e Espanha e um portefólio superior a 500 produtos, chegou o momento natural de procurar um novo desafio depois da venda ao grupo Aurobindo. Não sinto que tenha “saído” de Portugal, sinto que expandi o raio de ação. O Dubai surgiu como porta de entrada natural para os mercados do Golfo, África e Ásia, regiões com enorme procura por capacidade industrial farmacêutica e por know-how regulatório europeu, exatamente a competência que construí ao longo de uma vida profissional dedicada ao setor. Hoje dirijo a INVENTIS e a QANTARIS, com sede dupla em Lisboa e Dubai, e vivo entre as duas geografias com regularidade, o que considero mais uma extensão natural do percurso do que uma rutura com tudo o que comecei a construir em Portugal há mais de trinta anos.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?
A maior vantagem é a credibilidade regulatória europeia: vir de um país com tradição reconhecida na qualidade farmacêutica e no enquadramento da EMA abre portas imediatas em mercados que procuram exatamente esse selo de confiança, sobretudo no Golfo, onde a soberania farmacêutica é hoje prioridade de Estado. A capacidade portuguesa de construir relações de forma próxima, paciente e duradoura também é um trunfo nos negócios nesta região, onde a confiança pessoal pesa tanto, ou mais, do que o próprio contrato. Como desvantagem, Portugal ainda não tem uma marca-país tão reconhecida no Golfo como outras nações europeias com presença histórica mais forte, pelo que é preciso construir reputação caso a caso, projeto a projeto, sem o atalho institucional que outras bandeiras já oferecem automaticamente às suas empresas.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
O maior obstáculo foi sempre regulatório e de escala: construir a Generis a partir do zero, num mercado dominado por multinacionais instaladas há décadas, exigiu investimento contínuo em qualidade e compliance, muito antes de existir volume de vendas que o justificasse financeiramente. No Dubai, o desafio inverteu-se: voltar a aprender, já depois de trinta anos de carreira, enquadramentos regulatórios completamente diferentes, como o MOHAP nos Emirados ou o SFDA na Arábia Saudita, depois de uma vida habituado à lógica europeia. Superei ambos os desafios com o mesmo método de sempre: investir primeiro na estrutura de qualidade e na credibilidade técnica, só depois na vertente comercial, e rodear-me de parceiros locais que conhecem o terreno e os reguladores melhor do que qualquer estudo de mercado conseguiria antecipar.
4 – O que mais admira no país onde está?
A visão de Sua Alteza o Sheikh Mohammed bin Rashid Al Maktoum, Vice-Presidente dos Emirados Árabes Unidos e Governante do Dubai, e de Sua Alteza o Sheikh Mohamed bin Zayed Al Nahyan, Presidente dos Emirados Árabes Unidos, e a resiliência que ambos souberam imprimir ao país, são talvez o que mais me impressiona. Dessa visão nasce depois a velocidade de execução que se sente no dia a dia: os Emirados decidem e implementam em meses aquilo que noutras geografias, incluindo a Europa, demora anos a sair do papel. Há um horizonte de muito longo prazo, como a Dubai Economic Agenda D33 ou a Vision 2040 de Omã, combinado com uma capacidade de execução de muito curto prazo, sem a paralisia burocrática que tantas vezes trava bons projetos noutros lugares. Admiro também a abertura genuína ao talento estrangeiro: chega-se aqui sem rede de contactos histórica e, se o trabalho e a credibilidade forem consistentes, as portas abrem-se com uma rapidez que raramente encontrei noutras geografias onde também trabalhei ao longo da carreira.
5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?
A nossa adaptação a essa visão, e a forma como conseguimos alinhar a cultura de operador industrial da INVENTIS e da QANTARIS com a ambição do país, é o que mais valorizo no dia a dia. Mantemos decisões tomadas a pensar como fabricantes e não em comités, com a mesma disciplina que aprendi a construir desde os primeiros dias da Generis. Como Presidente do Portuguese Business Council Dubai, admiro também a forma como uma rede essencialmente voluntária se tem estruturado para fazer diplomacia económica a sério, organizando iniciativas como a celebração do Dia de Portugal, com delegação de competências de diplomacia económica pelo próprio Embaixador de Portugal, prova de que a diáspora organizada pode ter peso institucional real, e não apenas simbólico.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Portugal deve usar a credibilidade regulatória europeia como passaporte, não como destino final. Há um foco excessivo e compreensível em Espanha, França e nos países lusófonos, e ainda pouco investimento direto e sustentado em mercados como o Golfo, onde a procura por parceiros europeus de confiança é enorme e a concorrência portuguesa continua escassa face a outros países europeus já presentes. Recomendaria rapidez e poder de decisão para avançar, presença direta e continuada no terreno, menos dependência de intermediários e distribuidores, e mais ambição para liderar projetos industriais fora da Europa, não apenas para os exportar à distância. A experiência mostra que quem chega primeiro, decide rápido e atua com seriedade técnica fica, naturalmente, com a melhor posição negocial.
7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?
A indústria farmacêutica e os serviços de CDMO têm procura claramente crescente no Golfo, à medida que países como Omã, a Arábia Saudita e os próprios Emirados avançam de forma determinada nas suas estratégias de soberania farmacêutica e de redução da dependência de importações críticas. Para além da saúde, vejo oportunidade concreta em agroalimentar, energias renováveis, construção e materiais, e em know-how de turismo e hotelaria, áreas onde Portugal tem competência reconhecida internacionalmente e onde o Golfo continua, ano após ano, a importar conhecimento técnico e parceiros fiáveis de longo prazo.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?
Vejo potencial claro em imobiliário, energias renováveis e em capacidade industrial farmacêutica, onde Portugal oferece localização estratégica face ao Atlântico e know-how regulatório europeu a custos ainda muito competitivos face a outras geografias da União Europeia. Logística e portos, dada a posição de Portugal como porta de entrada atlântica para a Europa, e agricultura e agroalimentar, são também setores que despertam interesse crescente de capital do Golfo à procura de diversificação fora da região e de ativos europeus estáveis, com retorno previsível e enquadramento jurídico sólido.
9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?
A capacidade de planeamento estratégico de muito longo prazo, combinada com execução de muito curto prazo. Os Emirados e Omã definem visões a vinte anos, como a própria Vision 2040, e depois traduzem-nas em decisões administrativas concretas que avançam em semanas, não em anos, com objetivos e indicadores claros para cada ministério e agência envolvida. Essa coordenação estreita entre Estado e setor privado, com capacidade real de simplificar processos para quem decide investir e criar emprego, é algo que Portugal poderia replicar sem perder a sua identidade própria, apenas com mais disciplina e velocidade de execução nas decisões já tomadas.
10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?
Não penso o meu percurso em termos de partir ou voltar. Divido o meu tempo entre Portugal e os Emirados com regularidade, em viagens mensais. Vejo o meu papel como o de uma ponte (Qantaris em Árabe significa ponte): levar capacidade industrial e credibilidade portuguesa para o Golfo, e trazer de volta para Portugal oportunidades de investimento, parcerias e visibilidade internacional para os profissionais portugueses que aqui trabalham. Progressivamente passarei mais tempo em Portugal nos próximos anos, à medida que os projetos no Golfo atingirem maturidade operacional e exigirem menos presença direta no terreno do dia a dia.