16 de Junho de 2026

Entrevista a Pedro Ramos: “Portugal precisa de garantir estabilidade de regras” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Pedro Ramos, Fundador e CEO da Somar Capital Management, partilhou um pouco do seu percurso pelos Estados Unidos da América e a sua visão sobre o potencial económico de Portugal.

1- O que o levou a sair de Portugal?

Poucos anos depois de uma adolescência rodeado de vacas, uma serração e pouco livros relidos por mim várias vezes, fui incrivelmente aceite pelo programa de MBA de Harvard. Viria por 18 meses para Cambridge. A namorada, um bom emprego e um carro esperavam pelo meu regresso. Passados 6 meses, a namorada trocou-me por outro, o emprego parecia-me bem aborrecido comparado com o que os meus colegas faziam e as saudades dos USA, inesperadamente, iam aparecendo (último Thanksgiving, perda de acesso a empreendedores de topo e líderes de multinacionais, o otimismo e abertura da cultura americana, a constante reinvenção e sonho com um futuro melhor). Decidi ficar dois anos mais e ver como me sentiria. Ainda aqui estou.

2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?

Num primeiro nível, a grande vantagem foi ter sido aceite pelo programa. Penso que Harvard destinava pelo menos 2 vagas (de 900) do programa a portugueses, e tive a sorte de me considerarem no top 2 desse ano. A humildade, sentido de história, capacidade de me adaptar e desenrascar e espírito de descoberta e desbravar novas fronteiras que fazem parte do espírito português também me ajudaram muito a adaptar aos USA. Disse-me um historiador que na Lusitânia ficaram os povos migratórios e de descobridores da Europa quando migraram para oeste e bateram no Atlântico. Os americanos fizeram a mesma migração para oeste há menos de 200 anos. Esse espírito ainda se mantém vivo nos USA e acho que une muito o ADN dos dois povos.

Depois disso, logisticamente, foram muitas desvantagens. Portugal era desconhecido. O pouco que se sabia de Portugal era mais associado a desporto, cultura e turismo. Para quem queria afirmar-se como um financeiro nas melhores instituições e no mercado mais avançado e competitivo do mundo, isso foi (e continua a ser) um handicap. Por último, a falta de uma diáspora organizada portuguesa (comparada com outras) também não facilitou. Que bom que o Conselho da Diáspora Portuguesa tenha vindo a mudar isso na última década e me ofereça a honra de ajudar nisso.

3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?

No início, o visto foi quase impossível (fruto do 11 de Setembro). Depois, a minha carreira de banca de investimento no BPI em Portugal não foi (nem é) considerada. Para Wall Street, tudo o que seja fora dos nomes principais da praça (Goldman, Morgan Stanley, JP Morgan…) é visto com muita reticência.

Como superar os obstáculos? Numa palavra: performance. Nos inputs: ser o primeiro a chegar e o último a sair; agarrar todas as oportunidades que surgem; ver o trabalho difícil que ninguém quer como uma oportunidade para subir na carreira; ajudar e ser generoso com as pessoas com que trabalhamos, dentro e fora da firma. Nos outputs: como investidor, o resultado quantifica-se todos os anos. A taxa de retorno tem de bater os concorrentes ano após ano. Situação ideal para um outsider como eu.

Num segundo nível, todas essas dificuldades trouxeram vantagens muito importantes, numa fase jovem da minha carreira. Foi-me forçada uma atitude de alta agência. Deixar de ter queixas de outros ou do sistema, de ter pena de si mesmo e arregaçar as mangas, ir provar no terreno a qualidade do trabalho, e que os portugueses podem e devem ter carreiras de sucesso em Wall Street.

4 – O que mais admira no país onde está?

Muitas coisas! Cada uma merecia uma conversa: generosidade, honestidade, cumprimento da lei, profissionalismo, autocrítica, capacidade de reinvenção, apoio a quem se aventura e desbrava terreno, paixão por segundas (e terceiras) oportunidades, espiritualidade e esperança num futuro melhor, foco na inovação, tolerância por experimentação, espírito comunitário, baixa esperança em órgãos públicos para resolver os problemas, e acolhimento de imigrantes como Americanos a 100% e sem asteriscos (algo que não senti em Londres ou em Madrid).

5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?

Primeira (e única?) empresa portuguesa fundada e sediada em Wall Street na área de investimentos. Ainda jovem, mas atrevida e procurando abrir terreno para outras financeiras portuguesas triunfarem em Wall Street.

Também a performance de quartil de topo em cada um dos últimos três anos (e no que vai de 2026), algo muito difícil de se fazer.

Finalmente, o contratar em Portugal e oferecer a talento português as oportunidades com que nem podia sonhar quando me licenciei em Portugal.

6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?

O mercado americano oferece as melhores oportunidades de lucro e a maior concorrência para testar e melhorar o produto. Desenvolver fora deste mercado pode dar bons lucros durante alguns anos, mas serão sempre limitados e vulneráveis à concorrência, no futuro, de melhores empresas que ganharam o mercado americano (ou chinês).

7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?

Todos. Até pasteis de nata estão a crescer. Os Estados Unidos são o maior mercado do mundo, com taxas de crescimento elevadas, e com muita diversidade interna, abrindo lugar para todos que oferecem um produto ou serviço bom e diferenciado. Para as empresas que hesitam por causa de tarifas ou outras fricções geopolíticas, eu tenho duas mensagens: primeiro, as regras aqui são iguais para todos, pelo que os concorrentes estão no mesmo pé de igualdade; depois, abram sucursais aqui e procurem parceiros locais. Contatar a diáspora portuguesa é um bom primeiro passo para a entrada no mercado americano. O prémio vale a pena.

8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?

Com alegria, tenho testemunhado o aumento do investimento americano em Portugal. Há oportunidade para mais: turismo, talento de TI, Centros de Dados.

Com alguma estabilidade estratégica, há ainda oportunidade de atrair investimento americano em empresas de defesa, tecnologia, estaleiros navais (principalmente para guarda costeira e marinha no âmbito da NATO). De notar que muitas das inovações tecnológicas americanas vieram de projetos da defesa (como a internet, exploração espacial, GPS…)

Contudo, Portugal precisa de garantir estabilidade de regras e compromisso. Episódios como a venda da TAP, que depois foi desfeita por novo governo, ou alteração nas regras de cidadania sem proteger quem está a meio do processo, corroem a confiança de empresários e parceiros na geografia de Portugal. Não nos podemos esquecer que há 200 outros países que querem atrair investimento tecnológico americano.

9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?

Evitando áreas em que a diferença de escala dos dois países poderia ser contra-argumento, diria: meritocracia, eficácia e celeridade do processo judicial, literacia financeira e remuneração da poupança (repressão financeira em Portugal), menor carga fiscal, menor burocracia e regulação. Apostar mais nas pessoas e empresas e menos no governo.

10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?

Nunca será preto e branco. Tenho um pé de cada lado e família dos dois lados. Continuarei a lutar para que os países se unam cada vez mais. Tenho contratado pessoas em Portugal e espero contratar mais no futuro, criando mais oportunidades em Portugal. Também espero comprar casa em Portugal. Mas não deixarei de ter base nos USA. A ponte atlântica tem o meu coração e é o meu destino.