No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Wilson Teixeira, Diretor Executivo da Imagis Inc. e Conselheiro da Diáspora Portuguesa no Canadá, partilha o seu percurso internacional e a sua visão sobre o papel de Portugal como plataforma global de negócios.
1. O que o levou a sair de Portugal?
Saí de Portugal muito jovem, aos 17 anos, motivado sobretudo pela procura de oportunidades. Como muitos jovens da minha geração, via no Canadá um país onde o trabalho, o esforço e a iniciativa individual poderiam abrir portas para construir um futuro. Foi uma decisão exigente, porque implicava deixar família, amigos e tudo o que era familiar, mas também foi uma decisão tomada com esperança e ambição.
Sempre tive um espírito empreendedor e uma grande curiosidade em perceber como poderia criar algo próprio. A emigração acabou por ser o primeiro grande passo dessa jornada. Chegar a um novo país obriga-nos a adaptar rapidamente, a trabalhar muito e a encontrar soluções para desafios inesperados. No meu caso, essa experiência moldou profundamente a minha forma de pensar, de trabalhar e de empreender.
2. Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?
Ser português trouxe-me sobretudo vantagens. Portugal tem uma cultura muito forte de relacionamento humano, proximidade e capacidade de adaptação. Os portugueses são trabalhadores, resilientes e têm uma grande facilidade em encontrar soluções em contextos desafiantes.
A ligação à diáspora também cria redes muito fortes entre pessoas e empresas espalhadas pelo mundo. No meu percurso profissional, essa identidade portuguesa ajudou muitas vezes a construir relações de confiança e a promover iniciativas de cooperação entre Portugal, o Canadá e outros mercados.
Naturalmente, existem desafios quando se chega a um país novo e é necessário provar o nosso valor, mas acredito que a determinação e a capacidade de trabalho acabam sempre por falar mais alto.
3. Que obstáculos teve de superar e como o fez?
O maior obstáculo foi começar praticamente do zero num país novo. Cheguei ao Canadá muito jovem e tive de aprender rapidamente a adaptar-me a uma nova cultura e a uma realidade profissional diferente.
Como muitos emigrantes, comecei por trabalhar em várias atividades enquanto construía o meu caminho. Criei uma pequena empresa de limpeza para ajudar a minha mãe e algumas amigas recém-chegadas. Mais tarde, comecei a trabalhar como intérprete e tradutor para ajudar nas despesas da universidade.
Essa atividade acabou por crescer rapidamente e transformou-se numa empresa sólida no setor da tradução e interpretação. Cada desafio foi também uma oportunidade de aprendizagem. O segredo foi manter uma atitude positiva, trabalhar com consistência e procurar transformar cada dificuldade numa oportunidade de crescimento.
4. O que mais admira no país onde está?
Uma das coisas que mais admiro no Canadá é a valorização do mérito, do empreendedorismo e da diversidade. É uma sociedade que incentiva a iniciativa individual, e onde as pessoas são avaliadas sobretudo pela sua capacidade de contribuir e de criar valor.
Admiro também a abertura à inovação e à tecnologia. Existe um ecossistema muito dinâmico de empresas, universidades e centros de investigação que colaboram na criação de novas soluções. Esse ambiente cria oportunidades muito interessantes para quem quer inovar e desenvolver projetos com impacto internacional.
5. O que mais admira na empresa ou organização onde está?
Na Imagis, aquilo que mais admiro é a capacidade de ajudar organizações a evoluir através da tecnologia. Trabalhamos em áreas como inteligência artificial, tecnologia da informação, automação de processos e cibersegurança, sempre com o objetivo de melhorar a eficiência e a segurança das operações dos nossos clientes.
Outro aspeto fundamental é a procura constante de parcerias que acrescentem valor real aos mercados onde atuamos. A Imagis procura construir um verdadeiro ecossistema tecnológico, integrando soluções de diferentes parceiros líderes nas suas áreas.
Um exemplo é a nossa parceria com a Knowledgehook na área da educação digital e a colaboração com a DRUID na área da inteligência artificial conversacional. Estas alianças permitem-nos oferecer soluções inovadoras e proporcionar aos nossos clientes uma experiência tecnológica mais completa e diferenciadora.
6. Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Portugal tem uma oportunidade extraordinária pela sua posição geográfica, cultural e linguística. A nossa ligação ao mundo lusófono e a mercados como o Brasil, combinada com a proximidade à Europa e à América do Norte, coloca-nos numa posição estratégica única.
Acredito que Portugal poderia posicionar-se ainda mais como uma plataforma internacional de negócios, quase como um “Dubai da Europa”, funcionando como ponte económica entre diferentes regiões. Portugal pode ser um verdadeiro elo de ligação entre a Europa, o Brasil, o Mercosul e países como o Canadá.
Temos também uma força de trabalho dinâmica, curiosa e com uma grande capacidade de adaptação. Se combinarmos essas qualidades com inovação, internacionalização e colaboração empresarial, Portugal poderá reforçar muito o seu papel na economia global.
7. Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?
O mercado canadiano oferece oportunidades muito interessantes para empresas portuguesas em vários setores. Os serviços especializados, a engenharia, a tecnologia e os serviços industriais têm uma procura crescente.
Existem também oportunidades em setores emergentes da economia, incluindo áreas relacionadas com defesa, inovação tecnológica e soluções digitais.
Ao mesmo tempo, Portugal continua a destacar-se em setores tradicionais que conquistaram grande reconhecimento internacional. Os vinhos, os produtos agroalimentares, os têxteis e o calçado portugueses continuam a ter forte procura devido à sua qualidade e valor. Estes setores continuam a crescer e a conquistar novos mercados.
8. Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?
Portugal tem vindo a tornar-se cada vez mais atrativo para investimento internacional. Entre os setores que mais despertam interesse destacam-se a tecnologia, a energia, a mineração, o agroalimentar e as áreas ligadas à inovação digital.
O país oferece profissionais qualificados, um ecossistema empresarial dinâmico e uma posição estratégica dentro da União Europeia. Para muitas empresas internacionais, Portugal pode funcionar como uma excelente plataforma para desenvolver operações e aceder ao mercado europeu.
9. Qual a vantagem competitiva do país em que vive que poderia ser replicada em Portugal?
Uma das vantagens competitivas do Canadá é a eficiência institucional e a previsibilidade do ambiente de negócios. Em muitos processos existe menos burocracia administrativa e maior rapidez na tomada de decisões.
As leis laborais procuram equilibrar os interesses das empresas e dos trabalhadores, criando estabilidade no mercado. Outro fator importante é a eficiência do sistema judicial, que tende a resolver processos de forma mais rápida e previsível.
Portugal tem evoluído muito nestas áreas, mas simplificar procedimentos administrativos, reduzir burocracia e aumentar a eficiência do sistema judicial poderia reforçar significativamente a competitividade do país.
10. Pensa voltar a Portugal? Porquê?
Portugal faz sempre parte da minha identidade e da minha história. Embora a minha vida profissional esteja muito ligada ao Canadá, mantenho uma ligação forte ao país e procuro contribuir sempre que possível para aproximar os dois mercados.
Vejo o meu papel também como uma ponte entre Portugal e o Canadá, promovendo oportunidades de investimento, colaboração empresarial e desenvolvimento tecnológico. Acredito que o futuro passa cada vez mais por criar ligações entre países e por construir parcerias que beneficiem ambos os lados.