30 de Janeiro de 2024

Entrevista com João Paulo da Silva, Conselheiro do Núcleo Regional de Espanha, Senior Advisor da KPMG, membro do Advisory Board da SAP e da Prosegur

“Vantagem competitiva vem de uma execução consistente”

Portugueses que se destacam lá fora ajudam a descobrir onde estão oportunidades de negócios e que tipo de empresas e atividades o país pode atrair. Uma iniciativa que junta o Negócios e o Conselho da Diáspora Portuguesa.

1. O QUE O LEVOU A SAIR DE PORTUGAL?

Digamos que as coisas aconteceram de forma gradual: primeiro comecei com funções de liderança internacionais, baseado em Portugal, o que me expôs a novas realidades noutros países. A dada altura, fruto de uma reorganização na empresa onde trabalhava, surgiu a hipótese de ir para Itália e, em família, acabamos por decidir abraçar esse desafio. Penso que há um limite a partir do qual, estar sempre fora de casa, afeta a estabilidade familiar e por isso é preferível mudar toda a família, por forma a que estejamos mais tempo juntos. Depois da experiência em Milão, mudámos para Barcelona, depois para Lisboa e depois Madrid, onde vivemos há já 10 anos.

2. QUE VANTAGENS OU DESVANTAGENS LHE TROUXE O FACTO DE SER PORTUGUÊS?

Eu diria que maioritariamente trouxe desvantagens, pois na altura ter o brand português não aportava à nossa imagem profissional, pelo contrário. Senti principalmente isso em Espanha, França e Alemanha. Na altura, apercebi-me de algum menosprezar por um português ser o chefe, e aqui entra a única vantagem que senti: quem menospreza comete erros, o que por vezes me facilitou a vida para demonstrar valor e acelerar certas decisões ou transformações que tive que liderar.

3. QUE OBSTÁCULOS TEVE DE SUPERAR E COMO O FEZ?

Em primeiro lugar, creio que os obstáculos nos tornam mais fortes e resilientes, tanto a nós, como às nossas famílias. Houve obstáculos familiares – como sentir que erramos na escolha da escola para os nossos filhos num determinado país, ou a preocupação de acompanhar como toda a família se está a adaptar à nova vida – enquanto havia que

estar focado num trabalho novo e exigente. Em termos profissionais também, pois, no meu caso, estava num país (Itália) onde não falava o idioma, não tinha contactos fora da empresa, nem conhecia a Economia. Passados 3 meses, já falava italiano com a equipa e clientes e estávamos todos bem adaptados à cultura local e seus hábitos.

Outro momento mais difícil foi quando estávamos em Barcelona: o meu contrato aí estava a terminar e a Família cresceu de 2 para 4 filhos. Decidimos regressar a Portugal, por termos um pouco mais de ajuda, e eu acabei por assumir novas funções internacionais que me obrigavam a viajar bastante. Alguns anos depois, mudamos todos para Madrid, por forma a estarmos juntos, pois assumi a direção geral de Espanha.

4. O QUE MAIS ADMIRA NO PAÍS EM QUE ESTÁ?

Digamos que Espanha, onde vivemos agora, é um país com vários “países” dentro e com muitas realidades diferentes, o que faz com que o que vemos de bom numa região como Madrid não acontece noutras. Mas posso dizer que admiro o empreendedorismo espanhol e a forma como utilizam o seu tão característico “no pasa nada” para ultrapassar obstáculos e seguir em frente: são excelentes comerciais! Ao contrário do português, que é perfeccionista – algo excelente em termos de fazer coisas com qualidade, mas que discute até à exaustão e não avança nem produz o suficiente.

5. O QUE MAIS ADMIRA NA EMPRESA / ORGANIZAÇÃO EM QUE ESTÁ?

Passei 27 anos na SAP, uma multinacional alemã de software, que acabo de deixar, mantando-me ainda no seu conselho assessor. É a maior empresa tecnológica europeia, e admiro que uma empresa europeia continue a bater o pé aos principais players tecnológicos, que são todos americanos, incluindo em relação à cultura de gestão, que creio ser mais próxima às pessoas. Uma empresa americana nunca teria investido em Portugal e em localizar as suas soluções, como fez a SAP na altura.

6. QUE RECOMENDAÇOES DARIA A PORTUGAL E AOS SEUS EMPRESÁRIOS E GESTORES?

Que os líderes e gestores assumam que são sempre os responsáveis pelo estado das coisas que temos hoje, para o bem ou para o mal. Não entrando no campo das opiniões, mas olhando friamente para os números, vemos que a gestão do país é significativamente melhorável, e que, para isso, é necessário ter políticos e gestores experientes no mercado de trabalho internacional. Há que ter um sistema apartidário que garanta a meritocracia nas contratações em vez colocar os conhecidos “boys for jobs”.

Diria aos empresários e gestores aquilo que aprendi com os que têm maior êxito: que atrair os melhores talentos (com a adequada compensação) e apostar em tecnologia,

lhes tem dado motivos de alegria. Ambição, talento e tecnologia/inovação constantes são os motores para o aumento da produtividade e competitividade global das empresas.

Deixaria também uma mensagem para que as empresas de média e grande dimensão que se internacionalizam apoiem e levem com elas outras empresas fornecedoras portuguesas, algo que os nossos amigos espanhóis fazem muito bem, criando um ecossistema de suporte internacional.

7. EM QUE SETORES DO PAÍS ONDE VIVE PODERÃO AS EMPRESAS PORTUGUESAS ENCONTRAR CLIENTES?

Eu diria que em todos os sectores sem exceção! Uma empresa portuguesa com produtos ou soluções de qualidade, e com capacidade de investir, entra em qualquer mercado.

8. EM QUE SETORES DE PORTUGAL PODERIAM AS EMPRESAS DO PAÍS ONDE VIVE QUERER INVESTIR?

Há dois tipos de negócio de êxito: os de boa margem de lucro e os de grande volume de vendas. Infelizmente, dada a dimensão do nosso país, não há muitas áreas com grande volume. Por isso, há que identificar áreas com boas margens e criar condições atrativas para o investimento estrangeiro. Por exemplo, em Tecnologias de Informação (temos excelentes recursos que vão abandonando Portugal), Energias/Sustentabilidade, Turismo e Hospitalidade, de elevada qualidade (a Europa está a converter-se num enorme museu), Agroindústria e Agricultura Sustentável para consumidores exigentes, Saúde/bem-estar/antienvelhecimento (a população global está a envelhecer), são apenas alguns exemplos.

9. QUAL A VANTAGEM COMPETITIVA DO PAÍS EM QUE VIVE QUE PODERIA SER REPLICADA EM PORTUGAL?

Creio que o correto é olhar para os melhores países no mundo e não para o país vizinho ou onde resido. Os Emiratos Árabes Unidos tem feito um excelente trabalho; têm uma visão e um plano a longo prazo documentado e partilhado com todos os agentes. A vantagem competitiva não vem de rasgos de ideias de um governo A ou B, mas de uma execução consistente, persistente e duradoura no tempo, com os refinamentos necessários à medida do caminho que se está a percorrer. Não há vantagem competitiva que valha, com constantes mudanças de rumo.

10. PENSA VOLTAR PARA PORTUGAL? PORQUÊ?

Claro que penso. Adoraria voltar a Portugal profissionalmente para liderar um projeto que me permita utilizar tudo aquilo que aprendi ao longo de 30 anos de carreira. A escala retributiva não facilita esse caminho no curto prazo, mas o plano está traçado.

Emocionalmente, é sempre com alguma nostalgia que os emigrantes pensam em regressar, pois temos as nossas casas, os nossos amigos, família, cultura, comida, a praia (considero-me algarvio onde vivi a maior parte da minha juventude), etc. É sempre bom estar em Portugal.

No entanto, considero-me um cidadão do mundo e o “voltar a Portugal” não tem que necessariamente significar estar 100% do tempo em Portugal, pois há muitas coisas interessantes noutras geografias.