No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, André Pereira da Silva, Managing Director na Shell Brasil, partilha um pouco do seu percurso internacional e a sua visão sobre o potencial económico de Portugal.
1- O que o levou a sair de Portugal?
A decisão resultou de uma combinação de fatores profissionais e pessoais. Após cerca de 10 anos em energia, banca e consultoria (Galp, Banco de Portugal, KPMG e EDP), procurei um contexto de maior escala e complexidade para continuar a evoluir. O Brasil, e em particular a Shell, oferecem um mercado mais dinâmico e com maior exposição a decisões estratégicas de impacto real, proporcionando uma curva de aprendizagem mais acelerada e maior capacidade de criação de valor. Trata-se também de uma decisão estratégica de carreira, reforçando as opções futuras através da experiência num mercado emergente de grande escala.
Finalmente, houve uma dimensão pessoal relevante: a oportunidade de proporcionar à minha família uma experiência internacional no Brasil, em particular no Rio de Janeiro.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?
A proximidade linguística e cultural permite uma integração rápida e eficaz num país que apesar de ter quadros cada vez mais qualificados, ainda está aberto a perfis igualmente qualificados de fora. A desvantagem, se assim lhe posso chamar, é que no início existe sempre um “período de prova” onde é preciso demonstrar rapidamente credibilidade e entregar resultados balanceados com a dose certa de confiança e humildade.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
A nível pessoal, o principal desafio foi construir uma nova base familiar num contexto internacional, sem a proximidade da rede de apoio de família e amigos. Exigiu de mim e da minha esposa uma grande capacidade de adaptação para criar novas rotinas, garantir estabilidade e construir um novo equilíbrio, o que acabámos por fazer através de disciplina, planeamento e uma forte complementaridade entre ambos. No plano profissional, o maior desafio passou pela comunicação. Apesar da língua comum, a adaptação ao contexto local – nomeadamente, sotaque, ritmo e dinâmica dos interlocutores – exigiu um esforço consciente para garantir clareza, assertividade e consistência da mensagem em diferentes contextos. Com o tempo, fui ajustando o estilo de comunicação, tornando-o mais direto e adaptado.
4 – O que mais admira no país onde está?
Admiro, acima de tudo, a capacidade de execução e resiliência do Brasil. É um país com um elevado grau de complexidade, seja ao nível logístico, regulatório ou estrutural. Ainda assim, caracteriza-se por uma forte capacidade de adaptação e entrega, muitas vezes através de soluções criativas e pragmáticas.
Valorizo também a dimensão humana: a abertura, a facilidade em estabelecer relações e a predisposição para colaborar, que acabam por ser fatores críticos na resolução de problemas e na aceleração de projetos.
No setor energético, destaco ainda o enorme potencial do país, tanto no óleo e gás (pela sofisticação técnica das operações offshore), como na abundância de recursos energéticos, onde existe uma clara oportunidade para inovação, crescimento e posicionamento global.
5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?
Admiro, acima de tudo, a forte cultura de segurança e a ambição contínua de entregar resultados de excelência, assentes numa base cultural sólida, mesmo em contextos de elevada complexidade e mudança. Num grupo global como a Shell, destaca-se a combinação entre exigência de performance e qualidade técnica, com foco em disciplina de decisão e execução. Simultaneamente, uma cultura que valoriza diversidade de perspetivas, colaboração e aprendizagem contínua. Existe um equilíbrio claro entre “what we deliver” e “how we deliver”, que se traduz numa verdadeira cultura de responsabilidade e integridade. Pessoalmente, valorizo também o enfoque no desenvolvimento de talento, com uma aposta consistente em capacitar as pessoas, promover liderança inclusiva e criar condições para que cada um possa atingir o seu potencial.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Portugal tem condições muito sólidas (estabilidade, talento e acesso a mercados), mas continua a enfrentar desafios estruturais ao nível da escala, produtividade e competitividade. São temas complexos e de resolução gradual, mas o caminho passa, na minha perspetiva, por quatro eixos fundamentais: (1) Definir prioridades estratégicas claras e reforçar a colaboração público‑privada, alinhando incentivos, capital e talento; (2) Promover escala empresarial, criando empresas com dimensão e ambição para competir em mercados globais; (3) Transformar inovação em valor económico, garantindo que o conhecimento e a tecnologia geram impacto real no tecido empresarial; (4) Reduzir fricção e burocracia, simplificando processos e acelerando a tomada de decisão nos organismos públicos.
7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?
As empresas portuguesas encontram oportunidades no Brasil, em função da sua escala, capacidades e posicionamento competitivo. As multinacionais atuam em setores estruturais e intensivos em capital estrangeiro, o que permite capturar valor à escala (por exemplo: em energia e em infraestruturas). O sucesso nestes segmentos assenta em capacidade financeira, tecnologia e presença sustentada de longo prazo. As Pequenas e Médias Empresas (PMEs), focam-se em nichos e diferenciação, com destaque para o agroalimentar (por exemplo: produtores e marcas de vinho e azeite português) e para serviços ligados ao comércio. Competem sobretudo pela qualidade, marca e especialização, num mercado amplo, mas altamente concorrencial.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?
O Brasil vê Portugal como uma plataforma estratégica de entrada na Europa, suportada por estabilidade institucional, acesso ao mercado europeu e utilização do euro, reduzindo risco cambial e aumentando previsibilidade. Neste contexto, destacam-se modelos assentes em diferenciação, escala digital e eficiência operacional: (1) Fintechs (ex. Nubank, PagSeguro, PicPay), com capacidade comprovada de escalar serviços com tecnologia, baixo custo e forte foco no cliente; (2) Tecnologia e serviços digitais de elevada maturidade em modelos data-driven e plataformas flexíveis, replicáveis em mercados mais avançados; (3) Healthtech / saúde privada, com evolução para modelos digitais integrados, com telemedicina e uso intensivo de dados, melhorando acesso, eficiência e qualidade.
9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?
A vantagem competitiva do Brasil está na escala combinada com agilidade: um mercado grande que permite testar e escalar soluções, e uma cultura empresarial que privilegia rapidez de decisão, adaptação e experimentação. Portugal dificilmente replicará a escala, mas pode capturar valor ao adaptar este modelo: (1) Criar ecossistemas orientados à exportação (ex: hubs tecnológicos e centros de serviços); (2) Reduzir fricção administrativa e acelerar decisões; e (3) Reforçar colaboração público‑privada com objetivos claros.
10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?
No curto/médio prazo, não prevejo regressar a Portugal, sobretudo porque o Brasil é hoje a nossa casa. Foi aqui que as nossas filhas nasceram/cresceram, e onde estou inserido num contexto profissional altamente estimulante. Mantenho, no entanto, essa possibilidade em aberto por razões familiares e de ciclo de vida. Se e quando regressar, gostaria que fosse por um projeto com relevância estratégica, que permita continuar a criar valor nas áreas de energia, investimento ou desenvolvimento de negócios.