No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, André Pinto, Managing Director e Senior Partner da Boston Consulting Group (BCG), onde lidera a prática de Energia no Brasil, e membro do Conselho da Diáspora Portuguesa, partilha um percurso internacional marcado pela vontade de conhecer o mundo e crescer profissionalmente fora de Portugal. Na entrevista, destaca as qualidades dos portugueses em contextos internacionais, nomeadamente a solidez técnica, a flexibilidade e a capacidade de criar relações de confiança. Admira no Brasil a energia, a escala e o papel de destaque na transição energética. Defende que Portugal pode assumir um papel estratégico como ponte entre o Brasil e a Europa, aproveitando as afinidades históricas e culturais para reforçar o investimento, a cooperação económica e a internacionalização das empresas.
1 – O que o levou a sair de Portugal?
Saí de Portugal com vontade de crescer e de conhecer o mundo. Desde cedo, procurei experiências que me tirassem da zona de conforto. A primeira foi na Suécia, através da Tetra Pak, onde tive contacto com um ambiente muito exigente e estruturado. Mais tarde, decidi fazer o MBA em Barcelona, no IESE, não apenas para complementar a minha formação em Engenharia com Finanças e Gestão, mas também porque a minha esposa, Elena, é espanhola — e Barcelona tornou-se o ponto natural de encontro entre a vida pessoal e profissional. Depois vieram o Chile e o Brasil, sempre com a curiosidade de aprender e de construir algo relevante em cada lugar. Estas quatro geografias moldaram profundamente a minha forma de ver o mundo e de liderar. Já faz mais de vinte anos que saí de Portugal, mas Portugal nunca saiu de mim.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?
Ser português tem-me trazido sobretudo vantagens. Temos uma combinação de solidez técnica, flexibilidade e empatia que nos torna eficazes em contextos multiculturais. O facto de sermos bons ouvintes e de sabermos adaptar-nos é uma marca distintiva. Além disso, os portugueses são vistos de forma muito positiva em quase todo o mundo — o que é uma enorme vantagem. Somos um país pequeno em dimensão, mas com grandes feitos históricos e uma reputação sólida construída ao longo de séculos de abertura ao mundo. Essa herança de curiosidade, coragem e capacidade de adaptação permanece viva na forma como trabalhamos e nos relacionamos. A nossa aptidão para o diálogo e a visão construtiva ajudam a criar pontes e a gerar confiança — algo essencial na liderança internacional.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
Os maiores desafios foram sempre os da adaptação cultural e pessoal — compreender o contexto e definir de que forma posso contribuir para criar valor em cada nova situação. Trabalhar e liderar equipas em Portugal, Suécia, Espanha, Chile e Brasil exige compreender motivações, estilos e ritmos muito diferentes. É preciso saber ouvir, ajustar e inspirar de formas distintas. Ao mesmo tempo, há o lado familiar: mudar de país implica reconstruir rotinas, redes e estabilidade. Nesse aspeto, tenho tido um apoio incondicional da Elena e dos nossos três filhos, que me acompanharam em cada etapa desta jornada.
Essa base familiar sólida tem sido fundamental para manter o equilíbrio e a motivação ao longo do caminho.
4 – O que mais admira no país em que está?
O Brasil tem uma energia única. É um país vibrante, criativo e com uma enorme capacidade de se reinventar. Liderar a prática de Energia da BCG aqui é um privilégio — o país é um verdadeiro laboratório global da transição energética. A diversidade da matriz energética brasileira é impressionante, e a bioenergia, em particular, é um exemplo notável de como o potencial agrícola pode ser motor de sustentabilidade. O Brasil combina escala, talento e vontade de concretizar — e isso torna este mercado fascinante para quem trabalha em transformação e desenvolvimento.
5 – O que mais admira na empresa/organização em que está?
O que mais admiro na BCG é a busca permanente pela resposta certa. A combinação de rigor analítico com empatia e proximidade com os clientes é o que nos torna diferentes. A BCG não é apenas uma consultora estratégica — é um catalisador de mudança.
Trabalhamos para que os nossos clientes alcancem vantagem competitiva e resultados tangíveis, ajudando-os a enfrentar transições complexas com ambição e clareza. Mas o que realmente distingue a BCG são as pessoas. É um lugar de profissionais extraordinários, em termos de competência, compromisso e valores. Trabalhar com pessoas desse calibre é, todos os dias, uma fonte de inspiração e de aprendizagem constante.
6– Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Portugal tem uma oportunidade única de se afirmar como a porta de entrada natural do Brasil na Europa — e, ao mesmo tempo, como a via de acesso das melhores ideias europeias ao mercado brasileiro. Temos afinidades culturais e históricas que nos colocam numa posição privilegiada para desempenhar esse papel de ponte entre duas economias complementares. Portugal pode ajudar a traduzir os riscos e a complexidade do mercado brasileiro numa linguagem compreensível e apelativa para investidores internacionais, facilitando parcerias e fluxos de capital. Ao mesmo tempo, o Brasil é um mercado praticamente sem limites para os portugueses que tragam modelos de negócio sólidos, diferenciados e escaláveis. Há um potencial enorme em transformar essa relação histórica numa verdadeira alavanca económica de futuro.
7 – Em que setores do país onde vive poderão as empresas portuguesas encontrar clientes?
Portugal pode encontrar clientes e parceiros no Brasil sobretudo em negócios onde tenha vantagem tecnológica; mas as grandes oportunidades estão em entender as vantagens competitivas das empresas portuguesas e como estas se enquadram na realidade brasileira, investindo sempre com uma perspetiva de longo prazo. O Brasil é um mercado de enorme escala e diversidade, mas é também mais volátil do que o europeu, o que reforça a importância de estratégias consistentes, visão e paciência.
Sectores como o agrícola e agroindustrial, as energias renováveis, a sustentabilidade e o sector do petróleo e gás continuam a oferecer amplo espaço para cooperação, sobretudo quando combinam tecnologia, eficiência e conhecimento local. As empresas portuguesas que chegam com propostas sólidas, capacidade de adaptação e parceiros de confiança conseguem conquistar o seu espaço. O Brasil valoriza e recompensa relacionamentos duradouros e consistência — quem aposta com visão, paciência e credibilidade tende a colher resultados sustentáveis.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde está querer investir?
O Brasil tem uma escala e um dinamismo que lhe permitiram destacar-se em vários sectores com relevância global. Vejo espaço para empresas brasileiras expandirem-se para a Europa — e para Portugal em particular — em áreas como a banca digital, o sector mineiro, a energia renovável e a logística. São sectores em que o Brasil desenvolveu competências diferenciadas e onde as suas empresas poderiam ganhar vantagem competitiva ao estabelecer uma presença europeia mais próxima e estruturada.
Portugal, pela sua posição geográfica, estabilidade institucional e talento qualificado, pode ser o ponto de entrada natural para essa expansão. Além disso, o país oferece um ambiente favorável à inovação e uma ligação estratégica tanto à União Europeia como à Lusofonia. Essa combinação cria uma oportunidade única para empresas brasileiras que procurem diversificar mercados, aproximar-se de ecossistemas tecnológicos e reforçar a sua presença global com uma base sólida e competitiva.
9 – Qual a vantagem competitiva do país em que está que poderia ser replicada em Portugal?
O Brasil distingue-se pela agilidade e pela capacidade de execução em contextos de ambiguidade. É um país que não espera que tudo esteja perfeito para agir —
experimenta, ajusta e avança. Essa atitude resulta de um ambiente competitivo e, muitas vezes, imprevisível, que obriga a encontrar soluções rápidas e criativas. A escala do mercado e a diversidade cultural reforçam essa mentalidade prática e empreendedora, em que a inovação surge mais da necessidade do que do planeamento.
Portugal poderia beneficiar muito dessa abordagem. Ser mais rápido a testar, menos avesso ao risco e mais colaborativo entre sectores permitiria acelerar a inovação e a tomada de decisão. A combinação da disciplina e do método europeus com a energia e a adaptabilidade brasileiras seria um modelo de competitividade muito poderoso — e uma inspiração para enfrentar os desafios de transformação que o futuro trará.
10 – Pensa voltar para Portugal? Porquê?
Já vivo fora de Portugal há mais de vinte anos e, desses, treze foram passados no Brasil — um país que, entretanto, se tornou parte da nossa vida. Foi aqui que a nossa família cresceu, que criámos uma rede de amigos e que encontrei um propósito profissional ligado à transformação do sector energético. O Brasil ensinou-me muito sobre escala, diversidade e resiliência, e é hoje uma segunda casa.
O futuro, contudo, poderá vir a dividir-se entre estas duas geografias: uma perna no Brasil e outra na Península Ibérica. Não é algo decidido, nem temos a certeza de como será, mas é uma possibilidade natural depois de tantos anos fora. A vida familiar e profissional foi-se desenhando entre os dois lados do Atlântico, e isso reflete bem a forma como vemos o futuro — conectado e aberto a diferentes caminhos. Portugal será sempre casa — e, se um dia regressar, será para continuar a construir pontes, levando connosco tudo o que aprendemos desta experiência global.