No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Manuela Abreu, Managing Director na OnBoard Advisory e Administradora Não Executiva de fundos de investimento no Luxemburgo e empresas operativas em Portugal, partilha um pouco do seu percurso internacional e a sua visão sobre o potencial económico de Portugal.
1 — O que a levou a sair de Portugal?
Desde muito cedo, soube que queria trabalhar além-fronteiras — com outras nacionalidades, noutras línguas, em ambientes profissionais diferentes do que conhecia. Não foi uma fuga de Portugal, foi uma atração pelo mundo. Havia em mim uma curiosidade genuína sobre outras formas de trabalhar, de pensar e de resolver problemas, e percebi que essa curiosidade só se satisfazia saindo de Portugal. O Luxemburgo deu-me exactamente isso: um ambiente verdadeiramente internacional, exigente e estimulante, onde cresci tanto como profissional como pessoa.
2 — Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser portuguesa?
Sempre vantagens. Ser portuguesa ensinou-me o valor do trabalho e da resiliência — crescemos habituados a fazer mais com menos. Isso deu-me uma capacidade natural de adaptação a diferentes culturas e formas de trabalhar, o que no contexto internacional é uma mais-valia enorme. E talvez o mais importante: desenvolveu em mim uma sensibilidade genuína para a diferença — para perceber que há sempre mais do que uma forma válida de fazer as coisas.
3 — Que obstáculos teve de superar e como o fez?
Com trabalho, dedicação e muita resiliência — um dia de cada vez. Não é fácil quebrar o glass ceiling, nem desconstruir estereótipos, sobretudo quando se é mulher, portuguesa, numa indústria dominada por outros perfis. Mas aprendi que a melhor resposta a quem duvida é a consistência: aparecer todos os dias, entregar resultados e não pedir licença para ocupar o espaço.
4 — O que mais admira no país onde está?
O Luxemburgo é um país que vive os valores europeus não como retórica, mas como prática quotidiana. É uma sociedade genuinamente multicultural — cerca de metade da população é estrangeira — onde a diversidade não é um slogan, é simplesmente a realidade de todos os dias. Isso cria um ambiente de abertura e tolerância onde visões extremistas têm muito pouco espaço para crescer. E depois há uma maturidade na forma como o país pensa o futuro: com uma visão de longo prazo, estável e consistente, que inspira confiança — tanto a quem vive lá, como a quem investe.
5 — O que mais admira na empresa ou organização onde está?
Enquanto administradora não executiva, os meus ‘clientes’ são grandes empresas do setor financeiro — gestores de fundos de investimento e empresas operativas com uma expressão verdadeiramente internacional. É um universo exigente, e é precisamente isso que me inspira.
O que mais admiro em quem trabalha neste setor — nos meus clientes e nos meus colegas de conselho de administração — é a combinação de três coisas que raramente andam juntas ao mesmo nível: um profissionalismo absoluto, um conhecimento profundo da indústria, e uma ética de trabalho irrepreensível. A tudo isso acresce algo que, vindo de contextos tão diferentes, me toca de forma especial: um respeito genuíno por outras culturas e formas de pensar. Num mundo cada vez mais fragmentado, esse respeito não é um detalhe, é uma vantagem competitiva.
6 — Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
A minha principal recomendação é: sejam corajosos. Arrisquem mais, inovem com consistência e, sobretudo, mudem a relação que têm com o fracasso — falhar não é o oposto do sucesso, é parte do caminho. As economias que mais crescem são as que normalizaram o erro como aprendizagem.
Acreditem também mais em vocês próprios e nas vossas empresas. Portugal tem talento, tem capacidade de trabalho e tem uma projeção internacional que muitas vezes subestimamos. O mundo conhece-nos melhor do que nós nos conhecemos a nós próprios.
E por fim: deixem os vossos sonhos serem maiores do que as fronteiras portuguesas. O mercado português é um ponto de partida, não um limite.
7 — Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?
O Luxemburgo é a segunda plataforma de fundos de investimento no Mundo, apenas atrás dos Estados Unidos, e isso cria oportunidades reais para empresas portuguesas. Na área financeira, há um mercado muito recetivo e exigente para serviços de consultoria, auditoria e compliance — e sobretudo para empresas de Fintech, nas áreas de pagamentos digitais, blockchain e plataformas de investimento. É um ecossistema que valoriza inovação e rigor em simultâneo, e as empresas portuguesas têm capacidade para responder a esse perfil.
Mas não é só nas finanças. O Fórum Empresarial Luxemburgo-Portugal identificou a Construção Sustentável como uma das três grandes áreas de oportunidade bilateral — e isso engloba arquitetura, engenharia, construção e materiais. O Luxemburgo tem ambições muito sérias em termos de sustentabilidade e está disposto a pagar pela qualidade. É uma janela de oportunidade que as empresas portuguesas do setor não devem ignorar.
8 — Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?
Portugal oferece às empresas luxemburguesas um terreno verdadeiramente fértil — e em setores muito diversos. Na tecnologia, há oportunidades reais em software e serviços de TI, num mercado com talento qualificado e custos competitivos. E nas áreas da saúde e sustentabilidade — tecnologias da saúde, energias renováveis e construção sustentável — o país está a crescer com consistência e ambição.
O turismo e o imobiliário continuam a ser destinos naturais para o investimento estrangeiro, com uma procura que não dá sinais de abrandar. Mas talvez o argumento mais diferenciador seja outro: Portugal tem um ecossistema de start-ups em franca expansão e uma posição estratégica única como porta de entrada para os mercados lusófonos — um universo de mais de 250 milhões de pessoas.
É esse conjunto de fatores que, a meu ver, torna Portugal numa das apostas mais atrativas da Europa para o investimento estrangeiro.
9 — Qual a vantagem competitiva do país em que vive que poderia ser replicada em Portugal?
A principal vantagem competitiva do Luxemburgo que Portugal poderia — e deveria — replicar é a previsibilidade. O Luxemburgo construiu ao longo de décadas uma reputação internacional assente em regras claras, coerentes e duradouras, numa administração pública altamente profissionalizada e num diálogo permanente entre o regulador, o governo e o setor privado. O resultado é um ambiente onde o investidor sabe o que esperar — e isso, para o investimento de longo prazo, vale tanto como qualquer incentivo fiscal.
Portugal tem os ingredientes. O que por vezes falta é a consistência das instituições públicas. Um ambiente regulatório mais pragmático, mais parceiro e mais responsivo — à imagem do que o Luxemburgo construiu no setor financeiro, sendo pioneiro na implementação de regulamentos europeus sempre pela via mais favorável ao investimento — seria transformador para a nossa economia.
Mas há uma vantagem que Portugal tem e o Luxemburgo nunca terá: a geografia e a história. Portugal ocupa uma posição única — assente no continente europeu, banhado pelo Atlântico, virado para as Américas (do Sul e do Norte) a oeste e para África a sul. Não é apenas uma questão de localização no mapa. É uma relação histórica, cultural e linguística com esses continentes que levou séculos a construir e que nenhum outro país europeu consegue replicar. Essa é, talvez, a vantagem competitiva mais genuína e inimitável que Portugal tem — e que ainda está longe de ser totalmente aproveitada.
10 — Pensa voltar a Portugal? Porquê?
“Todos os dias” — é a resposta que dou sempre que me fazem esta pergunta. Portugal é o meu “coração”, o Luxemburgo é a minha “cabeça”. E, por agora, preciso dos dois.
Sei que o meu caminho no Luxemburgo está longe de estar terminado. Mas sinto, cada vez mais, uma vontade de me aproximar de Portugal — não só emocionalmente, mas profissionalmente. Quero trabalhar mais com empresas e projetos portugueses, contribuir com o que aprendi e com a rede que construí, porque acredito genuinamente que tenho algo a dar ao meu país.
O regresso não é uma questão de ‘se’ — é uma questão de ‘quando’.