4 de Novembro de 2026

Entrevista a Bárbara Matias: “Empresários pecam por excesso de modéstica” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, esta iniciativa dá a conhecer o percurso internacional de Bárbara Matias, destacando a sua experiência na diplomacia da União Europeia e o seu percurso profissional em diferentes contextos internacionais, bem como as oportunidades de negócio entre Portugal e a Jamaica, nomeadamente nos setores agroalimentar, do turismo e das indústrias culturais.

1- O que a levou a sair de Portugal?

Sempre tive interesse por uma carreira com uma forte componente internacional. Queria conhecer outros contextos, explorar novos horizontes e, sobretudo, testar as minhas capacidades numa plataforma global. Sair de Portugal foi, por isso, menos uma decisão de “partir” e mais uma vontade de descobrir o que conseguia fazer fora do meu contexto habitual. Sempre gostei particularmente da ideia de estar em ambientes onde é preciso adaptar-nos rapidamente, lidar com diferentes culturas e formas de trabalhar e aprender com pessoas com vivências diferentes das nossas. Acho que viver fora também nos obriga a sair da nossa zona de conforto: temos de construir novas redes, aprender a funcionar em contextos que nem sempre dominamos e, muitas vezes, encontrar soluções para desafios inesperados. Ao longo do tempo, percebi que é precisamente essa combinação entre desafio, aprendizagem e contacto com diferentes realidades que mais me motiva.

2- Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser portuguesa?

Vejo uma grande vantagem em ser portuguesa no exterior: os portugueses que encontro fora são, em regra, extremamente capazes, trabalhadores e disponíveis a ajudar. As redes de portugueses no mundo estão também, finalmente e felizmente, a crescer, e isso é extremamente valioso. Um contacto mais informal pode abrir uma porta, responder a uma pergunta ou simplesmente tornar uma adaptação mais fácil.

Se tivesse de apontar uma desvantagem, diria que ser de um país relativamente pequeno significa, por vezes, chegarmos a determinados contextos internacionais com menos presença que outras nacionalidades. Em alguns dos países onde vivi, havia comunidades de outras nacionalidades já bem organizadas, o que naturalmente facilitava a criação de contactos e a adaptação inicial. Ao mesmo tempo, essa realidade acabou por ter um efeito positivo: obrigou-me a ser mais autónoma, a aceitar convites e a ter mais iniciativa.

3- Que obstáculos teve de superar e como o fez?

Um dos desafios foi precisamente essa ausência de uma vasta, ou já bem-estabelecida, rede local de portugueses, em comparação com de outras nacionalidades. Significa termos de construir a nossa própria rede do zero. Há também obstáculos muito mais prosaicos: quando se vive longe, regressar a casa nem sempre é simples. Por exemplo, entre o Kosovo e Portugal, e agora entre a Jamaica e Portugal, as ligações aéreas podem tornar uma viagem aparentemente fácil numa autêntica operação logística. Também faz parte da experiência de viver fora: aprendemos a ser mais adaptáveis.

4- O que mais admira no país onde está?

A Jamaica é um país exposto a muitas vulnerabilidades, nomeadamente desastres naturais. No entanto, é inspirador ver como essa realidade coexiste com uma enorme capacidade de renascer. Há uma jovialidade, uma energia e uma atitude positiva perante a vida que se sente no quotidiano. Mesmo depois de momentos muito difíceis, como o Furacão Melissa o ano passado, existe uma vontade de reconstruir, de seguir em frente e de voltar a celebrar. Isso diz muito sobre a resiliência do país e das suas pessoas. E há, claro, também uma enorme riqueza cultural: música, gastronomia, arte, desporto. É um país com uma identidade muito forte e com uma capacidade extraordinária de se projetar culturalmente para além das suas barreiras como ilha.

5- O que mais admira na empresa ou organização onde está?

Devo – devemos – muito à União Europeia e ao projeto europeu. Não tomo por garantido as condições em que cresci e as oportunidades que tive por ser cidadã da UE. O Erasmus, por exemplo, foi uma experiência transformadora, tal como a possibilidade de ter estudado e trabalhado em diferentes países europeus sem as limitações que existiriam noutros contextos. Atualmente, trabalhando para a diplomacia da União Europeia, admiro particularmente a forma como apoiamos países parceiros na concretização de objetivos de desenvolvimento e na prossecução das suas ambições políticas. A UE não é apenas um espaço económico, é uma comunidade baseada em princípios, regras e direitos. Poder trabalhar com este sentido de missão é algo indiscritível.

6- Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?

Faria uma recomendação muito simples: sair da zona de conforto e criar relações. Fazer contactos, explorar redes, e procurar perceber outros mercados. Portugal tem empresas e profissionais excelentes, mas, por vezes, quase diria que pecamos por excesso de modéstia na forma como nos apresentamos. Estar fora ensinou-me que o conhecimento e contactos multiplicam-se quando ativados, partilhados. E que, para acionar uma oportunidade, muitas vezes é preciso primeiro ter a curiosidade de fazer a pergunta certa. Muitas oportunidades começam com uma conversa que, à partida, parece não ter uma finalidade concreta.

7- Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?

A Jamaica é um mercado que merece ser muito mais explorado pelas empresas portuguesas. Existe uma tendência para olhar para as Caraíbas como um conjunto de mercados muito pequenos e com pouca capacidade económica. A Jamaica é diferente: tem peso regional, uma economia diversificada e uma posição relevante na região. Vejo oportunidades, por exemplo, no sector agroalimentar, na alimentação e bebidas, e no turismo. Há produtos portugueses que poderiam encontrar aqui um espaço interessante.

8- Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?

A música e a indústria cultural são talvez os exemplos mais imediatos. A Jamaica usufrui de uma presença cultural extraordinária e uma capacidade de transformar criatividade em identidade e atividade económica. A gastronomia é outra área interessante: Portugal tem uma tradição alimentar muito rica e uma cultura gastronómica que pode ser atrativa para o mercado jamaicano.

9- Qual a vantagem competitiva do país em que vive que poderia ser replicada em Portugal?

Diria que é o outlook positivo e a resiliência. Como referi, a Jamaica mantém uma capacidade muito particular de seguir em frente apesar da suscetibilidade de desastres naturais. Esta atitude perante a adversidade é uma vantagem notória, que se reflete em termos económicos e sociais. Portugal tem igualmente uma enorme capacidade de adaptação, mas talvez possamos aprender com esta forma jamaicana de combinar resiliência com otimismo, e com uma grande capacidade de celebrar a vida.

10- Pensa voltar a Portugal? Porquê?

Sim, adorava voltar. Portugal continua a ser casa. No entanto, neste momento, estou focada em prosseguir a minha carreira internacional com diplomata da UE. Gostaria, sim, de regressar, mas disfrutar de uma vida reformada espetacular ao lado do meu marido. No fundo, sinto que viver fora muda a nossa relação com o país de origem. Passamos a apreciar melhor aquilo que temos e também aquilo que podemos trazer connosco das experiências que vivemos por fora.