No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Elisabete Ramalho, Industry Leader na Google, partilha um pouco do seu percurso pessoal e profissional pela Suíça e a sua visão sobre o potencial económico de Portugal.
1- O que a levou a sair de Portugal?
Uma curiosidade profunda e o desejo constante de saber o que está para além do vasto oceano atlântico, que eu aprendi a admirar desde muito nova, uma ambição que sempre me desafiou a sair da minha zona de conforto e a arriscar. A confiança de que poderia vir a ser uma cidadã do mundo.
Começando em Aveiro, a minha jornada académica e profissional levou-me a cruzar fronteiras de Dublin a Paris, de São Francisco a Zurique, tendo experienciado, por motivos de trabalho e lazer, todos os continentes.
Procurava um ecossistema global onde pudesse fundir a minha paixão pelas ciências sociais e o marketing com a gestão de sistemas de informação e inteligência artificial, encontrando na tecnologia o veículo ideal para ter impacto no negócio de algumas das maiores empresas mundiais nos respetivos sectores de atividade, e, ainda mais importante, fazer parte de uma empresa com produtos que fazem parte da vida de biliões de pessoas que cruzam fronteiras de culturas.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser portuguesa?
Eu penso de uma forma muito positiva e otimista. Não consigo pensar numa desvantagem de ser portuguesa – sou e sempre serei com muito orgulho. Trago comigo a curiosidade, a resiliência e a estamina — os portugueses “não desistem”, e isso é uma marca distintiva que penso ser muito nossa. Continuamos a procurar, a descobrir o que é possível (e impossível!), de fazer acontecer mesmo quando os “velhos do Restelo” nos dizem que é difícil. Muitos são os exemplos de sucesso lá fora e cá dentro.
Além disso, trago comigo os valores que herdei dos meus avós maternos, que geriam uma padaria de sucesso em Portugal nos anos 50. Eles ensinaram-me a importância do trabalho árduo, da humildade e de conhecer intimamente as necessidades de cada cliente (eles sabiam o nome e o pedido de cada pessoa que entrava pela porta!). Essa capacidade de criar conexões genuínas, personalizadas, próximas e duradouras é algo muito português.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
Eu encaro os obstáculos como oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento de “músculos” que se tornam novas competências profissionais e pessoais.
Ao longo destes quase 20 anos desde que saí de Portugal, senti que o maior desafio é gerir a distância dos que mais amamos e pensar nas oportunidades que poderia estar a perder em Portugal, a contribuir para criar valor no país em vez de o fazer lá fora.
Do ponto de vista mais profissional, saber se a oportunidade que escolho é a certa num determinado momento e se me ajuda a aprender algo de novo, em especial num contexto altamente competitivo, de intenso ritmo e em que temos de permanecer relevantes, sempre.
Supero os desafios, mantendo-me fiel aos meus princípios de liderança, enfrentando o sucesso e os meus erros com a mesma humildade e o recurso a mentores e coaches estratégicos que nos desafiam a sair da nossa zona de conforto e nos guiam no caminho de forma autêntica.
4 – O que mais admira no país onde está?
Trago comigo o melhor dos países em que vivi – a coragem de Portugal, o sentido de arriscar dos Estados Unidos, a importância do humor na Irlanda, o savoir faire de França e o sentido de uma vida mais organizada na Suíça. Na Suíça, admiro a precisão, a lealdade e o respeito mútuo que regem tanto a vida social como os negócios. É um ecossistema altamente propício à inovação e ao empreendedorismo, onde existe um verdadeiro respeito pelo equilíbrio de vida. A influência das universidades na vida do país é admirável – tem duas das melhores universidades do mundo a nível de ciências e tecnologia
5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?
A Google é uma organização única, principalmente em comparação com as outras empresas tecnológicas de grande escala. Ainda que tenha crescido imenso nestes últimos 20 anos, os seus valores e ADN permanecem – o foco no utilizador, numa inovação que faz do impossível possível e o facto da cultura organizacional colocar as pessoas em primeiro lugar. Na Google, aprendi que se tens as pessoas certas na tua equipa, a estratégia e os objetivos devem ser cocriados — não pode ser apenas uma pessoa a decidir. O papel do líder é como um maestro de uma orquestra – guiar, trazer o melhor talento de cada um e saber quando deixar uma posição para dar oportunidades a outros que estão prontos e podem ser melhores no seu desempenho. Nesse momento, compete ao líder abrir caminho e crescer para um âmbito que ainda não experimentou.
Além disso, admiro o compromisso de usar a IA e a tecnologia para fins maiores, indo ao encontro do impacto social positivo e na procura de soluções para alguns dos maiores desafios humanos – tratamentos inovadores para o combate a doenças raras e ao cancro, soluções para reduzirem o impacto das mudanças climáticas na vida das pessoas e na obtenção de fontes de energia.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Aprendam com o melhor que se faz em outros países – a nível de desenho urbano e criação de espaços verdes que promovem o movimento, a independência das crianças e dos jovens, as vivências de comunidades que se apoiam localmente. A nível de competitividade empresarial – com medidas de atração de talento qualificado que produz e é compensado. Com líderes nas áreas públicas e privadas que são escolhidos pelo nível de competência e potencial. Com decisões que estão suportadas por aquilo que as análises de informação mostram e não por emoções ou opiniões.
7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?
Na Suíça, o mercado valoriza profundamente a qualidade, o design e o serviço personalizado. As empresas portuguesas encontram excelentes oportunidades nos sectores de consumo – por exemplo, vinhos finos e produtos artesanais gourmet, na indústria têxtil e de calçado de luxo sob medida, e em serviços tecnológicos altamente especializados, onde o talento técnico português pode oferecer agilidade, competência e um espírito inovador.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?
Os investidores suíços valorizam a estabilidade, a excelência e o talento de engenharia português, que se destaca pela sua resiliência histórica. Portugal é extremamente atrativo para investimento em Centros de Investimento e Desenvolvimento e de Hubs Tecnológicos, projetos de Transição Energética e Sustentabilidade, e em startups de Deep Tech, que necessitam de capitais experientes que evoluam de ideias para empresas de alcance global.
9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?
A criação de um ecossistema de suporte ao empreendedorismo assente em mentoria e aconselhamento estratégico de qualidade.
Na Suíça, os conselhos de administração e consultores apoiam genuinamente os fundadores, abrindo portas a investidores e parceiros enquanto os desafiam de forma construtiva.
Portugal beneficiaria muito de uma rede estruturada onde líderes experientes partilham o seu conhecimento acumulado de forma sistemática para “guiar” a próxima geração de empreendedores.
10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?
Esta é uma pergunta constante na nossa vida familiar. Vai depender de onde os meus filhos queiram estudar e viver daqui a uns anos. Gostava de voltar um dia. O meu objetivo seria canalizar toda esta experiência internacional, e a paixão por conceitos inovadores de inteligência artificial para o desenvolvimento de Portugal.
Em particular, quero dedicar-me a causas que me são muito queridas, como o apoio a jovens e adolescentes e o desenvolvimento de iniciativas focadas em neuro-diversidade.