No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Fernanda Torre, CEO da Next Agents e COO e Co-fundadora do Boards Impact Forum, partilha um pouco do seu percurso pessoal e profissional na Suécia, e a sua visão sobre o potencial económico de Portugal.
1- O que a levou a sair de Portugal?
Ao longo da vida, noto um padrão em mim: sempre escolhi o caminho mais difícil, a via menos óbvia, a alternativa pouco clara. Ficar em Portugal teria sido a opção segura, e eu preciso constantemente de me testar e de compreender os meus limites. Identifico-me pelos meus contornos, pelas minhas arestas, e por isso coloco-me sempre nas situações mais desafiantes.
Isto sempre se revelou assim. Ainda miúda, no secundário, estava num programa de artes com matemática e geometria descritiva, mas inscrevi-me numa disciplina extra de físico-química. Só para ver se conseguia. Sair de Portugal foi, afinal, coerente com quem sou. Vir para a Suécia era um salto para o desconhecido, era o teste de que precisava.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser portuguesa?
Ser portuguesa é ser percecionada como “neutra” na Suécia, mas trouxe-me uma grande vantagem: a qualidade da educação pública portuguesa. Quando cheguei para trabalhar fiz o programa Inov-Artes e depois estudei Design de Experiências na Konstfack. O que descobri foi que o meu background educativo e a cultura de trabalho portuguesa não estavam atrás da sueca. Pelo contrário.
Em Portugal, temos uma cultura de trabalho muito sólida: trabalhamos intensamente, damos muito, somos dedicados. Isso trouxe-me resiliência, profundidade de compromisso e uma forma de estar que é um diferenciador real.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
Enfrentamos constantemente obstáculos, e acho que é isso que torna a vida divertida. Chamo a isto “matar monstros” – vem de quando somos miúdos e jogamos videojogos. Há diferentes níveis. Normalmente, no final de cada nível, há um monstro. Quando chegamos a esse monstro, é extremamente difícil matá-lo. Pensamos nele durante dias. Mas uma vez que o matamos, torna-se fácil. O que sempre me intrigou é que um nível que era impossível há duas semanas torna-se trivial. Depois há outro nível, outro monstro à frente. E é assim que funciona a vida. Sempre temos novos monstros para matar.
A forma como mato monstros é em comunidade. Reúno ajuda, encontro pessoas à minha volta que me podem apoiar. Quando estudava o meu MBA na Stockholm School of Economics, tinha dificuldades reais em finanças (estudei artes durante toda a vida). Então organizei grupos de estudo com os meus colegas e resolvíamos business cases juntos. Eles aprendiam, eu aprendia. Criei algo que beneficiava toda a turma.
No final, tive excelentes notas em finanças e em todas as outras disciplinas. Fui integrada na Presidente’s list, que é o top dos melhores alunos. E, mais tarde, fui convidada a lecionar no mesmo programa de MBA. Nunca o teria conseguido se tivesse tido medo de matar o monstro das finanças.
4 – O que mais admira no país onde está?
Destaco três aspetos…. Primeiro, estruturas horizontais: qualquer pessoa contribui, fala, partilha ideias. A inovação vem de qualquer lugar. Segundo, cultura de segurança: os suecos desenham para o pior cenário, pensam a longo prazo – é muito diferente da nossa cultura do “desenrasca”. Terceiro, e mais fascinante, decisões baseadas em ciência, não sentimento. Os suecos seguem dados mesmo contra o consenso. A COVID é o exemplo perfeito: estratégia diferente, e provou estar certa.
5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?
Lidero duas organizações. Uma trabalha com inovação, sustentabilidade e orquestração de um ecossistema de fornecedores de conhecimento e serviços. A outra trabalha diretamente com conselhos corporativos em governança de AI, sustentabilidade e competitividade europeia.
O que admiro em ambas é a humildade e a autêntica vontade de melhorar o mundo. Odeio bullshit. Odeio processos onde tens de pedir um pé para conseguir usar o outro, hierarquias que não acrescentam nada e burocracias que são apenas perda de tempo. Porque a verdade é que ninguém ganha com burocracia.
Na Suécia, nestas organizações, porque tudo é tão horizontal, é possível chegar-se diretamente a um diretor de conselho muito sénior, e pedir um compromisso, uma ação. Há uma vontade genuína de gerar valor, de impulsionar transformação, de fazer acontecer.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Portugal está numa grande transição geracional em termos de liderança. Há um estilo que vem da herança histórica, mas acho que está a mudar.
Se tivesse um desejo, era que os líderes e gestores portugueses fossem um pouco mais humildes e admitissem quando não sabem algo. Quase nunca ouço um português dizer “não sei”. E só aprendemos quando compreendemos o que não sabemos.
Um líder que diz “não sei isto, vamos descobrir juntos” está a empoderar toda a organização a ter a mesma atitude. “Não sabemos, mas precisamos de descobrir. Vamos crescer juntos.” O não saber não é um fracasso; o fracasso é não querer aprender, não querer descobrir.
7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?
A Suécia é um mercado difícil de entrar. Requer muito capital inicial. Os suecos são conservadores com standards e qualidade, e preferem tipicamente fornecedores e empresas suecas (verdade seja dita, têm um historial muito sólido de qualidade e fiabilidade). Mas há oportunidades.
Alimentos e produtos gourmet portugueses (azeite, qualidade) têm potencial, especialmente com mais suecos a viverem em Portugal. Design, os suecos valorizam produtos bem pensados. E, terceiro, startups com componente de inovação. Embora conservadores com estrangeiros, os suecos são atraídos por coisas novas. Se é uma startup, se é uma ideia fresca, se tem aquele elemento de inovação, a liability of foreignness desaparece.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?
Portugal tem todas as condições para ser extremamente atrativo para investimento sueco. É um país estável, seguro, com recursos naturais, universidades de qualidade, uma população educada que fala excelente inglês, e uma localização estratégica na Europa.
Há já exemplos concretos. Boliden, a maior empresa mineira sueca, investiu mais de 430 milhões de euros em Portugal, entre 2020 e 2024. As empresas suecas geraram 4,2 mil milhões de euros para a economia portuguesa nos últimos cinco anos. São 260 empresas suecas já operacionais em Portugal.
Os setores principais são a transição energética (Portugal tem potencial solar e eólico extraordinário, mas precisa infraestrutura, baterias, painéis, eletrolisadores) e minerais críticos com economia circular. O projeto Aurora (Northvolt-Galp) foi suspenso, mas a necessidade de baterias e materiais para a transição energética permanece crítica.
9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?
Há alguns anos, publiquei um artigo no Financial Times argumentando que a Europa deveria parar de ver os seus países como competidores entre si e, em vez disso, vê-los como stakeholders num ecossistema europeu maior. Cada país deveria desenvolver a sua vantagem comparativa, não competitiva.
Aplicando isto: a questão é “qual é o papel único que Portugal pode jogar neste ecossistema europeu?”
Portugal tem estado focado em turismo. Acho que é um erro estratégico. Num mundo onde a mudança climática é certa (e é ciência, não opinião), um país que depende desta forma de bom tempo está à frente de um problema existencial. O investimento em turismo é um investimento que sabemos não vai funcionar a longo prazo.
Portugal deveria, em vez disso, especializar-se no que é o grande negócio do nosso tempo: a transição climática. Clean tech, energias renováveis, wave power, wind power, novos materiais, biotech. Há tanto a ser criado. E Portugal tem um ponto de partida muito bom para isto com recursos naturais, localização, universidades e talento. No contexto europeu, Portugal tem uma vantagem comparativa real.
10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?
Sou como Ícaro, a voar muito perto do sol. Quero tudo. Quero estar na Suécia e voltar a Portugal. Nos últimos dois anos, o meu pai fez setenta anos, e agora foi a minha mãe. Isso fez-me pensar: quero ter mais conexões com Portugal, mais razões para ir a casa. Comecei a dar mais apresentações, a participar em conferências, a fortalecer a minha rede com Portugal. Tem sido muito gratificante.
O meu objetivo real é fortalecer esta ponte entre Portugal e Suécia… e ter o melhor dos dois.