12 de Maio de 2026

Entrevista a Francisco Morgadinho: “É preciso investir mais nas pessoas e na execução” | Jornal de Negócios

No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Francisco Morgadinho, Vice-President Finance & Strategy na Advanced Polymer Solutions, LyondellBasell, partilha um pouco da sua experiência profissional nos Estados Unidos da América e a sua convicção de que sair de Portugal pode ser um investimento no crescimento, mas sem que se perca a ambição de devolver ao país oportunidades.

1- O que o levou a sair de Portugal?

A minha primeira saída de Portugal foi através do programa Erasmus, na Universidade de Roterdão, que me deu, pela primeira vez, a perspetiva de um contexto internacional. Essa experiência marcou-me profundamente — tanto pelo contacto com diferentes culturas como pela possibilidade de levar a perspetiva portuguesa para as salas de aula internacionais.

Depois de regressar, defini como prioridade desenvolver a minha carreira num ambiente internacional exigente, onde pudesse aprender, acelerar o desenvolvimento profissional, crescer e criar impacto. Aos 22 anos, fui recrutado pela General Electric (GE), iniciando um percurso de trabalho em várias funções financeiras e estratégicas nas áreas de energia, química, petróleo e funções corporativas, dando-me a oportunidade de viver em dez países: Estados Unidos, Holanda, Alemanha, Itália, Espanha, Inglaterra, Irlanda, Escócia, Angola e Brasil. Além da GE, tenho tido experiências profissionais e pessoais muito especiais noutras companhias (Baker Hughes e LyondellBasell), muito exigentes e fundamentais para desenvolver liderança, disciplina financeira e execução estratégica.

2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?

Ser português tem sido sobretudo uma vantagem competitiva. Os portugueses distinguem-se pela capacidade de adaptação, bom relacionamento com as equipas e com os líderes, empatia intercultural, resiliência e forte sentido de compromisso. Somos reconhecidos como profissionais orientados para soluções, com facilidade em criar relações de confiança e com um elevado grau de compromisso para atingir os objetivos das empresas.

A principal limitação não está no talento, mas na forma como Portugal se posiciona globalmente. Penso que é crítico comunicar e partilhar o valor que os portugueses e as Companhias Portuguesas podem trazer a várias indústrias e companhias globais. O mérito existe e é reconhecido, mas nem sempre é comunicado com a ambição suficiente.

3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?

O maior desafio foi começar em vários contextos culturais e organizacionais muito distintos e ter de aprender e desenvolver rapidamente uma experiência global em indústrias muito importantes. A adaptação cultural revelou-se muito importante para criar relações com líderes e companheiros que têm muita experiência e foi fundamental para desenvolver a competência técnica. Liderar equipas multiculturais, lidar com processos decisórios diferentes e trabalhar em organizações complexas exigiu escuta ativa, disciplina analítica e apoio de mentores.

O foco contínuo na aprendizagem, a curiosidade intelectual e a execução consistente foram essenciais para transformar esses desafios em crescimento profissional.

4 – O que mais admira no país onde está?

Nos Estados Unidos, admiro a agilidade, a capacidade de execução e a mentalidade orientada para o crescimento das empresas, nomeadamente em termos financeiros. É um mercado onde “experimentar, identificar oportunidades, e como avançar” faz parte da cultura, e o valor para os clientes e a inovação continuam a ser prioridades para crescer.

O ecossistema norte-americano destaca-se pela sua eficiência institucional, tolerância ao risco e forte integração entre empresas, consultores e academias. Mas para atingir os resultados, é fundamental desenvolver as organizações, desenvolver oportunidades profissionais e valorizar o mérito dos trabalhadores. Estes elementos permitem aos líderes e às organizações definir os objetivos, tomar decisões e implementar as estratégias em grande escala, para crescer acima do mercado.  E isso é também fundamental para investimentos públicos nas Bolsas NYSE e NASDAQ.

5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?

A LyondellBasell foca-se nas dinâmicas do mercado e isso determina a capacidade de transformar estratégia em resultados concretos. O foco está em identificar oportunidades de crescimento para crescer financeiramente. Esta abordagem tem permitido liderar processos de transformação, gerar valor sustentável para clientes e acionistas e explorar oportunidades de inovação, automação de processos e Inteligência Artificial que aumentam a eficiência operacional.

Para atingir estes objetivos, a empresa promove uma cultura de crescimento, e isso gera muitas oportunidades de desenvolvimento aos recursos profissionais da empresa. Como a empresa é global e tem produtos e aplicações em muitas indústrias – Automotive, Consumer Goods, Electronics, Healthcare, Building and Construction –, desenvolve a transformação efetiva com várias empresas em todos os países e indústrias, o que nos ajuda a crescer profissionalmente de forma muito significativa.

6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?

A principal recomendação é investir mais nas pessoas e na execução. Menos burocracia, mais previsibilidade e maior foco na execução são fundamentais. Igualmente importante é a proximidade dos líderes às suas equipas.  Continuar a desenvolver os recursos profissionais, e dar-lhes oportunidades de crescimento nas nossas empresas portuguesas, vai continuar a acelerar o crescimento.

As empresas precisam de alinhar claramente objetivos, prioridades e desenvolvimento de talento. As pessoas são o principal motor de crescimento — e muitas organizações ainda subestimam esse facto. Desenvolver experiência global deve ser também uma oportunidade para continuar a fazer crescer companhias portuguesas que têm soluções com muito valor para várias indústrias.

7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?

Nos Estados Unidos há claras oportunidades para empresas portuguesas nas áreas da tecnologia, energias renováveis, sustentabilidade, engenharia, indústrias têxtil e agroalimentar e serviços especializados.

Algo que faz muita diferença para criar oportunidades é a capacidade de dar visibilidade e comunicar o valor, a experiência e a diferenciação. As empresas americanas procuram crescimento global, e é fundamental dar visibilidade ao valor acrescentado de empresas portuguesas na aceleração do crescimento, algo que pode trazer importantes oportunidades para as nossas empresas.

8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?

Portugal é particularmente atrativo para investimentos em energia, tecnologia, inteligência artificial e saúde. O país tem também muito talento e custo competitivo, o que dá oportunidade a empresas globais de terem serviços centrais em países como Portugal.

Além disso, Portugal tem uma posição geográfica e uma ligação muito efetiva com muitos outros países (ex.: União Europeia, Angola, Brasil), e isso pode dar oportunidade a empresas americanas globais para atingir mais rapidamente outros países.

9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?

A maior vantagem competitiva dos EUA é a centralização global de várias indústrias, o que traz liderança e experiência acumulada aos profissionais e investimentos e estabelece prioridades para acelerar crescimento. Investir para melhorar eficiência, reduzir custos e aumentar valor, é fundamental para tomar as decisões corretas, definir as prioridades e executar as ações para promover o crescimento das empresas.

Portugal pode replicar esses elementos, beneficiando adicionalmente de custos mais competitivos, tornando-se um centro estratégico para operações globais.

10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?

Profissionalmente, poder levar a experiência profissional e a liderança global adquiridas que tive em várias empresas multinacionais e em vários países, penso que poderia trazer valor para empresas portuguesas ou multinacionais que poderiam desenvolver mais presença em Portugal. Pessoalmente, Portugal é o meu país de origem e com o qual me identifico cultural e emocionalmente.

Partilhar com a Diáspora Portuguesa é um ativo estratégico e espero continuar a desenvolver oportunidades para o nosso País.