No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, José Lupi, advogado e Sócio-Gerente da Lupi & Associados, partilha um pouco do seu percurso profissional em Macau e a sua visão sobre o modelo económico chinês.
1- O que o levou a sair de Portugal?
Após concluir a licenciatura em Direito em Portugal, percebi que o mercado nacional, embora sólido, oferecia menos oportunidades de crescimento acelerado numa escala global quando comparado com um mercado como o da China. Escolhi Macau como ponto de entrada e base operacional há mais de quinze anos, pela sua posição estratégica como plataforma histórica de ligação entre a China e os países de língua portuguesa. Esta escolha permitiu-me aceder ao vasto mercado chinês — da China continental, onde estive sedeado em Chongqing e Pequim, à Grande Baía e aos projetos da Iniciativa Uma Faixa e Uma Rota. A combinação da minha formação jurídica europeia com o dinamismo económico e a transformação da China foi decisiva. Macau e Hong Kong são hoje a minha base, mas o foco principal do meu trabalho é o mercado chinês, na interface entre dois mundos que domino: o lusófono e o chinês.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser português?
Ser português é, sem qualquer dúvida, uma enorme vantagem competitiva. A identidade lusófona gera confiança imediata junto de investidores e empresas chinesas que procuram parceiros em Portugal, na África lusófona, no Brasil e noutros mercados de língua portuguesa — regiões estratégicas para a Iniciativa Uma Faixa e Uma Rota. Esta “diplomacia cultural” facilita a construção de relações de longo prazo num ambiente onde a proximidade cultural é valorizada. A nossa reputação de adaptabilidade e excelência relacional abre portas que, por vezes, são mais difíceis para outras nacionalidades. Não identifico desvantagens significativas; pelo contrário, o passaporte português e a formação em direito civil europeu conferem credibilidade adicional em transações internacionais envolvendo jurisdições chinesas e lusófonas.
3 – Que obstáculos teve de superar e como o fez?
Os principais desafios no mercado chinês foram a barreira linguística inicial e a diferença entre sistemas jurídicos e culturais de negócio. O ritmo extremamente acelerado e a complexidade regulatória da China continental exigem adaptação constante. Superei estes obstáculos com um investimento intenso e contínuo no mandarim — hoje sou fluente e utilizo-o diariamente em negociações e contratos. Paralelamente, construí uma rede sólida de contactos através de associações empresariais e da participação ativa em fóruns da Grande Baía e da Iniciativa Uma Faixa e Uma Rota. A persistência, a humildade para aprender e a capacidade de adaptação portuguesa foram decisivas. Hoje, esta combinação de competências linguísticas e culturais é um dos principais diferenciais do nosso escritório no mercado chinês.
4 – O que mais admira no país onde está?
O que mais admiro na China é a visão estratégica de longo prazo e a capacidade de execução em escala sem precedentes. A transformação económica, tecnológica e urbana das últimas décadas — com investimentos massivos em infraestruturas, inovação (IA, 5G, energias renováveis) e integração regional da Grande Baía — é impressionante. Valorizo o respeito profundo pela educação, pela disciplina de trabalho e pela harmonia entre tradição e modernidade. A China não só constrói o futuro, como o planeia com precisão através de planos quinquenais que articulam sector público e privado de forma exemplar. É um país onde a ambição coletiva se traduz em resultados concretos e onde a Iniciativa Uma Faixa e Uma Rota redefiniu o comércio global.
5 – O que mais admira na empresa ou organização onde está?
Na Lupi & Associados, com sede em Macau, como base operacional para o mercado chinês, admiro a combinação única de especialização jurídica internacional com profundo conhecimento do mercado da China. Como sócio fundador, orgulho-me de termos construído uma equipa multicultural e multilíngue (português, mandarim, cantonense, inglês, italiano, francês e espanhol) especializada em fusões e aquisições, investimento estrangeiro e direito societário. Destaco a nossa parceria estratégica com um escritório internacional de referência que será anunciada em breve, que nos permite oferecer uma cobertura integrada e de excelência em projetos entre a China e os países lusófonos. Esta parceria reforça a nossa capacidade de atuar como plataforma não só de línguas, mas de culturas de negócio, tornando-nos verdadeiros parceiros estratégicos de empresas chinesas e lusófonas. A cultura de proximidade ao cliente, inovação constante e conhecimento de mercado é o nosso maior ativo no mercado chinês.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Portugal deve apostar decididamente na China como prioridade estratégica de internacionalização, utilizando a Iniciativa Uma Faixa e Uma Rota como alavanca e Macau como porta de entrada privilegiada. Recomendo maior agilidade regulatória, incentivos à internacionalização e uma estratégia nacional coordenada de promoção junto dos decisores chineses. Aos empresários sugiro: (i) adotar uma visão de longo prazo; (ii) investir na formação de quadros em mandarim e compreensão cultural da China; (iii) privilegiar parcerias reais com empresas chinesas, em vez de abordagens pontuais; (iv) focar sectores onde Portugal tem vantagem competitiva (energias renováveis, saúde, turismo de luxo, vinho, azeite, tecnologia médica). A China recompensa quem demonstra compromisso sustentado e respeito mútuo.
7 – Em que setores do país onde vive poderiam as empresas portuguesas encontrar clientes?
No mercado chinês, as oportunidades para empresas portuguesas são vastas, nomeadamente em: energias renováveis e transição energética; saúde e equipamentos médicos; turismo integrado e hospitalidade de luxo; educação superior e formação profissional; alimentos e bebidas premium (vinhos, azeites, produtos gourmet); tecnologias de informação, cibersegurança e IA aplicada; infraestruturas sustentáveis; serviços financeiros e fintech; e fusões e aquisições para entrada de capital lusófono na China. O nosso escritório acompanha diariamente empresas portuguesas que procuram clientes e parceiros no mercado chinês através da Grande Baía e da Iniciativa Uma Faixa e Uma Rota.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde vive querer investir?
As empresas chinesas demonstram crescente interesse em investir em Portugal nos seguintes sectores: energias renováveis (eólica offshore e solar); turismo e hospitalidade de luxo; portos e logística (como Sines); tecnologia e startups; indústria farmacêutica e dispositivos médicos; agricultura de precisão e produtos alimentares premium; e imobiliário de luxo. A China vê em Portugal estabilidade, qualidade de vida, acesso ao mercado europeu e know-how em sectores regulados onde pretende acelerar a sua presença internacional.
9 – Qual a vantagem competitiva do país onde vive que poderia ser replicada em Portugal?
A grande vantagem competitiva da China é a articulação estratégica entre planeamento de longo prazo (planos quinquenais), execução rápida e forte colaboração entre sector público e privado. Outros fatores replicáveis são o investimento massivo em educação STEM, a digitalização acelerada da economia (fintech, comércio eletrónico, cidades inteligentes) e a capacidade de reinventar regiões inteiras através de projetos de escala como a Grande Baía. Portugal poderia inspirar-se nesta visão integrada e na agilidade na aprovação de projetos estratégicos para acelerar o seu próprio desenvolvimento.
10 – Pensa voltar a Portugal? Porquê?
Estou profundamente comprometido com o meu papel de ponte entre a China e a lusofonia, a partir da sede do nosso escritório em Macau. O regresso a Portugal faz parte das minhas perspetivas futuras, mas sempre a título parcial e numa perspetiva de complementar o contributo para as relações entre a China e os países lusófonos também a partir de Portugal. Quando estiver de volta, será para trazer a experiência acumulada nestes mais de quinze anos — rede de contactos no mercado chinês, conhecimento profundo da Iniciativa Uma Faixa e Uma Rota e capacidade de estruturar operações internacionais — e continuar a contribuir ativamente para a internacionalização da economia portuguesa. Por agora, considero que a minha maior contribuição para Portugal está precisamente aqui, ajudando empresas nacionais a conquistarem espaço numa das maiores economias do mundo.