No âmbito da parceria entre o Conselho da Diáspora Portuguesa e o Jornal de Negócios, Manuela Pardal, Administradora de Infraestruturas, Supply Chain e IT na TAAG – Linhas Aéreas de Angola, e Conselheira da Diáspora Portuguesa em Angola, partilha um percurso internacional marcado pela aposta em novos desafios e pela adaptação a contextos exigentes fora de Portugal. Na entrevista, destaca o papel da experiência acumulada e da capacidade de sair da zona de conforto como motores de crescimento profissional, bem como a importância da escuta ativa e da compreensão do contexto local. Sublinha as vantagens da afinidade cultural e linguística entre Portugal e Angola, sem descurar os desafios inerentes a diferentes realidades operacionais. Admira em Angola a energia, a resiliência e o potencial humano, defendendo uma cooperação baseada em parcerias sustentáveis, confiança mútua e criação de valor a longo prazo entre os dois países.
1 – O que a levou a sair de Portugal?
Saí de Portugal em 2011, motivada por um desafio profissional lançado pela Refriango: desenvolver e consolidar a rede logística da empresa em Angola. Na altura, já contava com cerca de vinte anos de experiência na área de supply chain, acumulada em diferentes contextos empresariais. O convite representava uma oportunidade de colocar esse conhecimento ao serviço de um mercado em crescimento e, simultaneamente, de me testar num ambiente cultural e económico distinto.
A decisão implicou sair da minha zona de conforto, mas foi sustentada pela convicção de que o crescimento profissional se constrói também com coragem e abertura a novos horizontes.
2 – Que vantagens ou desvantagens lhe trouxe o facto de ser portuguesa?
Ser portuguesa em Angola tem sido, simultaneamente, uma vantagem e um desafio. Por um lado, a língua em comum e a afinidade histórica entre os dois países facilitaram a integração e o estabelecimento de relações de confiança com colegas e parceiros locais. Existe um vínculo natural entre portugueses e angolanos, que se traduz numa empatia genuína e num entendimento espontâneo no dia a dia profissional.
Por outro lado, ser estrangeira implica também uma aprendizagem constante: compreender as diferenças culturais, ajustar expectativas e adotar uma postura de respeito e escuta ativa. Mais do que aplicar modelos importados, aprendi que o sucesso passa por compreender o contexto local e construir soluções em conjunto, de forma colaborativa e adaptada à realidade angolana.
3– Que obstáculos teve de superar e como o fez?
Os principais desafios que enfrentei estiveram ligados às diferenças estruturais e operacionais do mercado angolano, sobretudo na área da logística e distribuição. Quando cheguei, o sistema apresentava reduzida capilaridade, o que limitava o alcance e a frequência das entregas. Um dos eixos centrais do trabalho foi o reforço do route to market, redesenhar o modelo de distribuição, reduzindo o tamanho médio das entregas e aumentando a frequência. Exigiu planeamento, investimento em formação e, acima de tudo, uma equipa alinhada e resiliente. Este percurso revelou-se um exercício de superação e uma experiência humana e profissional muito enriquecedora.
4 – O que mais admira no país em que está?
O que mais me cativa em Angola é a energia e a vitalidade das pessoas. Existe uma resiliência verdadeiramente admirável, uma capacidade de reinventar e seguir em frente mesmo perante as adversidades. Essa força humana sente-se em vários contextos: nas equipas de trabalho, nos empreendedores locais e na forma como as pessoas encaram cada dia.
Luanda, em particular, é uma cidade intensa e dinâmica, onde os desafios se transformam em oportunidades diárias. Angola tem um potencial enorme, tanto a nível económico como humano, e essa energia inspira quem cá está a querer contribuir e evoluir.
5 – O que mais admira na empresa/organização em que está?
Admiro a capacidade da TAAG para se reinventar e enfrentar desafios complexos com profissionalismo e um forte espírito de equipa. A abertura do novo Aeroporto Internacional Agostinho Neto foi um exemplo marcante dessa competência: a transição entre aeroportos decorreu de forma gradual, segura e sem impacto para os passageiros, tornando-se um caso de sucesso do projeto ORAT (Operational Readiness and Airport Transfer). Este feito evidencia o rigor técnico e a coordenação exemplar das equipas. A TAAG continua a modernizar a sua frota, a reforçar rotas estratégicas e a investir na formação, unindo tradição e visão de futuro.
6 – Que recomendações daria a Portugal e aos seus empresários e gestores?
Aos empresários e gestores portugueses recomendaria que olhassem para mercados como o angolano, não apenas como destinos de exportação, mas como espaços de aprendizagem e cooperação. Angola é um mercado desafiante, mas repleto de oportunidades, onde a adaptação e o sentido prático são essenciais. Trabalhar aqui obriga a repensar modelos, encontrar soluções criativas e valorizar o conhecimento local. A presença portuguesa pode ser diferenciadora se for construída sobre relações de parceria genuína e de longo prazo, baseadas na confiança e no respeito mútuo. Mais do que ganhos imediatos, é essencial investir em projetos sustentáveis que criem valor real para ambas as partes.
7 – Em que setores do país onde vive poderão as empresas portuguesas encontrar clientes?
O setor da construção e obras públicas continua a representar oportunidades relevantes, sobretudo nas áreas de reabilitação urbana, energia e saneamento.
Na logística e transportes, existe uma procura crescente por soluções tecnológicas, formação e consultoria, áreas onde Portugal tem uma forte experiência.
O turismo e a hotelaria em Angola apresentam também grande potencial de crescimento, abrindo oportunidades de investimento e beneficiando da afinidade cultural e do saber-fazer português.
Por fim, a formação e o desenvolvimento de competências são espaços privilegiados de colaboração, pela língua em comum e pela confiança mútua, as quais posicionam Portugal como parceiro privilegiado na capacitação de quadros angolanos.
8 – Em que setores de Portugal poderiam as empresas do país onde está querer investir?
As empresas angolanas têm vindo a demonstrar um maior interesse em investir em Portugal, sobretudo em setores ligados ao turismo, imobiliário, energia, agroalimentar e transportes. Portugal oferece estabilidade, segurança jurídica e um ambiente de negócios previsível, o que o torna atrativo para a diversificação de investimentos. É também um mercado com forte ligação a Angola, permitindo adquirir experiência, tecnologia e acesso a novos mercados. O futuro passará por parcerias que combinem capital e conhecimento, promovendo projetos sustentáveis e de longo prazo.
9 – Qual a vantagem competitiva do país em que está que poderia ser replicada em Portugal?
Em Angola, destaca-se a flexibilidade com que se lida com o imprevisível. Existe uma notável capacidade para tomar decisões rapidamente, para encontrar soluções e fazer acontecer. Essa agilidade, aliada ao sentido prático, contrasta com a tendência portuguesa para o planeamento detalhado e para a busca da solução perfeita. Em Portugal, o controlo de todas as variáveis pode, por vezes, atrasar a execução. A lição que Angola oferece é que a flexibilidade não se opõe ao planeamento: complementa-o. Saber adaptar-se e agir com confiança, mesmo sem todas as certezas, é essencial para prosperar em ambientes de mudança.
10 – Pensa voltar para Portugal? Porquê?
Sim, penso regressar a Portugal, embora ainda sem uma data definida. Neste momento, os projetos que tenho em Angola continuam a ser motivadores e a proporcionar-me um forte sentido de realização. Sinto que ainda há muito a construir e a consolidar. O regresso acontecerá naturalmente, quando sentir o ciclo completo. Será uma transição marcada pela aprendizagem e pelo desejo de aplicar em Portugal tudo o que vivi e aprendi. Mais do que uma despedida, será uma continuidade, fortalecendo as pontes entre os dois países.